O Bank of America (BofA) cortou o preço-alvo da SLC Agrícola (SLCE3) de R$ 20,00 para R$ 19,00 e manteve a recomendação neutra para as ações em relatório assinado pelas analistas Isabella Simonato e Julia Zaniolo, divulgado na noite de segunda-feira, 19 de maio.
O novo valor implica potencial de valorização de 13,2% ante o fechamento de R$ 16,79, em uma tese marcada por início de safra fraco, retomada esperada no curto prazo e nuvens no horizonte de 2027.
O ajuste no preço-alvo reflete sobretudo o impacto de um real mais forte sobre as projeções de longo prazo. O banco passou a trabalhar com câmbio de R$ 4,90 ao fim de 2026 e R$ 4,75 ao fim de 2027, ante R$ 5,25 previstos anteriormente.
Apesar do corte, o BofA elevou em 4% sua estimativa de Ebitda para 2027, para R$ 3 bilhões, refletindo melhores níveis de hedge no algodão, enquanto manteve a projeção de Ebitda de 2026 em R$ 2,95 bilhões.
Resultado abaixo do esperado
Os números da SLC Agrícola no primeiro trimestre de 2026 vieram abaixo do esperado. O desempenho foi puxado por um volume maior de vendas vindo de fazendas com produtividade abaixo da média, margens mais fracas no algodão e despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A) acima do previsto. Para os trimestres seguintes, o BofA projeta retomada gradual, sustentada por um mix de vendas de soja mais favorável.
“Esperamos uma recuperação sequencial, apoiada em um melhor mix de vendas de soja. Para 2026, antecipamos produtividade forte, particularmente em soja e algodão, mas as margens devem permanecer sob pressão devido aos baixos preços de grãos e aos custos mais altos”, escrevem Isabella Simonato e Julia Zaniolo no relatório.
A leitura do banco é de que a tese de investimento da companhia preserva atributos positivos no médio prazo, com histórico consistente de alocação de capital e ganhos de produtividade. Ainda assim, o cenário de fluxo de caixa negativo projetado para este ano, somado a custos crescentes na próxima safra e a um real menos depreciado, limita o potencial de valorização imediato das ações.
Algodão sustenta a tese
O algodão segue como destaque positivo. A SLC continua travando preços para 2026 e, especialmente, para 2027 em patamares atrativos, em um contexto de tensões geopolíticas que pressionam o preço das fibras sintéticas e de oferta mais apertada em regiões produtoras importantes.
O preço spot da pluma gira em torno de US$c 80/lb (centavos de dólar por libra-peso), e a companhia revisou para cima sua referência normalizada para US$c 76/lb, ante a faixa anterior de US$c 60-65/lb. O BofA também elevou sua premissa de preço do algodão para 2027, de US$c 70/lb para US$c 78/lb.
“A companhia continua a fazer hedge de algodão em níveis atrativos para 2026 e especialmente para 2027, apoiada em preços mais altos de fibras sintéticas em meio a tensões geopolíticas e oferta mais apertada em regiões produtoras-chave. Vemos a estratégia positivamente, particularmente com preços spot ao redor de US$c 80/lb”, afirmam as analistas.
Riscos para 2027
Os principais riscos no radar do BofA estão concentrados no ciclo 2026/2027 e se dividem em duas frentes. A primeira é o custo dos fertilizantes, com destaque para o nitrogênio, cujas compras estão sendo postergadas pela SLC justamente para tentar capturar preços melhores.
A janela de aplicação do insumo é mais tardia, novembro no algodão e fevereiro no milho, o que dá folga de tempo à companhia. A segunda é a possibilidade de um El Niño afetar a produtividade das lavouras na próxima safra.
A leitura do banco contrasta com parte do mercado, que vê risco maior de aperto na oferta em razão do prolongamento de conflitos geopolíticos. A SLC também adotou uma postura mais disciplinada na aplicação de fertilizantes, movimento avaliado como prudente pelas analistas.
“Vemos como prudente, já que uma estrutura de custos mais enxuta oferece proteção em cenários de menor produtividade, ajudando a mitigar a compressão de margens e a perda de alavancagem operacional caso condições adversas se materializem”, escrevem Simonato e Zaniolo.
Estimativas e valuation
Na revisão das projeções, o BofA reduziu a estimativa de receita líquida de 2026 em 3,4%, para R$ 9,07 bilhões, e elevou as de 2027 e 2028 em 2,3% e 1,4%, para R$ 9,58 bilhões e R$ 9,73 bilhões. O lucro líquido de 2026 foi cortado em 8,6%, para R$ 709 milhões, com revisões mais expressivas em 2027 (queda de 33,4%, para R$ 554 milhões) e 2028 (queda de 36,2%, para R$ 600 milhões). O dividendo por ação de 2026 também recuou, de R$ 1,02 para R$ 0,57.
O preço-alvo de R$ 19,00 é baseado em modelo de fluxo de caixa descontado (DCF), com Custo Médio Ponderado de Capital (WACC) de 11% em reais, prêmio de risco-país de 2,2 pontos percentuais para o Brasil e crescimento de 4% na perpetuidade. O modelo não incorpora vendas adicionais de terras.
Entre os riscos de alta para o preço-alvo, o banco lista preços de grãos sustentados em patamares mais elevados, produtividade acima do esperado, depreciação adicional do real, captura de sinergias com ativos recentemente adquiridos e uma reprecificação das ações após o investimento estratégico da família Scheffer.
No campo dos riscos de baixa, aparecem queda nos preços de grãos, alta de fertilizantes e defensivos, custos de frete mais elevados, clima desfavorável, apreciação cambial, venda de terras abaixo do valor de mercado e custos de arrendamento mais altos. A recomendação neutra reflete a percepção de risco-retorno equilibrado nos preços atuais.






