O Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) encerrou o primeiro trimestre de 2026 com resultados que mostram dois movimentos simultâneos e aparentemente contraditórios: a operação segue melhorando sua rentabilidade, mas o balanço foi fortemente impactado por baixas contábeis e efeitos não caixa que elevaram o prejuízo líquido consolidado a R$ 1,437 bilhão — ante R$ 169 milhões no mesmo período de 2025, uma deterioração de 752%.
O grande diferencial do trimestre, no entanto, foi a conclusão das negociações da recuperação extrajudicial, evento que a companhia apresenta como um divisor de águas para a sustentabilidade financeira do grupo.
A receita bruta recuou 5,2%, de R$ 5,1 bilhões no 1T25 para R$ 4,8 bilhões no 1T26. A queda, porém, é explicada em grande parte por uma decisão estratégica: a descontinuação do formato Aliados, modelo de venda direta para pequenos comércios, que respondeu por -5,0 pontos percentuais da retração.
Excluindo esse efeito e ajustes de portfólio de lojas, as vendas em mesmas lojas avançaram 0,6% — resultado que a gestão classifica como resiliente diante de um ambiente de consumo pressionado por deflação em itens básicos de mercearia e desaceleração econômica.
Margens em expansão
Se a receita recuou, a lucratividade operacional seguiu trajetória oposta. A margem bruta saltou de 27,6% para 30,4% — alta de 2,9 pontos percentuais —, impulsionada pela combinação entre a saída de canais menos rentáveis, avanço de 45% nas receitas de retail media e maior eficiência logística.
O Ebitda Ajustado Consolidado cresceu 12,0%, de R$ 409 milhões para R$ 458 milhões, com margem de 10,5%, o maior patamar registrado desde o início do projeto de turnaround iniciado em 2022.
As despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A) somaram R$ 917 milhões, queda nominal de R$ 33 milhões em relação ao primeiro trimestre de 2025, reflexo das iniciativas do Plano de Eficiência 2026. No trimestre, a companhia capturou R$ 99 milhões em reduções de custos e despesas, equivalente a 23,9% da meta anual de R$ 415 milhões. As frentes de captura incluíram redução de quadro de pessoal, renegociação de contratos de TI, ganhos em logística de fretes e renegociação de contratos de ocupação.
O Capex ajustado recuou 54,8% na comparação anual, totalizando R$ 87 milhões no 1º trimestre de 2026, ante R$ 192 milhões no mesmo período do ano passado. A companhia confirmou que não há abertura de novas lojas prevista para os próximos trimestres, mantendo o foco na preservação de caixa.

Recuperação extrajudicial
O evento central do trimestre foi a celebração de um novo plano de recuperação extrajudicial, divulgado em fato relevante no dia 5 de maio de 2026. O acordo foi firmado com credores representando 57,49% do total de R$ 4,6 bilhões em créditos sujeitos ao plano e aprovado por unanimidade pelo Conselho de Administração. O processo segue pendente de homologação judicial.
Com a aprovação, a dívida pecuniária da companhia deve ser reduzida de R$ 4,568 bilhões para aproximadamente R$ 2,083 bilhões. O prazo médio seria alongado de 2,1 para 6,4 anos, e o custo médio cairia de CDI + 1,8% ao ano para CDI + 0,5% ao ano. A alavancagem financeira pro forma, que atualmente está em 3,6x o EBITDA Ajustado pré-IFRS 16 dos últimos 12 meses, teria potencial de recuar para 0,9x — uma redução de 2,7 vezes.
O plano prevê duas emissões de debêntures. A Emissão A conta com uma série pecuniária de até R$ 1,5 bilhão e uma série conversível de até R$ 1,1 bilhão. A Emissão B, em série única, teria valor de aproximadamente R$ 2,0 bilhões, com deságio de 70% e vencimento bullet em setembro de 2036. Adicionalmente, o plano abre uma nova linha de financiamento de até R$ 200 milhões para credores que queiram aportar novos recursos na companhia.
Prejuízo recorde
O prejuízo líquido de R$ 1,437 bilhão registrado no primeiro trimestre de 2026 foi amplamente influenciado por efeitos não recorrentes e sem impacto no caixa.
As principais baixas foram: R$ 348 milhões referentes à obsolescência de softwares no contexto de simplificação de sistemas; R$ 51 milhões de baixa de fundo de comércio e outros ativos; R$ 27 milhões de impairment de lojas; e R$ 588 milhões relativos à baixa de crédito fiscal no exterior registrado para compensação futura. Excluídos esses efeitos, o prejuízo líquido ajustado das operações continuadas ficou em R$ 333 milhões.
Para fins de comparação, o prejuízo ajustado de R$ 289 milhões no primeiro trimestre de 2025 também excluía efeitos positivos não recorrentes — como reversão de provisões de CSLL e reconhecimento de prejuízos fiscais — que haviam suavizado o resultado daquele período.
Na geração de caixa, a fotografia é mais positiva. O Fluxo de Caixa Livre Operacional, na visão dos últimos 12 meses, cresceu 65,2%, atingindo R$ 522 milhões — ante R$ 316 milhões no período equivalente anterior. O resultado reflete a disciplina na redução do Capex e o avanço nas iniciativas de eficiência, embora a variação de capital de giro de fornecedores tenha sido afetada pontualmente pelo processo de recuperação extrajudicial, com redução de 7 dias no período.
O CEO Alexandre Santoro destacou em carta aos investidores que a companhia “entra em um novo ciclo com uma base financeira mais sólida”, com 35 mil colaboradores e uma base de mais de 20 milhões de clientes por mês, e que as prioridades seguem sendo fortalecer a operação, preservar liquidez e melhorar a rentabilidade de forma consistente.
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