A divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026 intensificou a divergência de visões sobre o Nubank (ROXO34), segundo análise do Bradesco BBI. Após um desempenho negativo das BDRs no acumulado do ano, investidores passaram a questionar a sustentabilidade do crescimento do banco digital, que até então era amplamente visto como uma tese consensualmente otimista.
Para os analistas Marcelo Izrahi e Renato Chanes, o debate ganhou novas camadas à medida que fatores conjunturais e estruturais passaram a influenciar a percepção do mercado.
“Temos observado uma crescente divergência em relação ao consenso otimista que prevalecia anteriormente sobre a tese do Nubank”, afirmam.
Mesmo com essa mudança de percepção, o BBI mantém visão positiva para o ativo, argumentando que boa parte dos riscos já está refletida nos preços atuais. “A avaliação atual já incorpora grande parte das preocupações com crédito e crescimento, o que limita o risco adicional para os papéis”, dizem os analistas.
Apesar disso, a casa revisou suas projeções, reduzindo as estimativas de lucro líquido em 4% para 2026 e 6% para 2027. O preço-alvo também foi ajustado, de R$ 17,00 para R$ 14,50 por BDR, refletindo um cenário operacional mais desafiador no curto prazo.
Visões opostas sobre crescimento e execução
Entre os investidores otimistas, a leitura é de que a queda recente exagerou os riscos. Esse grupo atribui parte do desempenho mais fraco a fatores sazonais, especialmente o aumento nas provisões no primeiro trimestre, além de considerar excessiva a reação do mercado às mudanças na diretoria financeira.
Há também expectativa de melhora já no segundo trimestre, impulsionada por efeitos sazonais positivos e potenciais catalisadores, como o avanço no crédito consignado privado e a expansão internacional.
“Os otimistas veem espaço para recuperação relevante nos próximos trimestres, com gatilhos adicionais vindos de novas frentes de crescimento”, destacam Izrahi e Chanes.
Por outro lado, o grupo pessimista — dividido entre investidores locais e estrangeiros — levanta preocupações mais estruturais. No exterior, o foco está nos investimentos nos Estados Unidos e nas mudanças recentes de gestão. Já no Brasil, o ciclo de crédito é o principal ponto de atenção.
Esses investidores enxergam sinais crescentes de deterioração da qualidade de ativos, que poderiam pressionar provisões e limitar a expansão da carteira. “Os investidores mais cautelosos acreditam que o ciclo de crédito pode restringir o crescimento e justificar um desconto relevante nas ações”, afirmam os analistas.
Resultados, crédito e perspectivas
No primeiro trimestre, o Nubank apresentou crescimento robusto da carteira de crédito, com alta de 14% frente ao trimestre anterior, acima das expectativas. O avanço foi puxado principalmente pelo crédito pessoal, que cresceu 21%, além de uma expansão da margem financeira.
Esse movimento levou o BBI a revisar para cima as projeções de receita, refletindo a combinação de maior volume de empréstimos e margens mais elevadas. Ainda assim, o efeito foi parcialmente compensado pelo aumento das provisões e despesas operacionais.
A inadimplência também subiu no período, com aumento de 0,90 ponto percentual na formação inicial, em grande parte explicado por fatores sazonais e pelo aumento intencional de risco na carteira.
“Não esperamos uma deterioração significativa na qualidade dos ativos, embora reconheçamos alguma pressão ao longo dos próximos trimestres”, dizem Izrahi e Chanes.
No cenário-base do banco, a inadimplência tende a seguir padrões sazonais, com estabilização ao fim de 2026. As provisões devem permanecer elevadas, mas em níveis gerenciáveis, mantendo as margens ajustadas ao risco relativamente estáveis.
No balanço geral, o Bradesco BBI entende que o Nubank ainda sustenta uma tese de crescimento relevante, apesar do ambiente mais desafiador. “A melhora sequencial esperada ao longo de 2026 deve reforçar a confiança de que o banco segue no caminho correto”, concluem os analistas.






