O Banco Safra passou a régua no e-commerce com juros mais altos na planilha — e os preços-alvo encolheram, mas o pódio não mudou.
“Mantivemos o Mercado Livre como nossa preferência para 2026 no espaço de e-commerce”, escreveram os analistas Vitor Pini, Tales Granello e Renan Sartorio, que reiteraram a recomendação de compra para o papel (MELI34), agora com alvo de US$ 2.300, ante US$ 2.400.
A tesoura tem explicação doméstica. O banco passou a projetar Selic média 1,75 ponto percentual acima do previsto anteriormente para 2026 e 2027, o que corrói a renda disponível das famílias e infla a despesa financeira das varejistas — enquanto as premissas para Argentina e México, mercados relevantes para o Mercado Livre, ficaram quase intactas.
Por que o Mercado Livre segue no topo
O argumento central é o preço do crescimento. A ação negocia a 36 vezes o lucro estimado para 2027, bem abaixo da média histórica de 55 vezes, com um prêmio que o banco considera merecido: são mais de 30 trimestres seguidos crescendo acima de 30%, com retorno sobre o capital investido médio de 39%.
“Continuamos otimistas com os vetores de crescimento do MELI, apesar dos impactos do ambiente competitivo nos resultados de curto prazo”, avaliou o trio.
O lucro operacional, contudo, deve seguir espremido.
“A margem Ebit deve continuar sob pressão”, alertaram os analistas, citando a abertura de novos centros de distribuição, as provisões da oferta ampliada de crédito e as campanhas de frete grátis e cupons.
O Safra também cortou a margem de longo prazo estimada, de 10,5% para 9% — ainda dois pontos acima dos 7% previstos para 2026.

Magalu e Casas Bahia: o caixa preocupa
Nas varejistas nacionais, o problema é outro.
“A queima de caixa continua sendo nossa principal preocupação com ambas”, apontou a equipe do Safra: nos 12 meses encerrados no primeiro trimestre de 2026, o fluxo operacional após investimentos ficou negativo em R$ 600 milhões no Magazine Luiza (MGLU3) e em R$ 1,6 bilhão na Casas Bahia (BHIA3).
As recomendações refletem a cautela.
O Magalu segue neutro, com alvo cortado pela metade, de R$ 10 para R$ 6 — “continuamos vendo um cenário macro difícil para as categorias cíclicas, dada a alta correlação do consumo com os juros”, justificaram os analistas.
A Casas Bahia permanece com recomendação de venda, alvo reduzido de R$ 3 para R$ 1,20 e retorno sobre o capital de apenas 4%, fração dos 39% do rival latino-americano.
O que esperar do trimestre
Para a temporada de balanços que se aproxima, o roteiro já está escrito na visão do banco.
“Esperamos mais um trimestre de crescimento melhor e pressão de margem para o MELI”, projetaram Pini, Granello e Sartorio, enquanto o Magalu deve mostrar vendas sem brilho no segundo trimestre de 2026, com margem Ebitda praticamente estável em um ano.
O relatório fecha com o mapa de riscos: o cenário macro, que afeta a demanda e a inadimplência do braço financeiro do MELI; a execução dos ganhos de margem; a concorrência dos players internacionais, agressivos em preço; e a exposição da companhia à Argentina, sempre uma fonte extra de volatilidade.






