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EQI Research inclui Embraer na carteira Buy & Hold de novembro

EQI Research inclui Embraer na carteira Buy & Hold de novembro

Analistas João Neves, Nícolas Merola e João Zanott destacam a exposição internacional da companhia e a receita dolarizada em meio às incertezas da economia brasileira

A mudança nas perspectivas para a economia brasileira após o resultado eleitoral levou a EQI Research a promover uma revisão mais significativa em sua carteira Buy & Hold de novembro. Em relatório assinado pelos analistas João Neves, Nícolas Merola e João Zanott, a casa destaca que a combinação de juros elevados, desvalorização do real e expectativas mais moderadas de crescimento alterou a atratividade relativa dos ativos domésticos e reforçou o interesse por empresas com maior exposição ao mercado externo.

Desde o resultado da eleição, o real acumulou desvalorização de aproximadamente 9,2% frente ao dólar, enquanto os juros futuros avançaram cerca de 210 pontos-base ao longo da curva. Na avaliação dos analistas, os movimentos refletem principalmente a revisão das expectativas fiscais e a redução da confiança do mercado na implementação de um ajuste fiscal considerado crível.

A mudança de cenário também reverteu parte da valorização registrada após o primeiro turno e atingiu especialmente empresas que acumulavam ganhos expressivos ao longo do ano.

Juros elevados pressionam empresas domésticas

A alta dos juros afeta as empresas por diferentes canais. O crédito mais caro tende a desestimular o consumo e os investimentos, limitando o crescimento das receitas. Ao mesmo tempo, taxas de desconto mais elevadas reduzem o valor presente dos fluxos de caixa futuros, pressionando o valuation das companhias. Há ainda o impacto direto sobre as despesas financeiras, especialmente em empresas com dívidas atreladas ao CDI ou que precisam refinanciar seus passivos em condições menos favoráveis.

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Esse efeito é potencializado pelo nível de endividamento. Empresas mais alavancadas e dependentes da atividade econômica brasileira ficam expostas simultaneamente à desaceleração operacional, ao aumento do custo da dívida e à redução dos múltiplos de negociação.

Após a correção recente, o Ibovespa voltou a negociar a um múltiplo de Preço/Lucro projetado para os próximos 12 meses próximo de um desvio-padrão abaixo da média dos últimos 20 anos. O patamar, entretanto, está alinhado à média dos últimos cinco anos, período marcado por taxas de juros reais mais elevadas.

Entre os setores da Bolsa, os segmentos mais dependentes da economia doméstica concentraram as maiores perdas. O índice imobiliário (IMOB) registrou a queda mais expressiva, seguido pelos índices de consumo (ICON) e de utilidades públicas (UTIL).

Na outra ponta, o índice de materiais básicos (IMAT) apresentou uma retração mais moderada. O desempenho chama atenção diante da queda de 16,6% do Ibovespa no período analisado e evidencia a resiliência relativa de empresas com maior participação das exportações em suas receitas.

No setor de utilidades públicas, a sensibilidade aos juros está relacionada, entre outros fatores, ao elevado nível de alavancagem de algumas companhias e à remuneração dos investimentos em negócios regulados, frequentemente vinculada a parâmetros como o custo médio ponderado de capital (WACC) regulatório. Apesar disso, a previsibilidade da geração de caixa, a essencialidade dos serviços e os contratos de concessão oferecem alguma proteção contra a desaceleração econômica.

Na construção civil, o financiamento imobiliário mais caro tende a reduzir o poder de compra das famílias e dificultar a comercialização de imóveis. No varejo, a combinação de crédito restrito, menor confiança do consumidor e maior comprometimento da renda com dívidas limita os recursos disponíveis para o consumo.

Já as empresas de materiais básicos apresentam, em muitos casos, menor dependência da demanda brasileira. A receita vinculada ao dólar também pode favorecer as margens de companhias que recebem em moeda estrangeira e mantêm parte dos custos em reais.

Embraer ganha espaço na carteira

Nesse contexto, a EQI Research decidiu incluir a Embraer (EMBJ3) na carteira Buy & Hold de novembro, com participação de 5%. A entrada representa o início de uma exposição ao setor industrial e, principalmente, a uma companhia com forte presença internacional e foco na exportação de produtos.

Segundo os analistas, a empresa oferece exposição ao crescimento da economia global com menor dependência das condições macroeconômicas brasileiras. Mais de 90% da receita da Embraer vem de clientes no exterior, enquanto a maior parte de seus custos também é denominada em dólares.

Essa estrutura permite que a avaliação da companhia esteja mais relacionada aos fundamentos de seus negócios e à demanda internacional do que às oscilações da economia doméstica.

Outro aspecto destacado no relatório é o custo de capital. Como possui receitas dolarizadas e ações negociadas na Bolsa de Nova York, por meio de ADRs, a Embraer é avaliada em dólares. De acordo com a EQI Research, seu custo de capital é de aproximadamente 9,9% ao ano, o que reduz a sensibilidade do valuation à abertura da curva de juros brasileira e ao prêmio de risco local.

A exposição cambial também funciona como uma proteção natural diante da desvalorização do real.

Mesmo após a valorização recente das ações, os analistas apontam que a Embraer ainda negocia com desconto de aproximadamente 25% a 30% em EV/EBITDA na comparação com concorrentes como Airbus, Boeing e Textron. O múltiplo, contudo, está acima da média observada nos últimos dois anos, refletindo parte da reprecificação recente da companhia.

Quatro frentes de negócios

Considerada um dos principais exemplos de desenvolvimento industrial brasileiro, a Embraer concentra suas principais fábricas no interior de São Paulo, com unidades em São José dos Campos, Gavião Peixoto e Botucatu. A empresa também mantém operações nos Estados Unidos, em Melbourne, e em Portugal, nas cidades de Évora e Alverca.

Com mais de 20 mil funcionários, a companhia está organizada em quatro unidades de negócios: Aviação Comercial, Aviação Executiva, Defesa & Segurança e Serviços & Suporte.

Na aviação executiva, a Embraer atua com duas famílias de aeronaves. A linha Phenom reúne os modelos de entrada e leves, com os jatos Phenom 100 e Phenom 300. Este último foi o jato leve mais entregue do mundo pelo 14º ano consecutivo.

Já a família Praetor, lançada em 2018 como evolução da antiga linha Legacy, atende ao mercado de jatos médios, com os modelos Praetor 500 e Praetor 600. O segundo tem autonomia para realizar voos intercontinentais sem escalas, como Nova York-Londres, permitindo competir com aeronaves de categorias superiores.

O portfólio coloca a Embraer em concorrência com fabricantes como Textron, Bombardier e Gulfstream. Segundo os dados apresentados no relatório, a companhia também mantém participação relevante nos segmentos de entrada e supermédios.

Na aviação comercial, a Embraer ocupa uma posição de destaque na fabricação de aeronaves de até 150 assentos, segmento situado abaixo dos grandes jatos de corredor único produzidos pela Airbus e pela Boeing.

O principal diferencial competitivo está no custo operacional. Os modelos da fabricante brasileira apresentam menor consumo de combustível por assento, característica que favorece a operação de rotas com menor densidade de passageiros. Na comparação com a geração anterior, os aviões da família E2 consomem entre 20% e 25% menos combustível por assento. A companhia também mantém os modelos da geração E1 em seu portfólio.

A divisão de Defesa & Segurança atende mais de 60 forças armadas e tem dois produtos centrais. O C-390 Millennium, também chamado de KC-390 na versão equipada para reabastecimento em voo, é uma aeronave militar multimissão utilizada no transporte de tropas e cargas, reabastecimento de outras aeronaves e evacuações.

O outro destaque é o A-29 Super Tucano, avião de ataque leve e treinamento avançado que lidera seu nicho de mercado. O modelo soma mais de 300 unidades encomendadas por mais de 20 operadores.

Serviços e suporte ampliam a recorrência das receitas

Entre as quatro unidades de negócios, Serviços & Suporte se destaca por apresentar a maior margem e uma receita mais recorrente.

A dinâmica do segmento está diretamente relacionada à frota de aeronaves em operação. Cada avião entregue gera demanda futura por peças, manutenção, treinamento e outros serviços, o que permite à companhia ampliar suas receitas à medida que cresce a base instalada.

A atuação da OGMA, controlada pela Embraer em Portugal, também contribui para expandir esse mercado. Por meio de serviços de revisão de motores, a unidade atende aeronaves de outros fabricantes, diversificando as fontes de receita da divisão.

Na avaliação da EQI Research, o segmento ainda tem espaço para crescer. O aumento das entregas nas demais unidades amplia a frota em operação e cria novas oportunidades de receitas com manutenção e fornecimento de peças ao longo da vida útil das aeronaves.

Receita diversificada e presença internacional

A diversificação dos negócios também aparece na composição das receitas. Em 2025, a Embraer registrou receita líquida de US$ 7,6 bilhões, crescimento de 18,5% em relação ao ano anterior.

A aviação comercial respondeu por 31,3% do faturamento, seguida pela aviação executiva, com 29,1%. Serviços & Suporte representou 25,4%, enquanto Defesa & Segurança respondeu por 13%.

Geograficamente, a América do Norte concentrou 58,6% da receita, seguida pela Europa, com 24,4%. O Brasil respondeu por 8,4% do faturamento e a região Ásia-Pacífico, por 5,4%.

A estrutura acionária é outro ponto relevante. A Embraer não possui acionista controlador e tem capital pulverizado, com ações negociadas na B3 e na Bolsa de Nova York, por meio de ADRs.

O estatuto social estabelece um limite de 5% para o exercício do direito de voto por acionista, independentemente de sua participação no capital. A União, por sua vez, mantém uma golden share, ação especial que assegura ao governo federal o direito de indicar um integrante do Conselho de Administração e vetar determinadas decisões estratégicas.

Para a EQI Research, a combinação de receitas majoritariamente internacionais, diversificação de negócios, exposição ao dólar e atuação em mercados globais sustenta a inclusão da Embraer na carteira Buy & Hold de novembro, em um momento de maior incerteza sobre a economia brasileira.