As empresas de construção devem enfrentar um terceiro trimestre de 2026 desafiador, com resultados pressionados pela desaceleração das vendas, condições mais restritivas de crédito e aumento dos cancelamentos de contratos. A avaliação é do Safra, que divulgou uma prévia dos balanços das construtoras e incorporadoras com ações na Bolsa e identificou poucos destaques positivos entre as companhias analisadas.
Segundo o banco, as restrições adotadas pela Caixa Econômica Federal (CEF) na concessão de crédito e as limitações às operações de financiamento na modalidade pro soluto prejudicaram o desempenho das empresas voltadas ao programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
No segmento de média e alta renda, a combinação de incertezas relacionadas ao cenário eleitoral e estoques mais elevados deve pressionar a velocidade de vendas. Além disso, o aumento dos distratos — cancelamentos de contratos de compra de imóveis — tende a desacelerar o reconhecimento de receitas e limitar o crescimento dos lucros das construtoras de baixa renda.
O Safra também chama atenção para a greve na Caixa, que se estendeu até o fim de setembro e deve afetar a geração de caixa das companhias no trimestre.
Cury deve liderar construtoras do Minha Casa, Minha Vida
Entre as empresas voltadas à baixa renda, a Cury (CURY3) aparece como o principal destaque positivo da prévia do Safra. O banco projeta crescimento de 19% no lucro líquido anual da companhia no terceiro trimestre, acompanhado de retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 69%, avanço de 3,5 pontos percentuais na comparação trimestral.
Outro indicador favorável é o rendimento anualizado do fluxo de caixa livre (FCF yield), estimado em 13%.
O desempenho da Cury contrasta com o cenário mais fraco esperado para o conjunto das construtoras. Considerando as empresas acompanhadas pelo Safra, os lançamentos recuaram 16% na comparação anual, enquanto as vendas líquidas avançaram apenas 3%, mesmo diante do aumento dos cancelamentos.
O reconhecimento de receitas de projetos vendidos anteriormente deve contribuir para um crescimento agregado de 10% da receita no segmento, com margens brutas relativamente estáveis. Ainda assim, o lucro combinado deve subir somente 3%, enquanto o ROE médio deve cair 4,6 pontos percentuais.
Para a Direcional (DIRR3), o banco espera que a maior participação das vendas de estoques contribua para uma margem bruta ajustada recorde de 43,9%, alta de 1,8 ponto percentual em um ano. Por outro lado, a queda sequencial da receita deve levar a uma redução de 8% no lucro líquido em relação ao segundo trimestre.
Já a Tenda (TEND3) deve registrar crescimento anual de 40% no lucro por ação, mas apresentar deterioração na comparação trimestral. A redução das economias de custos e uma política mais restritiva de financiamento pro soluto devem provocar queda de 11% no resultado em relação ao trimestre anterior, com ROE estimado em 34%, recuo de oito pontos percentuais.
A MRV (MRVE3) também deve dar continuidade ao processo de recuperação. O Safra projeta lucro de R$ 189 milhões para a operação brasileira da companhia, a MRV Brasil, crescimento de 87% na comparação trimestral. O ROE deve alcançar 14%, enquanto a geração de caixa é estimada em R$ 162 milhões, equivalente a um rendimento anualizado de aproximadamente 28%.
A venda de um projeto da Luggo deve ajudar o desempenho financeiro. Entretanto, a operação Resia, nos Estados Unidos, continuará pressionando os números consolidados, mantendo o ROE da companhia em apenas 8%.
Para a Plano&Plano (PLPL3), a expectativa é de mais um trimestre fraco, com contração de 29% do lucro líquido na comparação anual.
Cyrela e Moura Dubeux devem se destacar na média e alta renda
Entre as empresas de construção voltadas aos segmentos de média e alta renda, a Cyrela (CYRE3) e a Moura Dubeux (MDNE3) aparecem como os principais destaques positivos.
O Safra projeta que os lançamentos e as vendas das companhias acompanhadas pelo banco nesse segmento tenham recuado 17% e 24%, respectivamente, na comparação anual. Apesar disso, o reconhecimento de receitas de empreendimentos vendidos anteriormente deve sustentar um crescimento agregado de 5% da receita.
A pressão sobre as margens, contudo, deve limitar os resultados. O banco estima uma contração de aproximadamente três pontos percentuais na margem bruta, o que deve contribuir para uma queda de 6% no lucro agregado e recuo médio de cinco pontos percentuais no ROE.
A Cyrela deve ser a única companhia do segmento a apresentar expansão do retorno sobre o patrimônio líquido, com indicador estimado em 17%, alta de 1,1 ponto percentual em um ano.
A projeção considera crescimento de 14% na receita e margem bruta de 36,6%, avanço de 1,4 ponto percentual na comparação anual. A companhia também deve liderar a geração de caixa, com fluxo de caixa livre estimado em R$ 200 milhões, equivalente a um rendimento anualizado de aproximadamente 11%.
A Moura Dubeux, por sua vez, deve registrar crescimento de 20% no lucro líquido anual, com ROE de 23%. O resultado deve ser favorecido pelas receitas provenientes de taxas de desenvolvimento de terrenos, que devem impulsionar a receita em 24% na comparação com o terceiro trimestre de 2025.
Eztec, Lavvi e Even devem enfrentar maior pressão
No grupo de empresas com atuação em média e alta renda, a Eztec (EZTC3) deve apresentar um dos resultados mais fracos. O Safra projeta queda de 42% no lucro por ação na comparação anual, refletindo uma base de comparação mais exigente e uma contração de 7,5 pontos percentuais na margem bruta.
A pressão sobre a rentabilidade decorre principalmente da maior participação de lançamentos no reconhecimento de receitas. Além disso, a redução das transferências de imóveis deve interromper uma sequência de cinco trimestres de geração positiva de caixa. A expectativa é de consumo de R$ 86 milhões no período.
Para a Lavvi (LAVV3), o crescimento de 23% da receita não deve ser suficiente para compensar o aumento das despesas e a maior alavancagem financeira. O banco estima queda de 13% no lucro por ação e ROE de 23%, recuo de 3,6 pontos percentuais.
Já a Even (EVEN3) deve apresentar deterioração sequencial dos resultados, em meio a uma desaceleração acentuada das vendas. A projeção é de queda de 37% no lucro líquido em relação ao segundo trimestre e retração de 78% na comparação anual. O ROE deve ficar em apenas 4%, recuo de 2,4 pontos percentuais na comparação trimestral.
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