O setor de bens de capital continua exibindo um cenário de recuperação desigual em 2026, com o forte desempenho da indústria de veículos leves contrastando com a demanda ainda enfraquecida por caminhões, implementos rodoviários e parte do segmento de ônibus. Embora as vendas domésticas de automóveis tenham surpreendido positivamente em maio, fatores como juros elevados, maior concorrência de importados e incertezas macroeconômicas seguem limitando uma retomada mais ampla da cadeia industrial.
Segundo relatório da XP, as vendas consolidadas de veículos cresceram 15% na comparação anual em maio, registrando o melhor desempenho para o mês desde 2019. O principal destaque ficou com os automóveis de passeio, cujas vendas avançaram 23%, enquanto a produção aumentou 17%, refletindo uma demanda doméstica ainda resiliente.
Apesar desse desempenho, a corretora chama atenção para sinais de deterioração na qualidade desse crescimento. O avanço das importações de veículos, combinado à retração das exportações, vem alterando a dinâmica do mercado brasileiro. A situação tende a ganhar novos capítulos com a ampliação das cotas temporárias de importação com tarifa zero para veículos eletrificados entre julho e dezembro de 2026, medida solicitada por montadoras estrangeiras e criticada por representantes da indústria nacional por elevar a pressão competitiva.
Pesados seguem pressionados
Na avaliação da XP, o segmento de veículos pesados continua sendo o elo mais fraco entre os bens de capital. A produção de caminhões recuou 15% em maio na comparação anual, enquanto as vendas de implementos rodoviários caíram 13%, refletindo um ambiente marcado por renovação cautelosa das frotas, elevado custo de financiamento e expectativa de liberação dos recursos do programa Move Brasil 2.
A corretora destaca que parte dos compradores permanece adiando investimentos à espera dos desembolsos do programa federal, enquanto o agronegócio ainda enfrenta margens pressionadas, reduzindo o apetite por novas aquisições. Em contrapartida, a recente queda dos preços dos combustíveis pode oferecer algum alívio para o setor de transporte de cargas nos próximos meses.
No mercado norte-americano, entretanto, os indicadores mostram uma trajetória mais favorável. Os pedidos de caminhões Classe 8 avançaram 124% em maio, registrando o quarto mês consecutivo de crescimento superior a 120% na comparação anual. Para a XP, o movimento é sustentado principalmente pela demanda de reposição de frotas e por um mercado de fretes mais aquecido, ainda que os custos financeiros continuem limitando uma recuperação mais acelerada.
Empresas enfrentam cenários distintos
Entre as empresas analisadas, a XP observa desempenhos bastante distintos. A Marcopolo (POMO4) apresentou produção de ônibus superior à média da indústria, impulsionada principalmente pelo segmento de micro-ônibus, beneficiado por entregas ligadas a programas governamentais, como o Ministério da Saúde. Já os ônibus urbanos e rodoviários continuam registrando retração significativa na produção.
Para Randoncorp (RAPT4) e Frasle Mobility (FRAS3), o cenário permanece mais desafiador. A desaceleração da demanda por caminhões e implementos rodoviários impactou as receitas das companhias em maio, refletindo a menor atividade junto às montadoras e o ambiente ainda desfavorável para investimentos em transporte de cargas.
No caso da Iochpe-Maxion (MYPK3), a XP destaca que o forte desempenho da produção nacional de veículos leves convive com o avanço expressivo das importações, que cresceram 39% no período. Segundo a análise, esse movimento pode reduzir a participação da indústria local caso a competitividade dos modelos importados continue aumentando.
Já para a Tupy (TUPY3), a leitura permanece cautelosamente positiva. Embora as vendas de veículos pesados nos Estados Unidos ainda sejam consideradas fracas, os indicadores antecedentes sugerem melhora gradual da carteira de pedidos, o que pode fortalecer a visibilidade operacional da companhia ao longo dos próximos trimestres.
Na visão da XP, o panorama dos bens de capital continua marcado por forte heterogeneidade. Enquanto o mercado de veículos leves demonstra capacidade de crescimento mesmo diante de um ambiente macroeconômico desafiador, segmentos mais ligados ao investimento produtivo seguem dependentes de condições de crédito mais favoráveis, maior previsibilidade econômica e recuperação consistente da atividade industrial.
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