A agência de classificação de risco S&P Global Ratings reafirmou o rating de crédito da Natura (NATU3) em “BB”, mas revisou a perspectiva (outlook) da companhia de estável para negativa. A mudança reflete a avaliação de que a fabricante de cosméticos enfrenta desafios para recuperar a rentabilidade e melhorar a geração de caixa em um cenário de consumo mais fraco e maior pressão operacional.
Segundo a S&P, a perspectiva negativa indica uma chance de aproximadamente um terço de rebaixamento da nota nos próximos 12 a 18 meses, caso a Natura não consiga elevar o Ebitda, fortalecer a geração de caixa e manter sua alavancagem dentro dos níveis esperados pela agência.
A revisão ocorre após a S&P reduzir suas projeções para a companhia em 2026. A agência passou a estimar receita de R$ 21,6 bilhões e Ebitda de R$ 2,6 bilhões, com margem de 11,9%. Anteriormente, a expectativa era de receita de R$ 23,7 bilhões e Ebitda de R$ 3,1 bilhões, equivalente a uma margem de 13,2%.
Desafios operacionais pressionam resultados
Na avaliação da agência, a Natura enfrenta dificuldades para recuperar o desempenho operacional após anos de reorganização do portfólio e de mudanças estruturais realizadas desde a aquisição da Avon.
A S&P destacou que os resultados do primeiro trimestre e a prévia do segundo trimestre apontam queda de 9% a 10% na receita em relação ao mesmo período do ano passado. Entre os fatores apontados estão problemas na implementação dos novos sistemas SAP e de planejamento integrado, além da redistribuição da produção após o fechamento da fábrica de Interlagos, que provocaram falta de produtos.
Segundo a agência, esses fatores, somados ao enfraquecimento da demanda no Brasil, afetaram principalmente o canal de venda direta, responsável por cerca de 85% a 90% das receitas da companhia.
Para reverter esse cenário, a Natura vem adotando medidas como novos incentivos para consultoras, revisão do portfólio de produtos e estratégias regionais. A expectativa da S&P é de que os ganhos de eficiência e o crescimento das operações em mercados hispânicos contribuam para uma melhora no segundo semestre, embora permaneçam riscos relacionados à execução dessas iniciativas.
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Rentabilidade segue abaixo do esperado
A agência observa que a Natura simplificou sua estrutura nos últimos anos, concentrando esforços em mercados considerados estratégicos, como Brasil, Argentina e México. A venda da Aesop, em 2023, fortaleceu o balanço financeiro da companhia, enquanto a reorganização societária e a alienação da Avon International e da CARD, em 2025, reduziram a complexidade operacional do grupo.
Apesar disso, a S&P avalia que a empresa passou a operar em uma escala menor em comparação aos concorrentes globais. Além disso, os custos de reestruturação, a integração mais lenta do que o esperado e os desafios para recuperar a marca Avon continuam pressionando a lucratividade e a geração de caixa.
Por esse motivo, a agência revisou o perfil de risco de negócios da Natura de “adequado” para “fraco”.
Liquidez permanece como ponto positivo
Apesar das dificuldades operacionais, a S&P considera que a Natura mantém uma posição financeira sólida, sustentada pelo elevado volume de caixa e por uma política considerada conservadora de alocação de capital.
A expectativa é que o fluxo de caixa operacional volte a ser positivo em 2026, superando R$ 820 milhões, após déficit de aproximadamente R$ 100 milhões em 2025. A agência também projeta redução dos investimentos para cerca de R$ 330 milhões por ano, equivalente a aproximadamente 1,5% da receita líquida.
Com isso, o fluxo de caixa operacional livre, após despesas com arrendamentos, poderá alcançar cerca de R$ 357 milhões em 2026 e R$ 732 milhões em 2027, revertendo o resultado negativo de R$ 649 milhões registrado em 2025.






