A confirmação da Azzas 2154 (AZZA3) de que contratou o Itaú BBA como assessor financeiro para avaliar oportunidades estratégicas envolvendo a companhia, suas controladas e ativos reabriu o debate sobre uma possível alteração societária na holding de moda.
O comunicado veio oito dias após a empresa informar o mercado da existência de uma ação cautelar movida pelo acionista Roberto Jatahy contra decisão do CEO Alexandre Birman sobre a gestão da unidade de moda masculina, mais especificamente sobre a marca Reserva.
Para Carlos Akira Sato, cofundador da Fenynx Digital Assets e especialista em mercados regulados, infraestrutura financeira, governança e inovação, a sequência de eventos ultrapassa o caráter meramente administrativo das duas comunicações.
“A confirmação da contratação do Itaú BBA é mais um fato importante no histórico recente da Azzas que leva o mercado a especular sobre uma possível alteração societária na companhia”, afirma o especialista.
Segundo Sato, o comunicado divulgado pela companhia em resposta à CVM, descrevendo o trabalho do banco como “prestação de serviços de assessoria financeira relacionados à avaliação de diversas oportunidades estratégicas”, foi causado pela publicação de uma reportagem que retratou os conflitos internos.
Dois fatos, uma semana
A linha do tempo recente da Azzas concentra dois eventos que mudaram a percepção do mercado sobre a companhia.
No dia 12 de maio, a varejista comunicou ter sido surpreendida pela existência de um pedido judicial de Jatahy referente à gestão da unidade de moda masculina, assunto que, segundo o estatuto social, compete ao CEO decidir.
A 7ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro concedeu liminar que congelou a estrutura organizacional das unidades de vestuário feminino e masculino nos moldes vigentes até 22 de abril, suspendendo a separação da Reserva da operação liderada por Jatahy.
Oito dias depois, em 20 de maio, veio a confirmação da contratação do Itaú BBA, conduzida pelo diretor financeiro Eric Alencar.
Sato avalia que o desencontro entre Birman e Jatahy reproduz uma dinâmica recorrente em fusões de porte semelhante ao da Azzas, criada em agosto de 2024 a partir da união entre Arezzo e Grupo Soma.
“Conglomerados formados por meio de operações de M&A, além dos desafios do mercado, também enfrentam problemas de fit cultural, consolidação de estratégia e características pessoais de líderes fortes que construíram os negócios de sucesso que se fundiram”, afirma.
O especialista lembra que divergências são esperadas em qualquer empresa, em especial em grupos com a complexidade da Azzas, que reúne 34 marcas, mais de duas mil lojas e 22 mil pontos de venda multimarca.
Mais que rotina
Sato distingue os dois eventos. Enquanto a contratação de assessor financeiro pode ser considerada uma decisão de rotina de qualquer companhia listada, a propositura de uma ação judicial por um sócio relevante para contestar a decisão do principal executivo é um movimento de natureza distinta.
“Mais delicada do que a contratação de um assessor financeiro é a noticia de existência de pedido judicial do acionista Roberto Jatahy referente a gestão da unidade de moda masculina da Companhia, que nos termos do estatuto social, compete ao CEO da Companhia decidir”, explica Sato.
Para ele, a judicialização da disputa é o ponto que diferencia o caso da Azzas de divergências comuns entre sócios.
“O incomum neste caso, é a judicialização da disputa que expõe um grande desalinhamento interno”, complementa.
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Reprecificação à vista
O mercado já vem reagindo a essa briga. Os papéis da Azzas (AZZA3) caíram 3,34% no pregão de 12 de maio, dia da divulgação da ação cautelar, e acumulam desvalorização de 23,47% em 2026. Por volta das 14h desta quinta-feira (21), a ação era cotada a R$ 19,43, com valor de mercado de R$ 4,01 bilhões e múltiplo P/L de 4,81 vezes.
O papel chegou a ser negociado perto de R$ 28 no início de março antes da deterioração que se acentuou ao longo do segundo trimestre, e opera próximo da mínima das últimas 52 semanas, de R$ 18,32, distante da máxima do período, de R$ 41,49.
Em relatórios publicados após os comunicados, três casas mantiveram avaliações diferentes.
O BTG Pactual (BPAC11) reiterou recomendação de compra e preço-alvo de R$ 40, sob a condição de que a companhia entregue expansão de margem e retomada de crescimento de receita.
O JPMorgan manteve recomendação neutra, com preço-alvo de R$ 24,50, apontando que questões de governança podem dificultar mudanças operacionais e estratégicas.
O Citi manteve recomendação neutro/alto risco e preço-alvo de R$ 25, alertando para o risco de novas revisões para baixo nas projeções de lucros.
Para Sato, o impacto da crise societária tende a se estender para além da cotação.
“Situações como esta podem levar o mercado a reprecificar o valor das ações do grupo, assim como fornecedores e parceiros serem mais cautelosos em relação aos planos da companhia”, diz o especialista.
A observação ganha peso em um momento em que a Azzas reportou queda de 5,8% na receita bruta consolidada do primeiro trimestre de 2026, para R$ 3,1 bilhões, e recuo de 23,2% no Ebitda recorrente, para R$ 329 milhões, com a unidade de Basic, que abriga a Hering, encolhendo 18,5% no período.
Caminho para cisão
A análise de Sato combina os dois fatos em uma avaliação única sobre o estado da governança. A proximidade temporal entre a ação judicial e a contratação do assessor financeiro, segundo ele, sugere uma deterioração que vai além de divergências pontuais sobre a estratégia da Reserva.
“Sob outro ângulo, a noticia de contratação de um assessor financeiro logo após a divulgação da existência de uma medida judicial proposta por um acionista relevante contestando a decisão do CEO da companhia, pode ser interpretado como uma crise profunda na gestão, que pode levar a uma cisão, considerado o histórico empresarial dos envolvidos”, avalia Sato.
O contexto histórico ajuda a entender o cenário. A ação cautelar movida por Jatahy, com apoio do escritório Salomão Advogados, buscou impedir a retirada da Reserva da unidade administrada por ele, em movimento que, segundo fontes ouvidas pela imprensa especializada, poderia desmontar parte das sinergias criadas após a fusão entre Arezzo e Grupo Soma.
Cobertura regulatória
O especialista faz questão de separar o caráter do conflito societário do cumprimento das obrigações da companhia.
A Azzas afirmou que o trabalho do Itaú BBA é “preliminar e exploratório” e que não há decisão tomada sobre implementação, termos, estrutura ou viabilidade de eventual operação.
“Importante esclarecer que a Azzas, como empresa com ações listadas na bolsa de valores, cumpriu todas as suas obrigações regulatórias ao divulgar ao mercado fatos importantes sobre a companhia e a resposta à Comissão de Valores Mobiliários”, conclui Sato.
Mesmo sem menção expressa a qualquer movimento de cisão nos documentos enviados à CVM, a combinação entre disputa judicial entre os sócios fundadores, contratação de assessor financeiro independente e resultados operacionais aquém do esperado deixa a tese de uma reestruturação societária no radar do mercado.
A definição dos rumos da companhia pode levar meses, em especial considerando que o processo entre Jatahy e Birman tramita em segredo de Justiça e que a arbitragem ainda depende da definição dos árbitros.






