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IPO da SpaceX mobiliza investidores com promessa de revolucionar espaço, IA e conectividade global

IPO da SpaceX mobiliza investidores com promessa de revolucionar espaço, IA e conectividade global

Maior oferta pública da história avalia companhia em cerca de US$ 1,7 trilhão e reacende debate sobre valuation e riscos

O IPO da SpaceX chegou ao mercado cercado por forte expectativa dos investidores e já é considerado o maior da história, com uma captação estimada em US$ 75 bilhões. As ações Classe A foram precificadas em US$ 135 cada, mas o comportamento do papel após o início das negociações ainda é uma incógnita.

Segundo o analista internacional da EQI Investimentos, Marink Martins, a tendência inicial seria de forte demanda pelos papéis.

“Quem tiver a oportunidade de comprar as ações Classe A, comprarão por US$ 135. Qual será o preço de negociação subsequente ao primeiro negócio? O primeiro negócio vai ser acima desses US$ 135 ou abaixo? Não tem como saber, provavelmente será acima, pois há muita demanda”, afirmou.

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Uma missão que vai além dos negócios

Um dos pontos que mais chamaram a atenção do mercado foi a missão corporativa apresentada pela companhia em seu documento de registro enviado à SEC, órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos.

De acordo com o documento, a empresa afirma que sua missão é:

“Desenvolver os sistemas e as tecnologias que permitirão à humanidade tornar-se uma civilização multiplanetária, compreender a verdadeira natureza do universo e levar a luz da consciência às estrelas.”

A declaração vai além das tradicionais metas corporativas e combina objetivos ligados à exploração espacial, inteligência artificial e expansão da presença humana pelo universo.

O documento acrescenta que a companhia pretende construir “o mais ambicioso ecossistema de inovação verticalmente integrado da Terra — e além dela”, utilizando infraestrutura espacial, conectividade global e inteligência artificial para acelerar descobertas científicas e, futuramente, estabelecer uma presença permanente da humanidade na Lua e em outros planetas.

Para Marink, trata-se de uma proposta sem precedentes no ambiente corporativo. “Isso é extremamente vago, extremamente fascinante”, avaliou o analista.

Mercado potencial de US$ 28,5 trilhões

No prospecto apresentado aos investidores, a empresa estima um mercado endereçável total (TAM) de US$ 28,5 trilhões.

Desse montante:

  • US$ 370 bilhões estariam relacionados ao setor espacial;
  • US$ 1,6 trilhão à conectividade global por meio da Starlink;
  • US$ 26,5 trilhões estariam ligados à inteligência artificial.

Os números indicam que a maior oportunidade econômica projetada pela companhia não está necessariamente no setor espacial, mas na combinação entre conectividade global e inteligência artificial.

Segundo Marink, essa é uma das principais mensagens transmitidas pelo documento. “O que a gente observa, de acordo com o relatório S-1, é que não se trata de uma empresa para lançamento, para levar o homem à Lua ou levar o homem a Marte”, afirmou.

Na avaliação do analista, o crescimento projetado pela companhia está concentrado principalmente em iniciativas relacionadas à inteligência artificial e infraestrutura computacional.

“Isso aparentemente não dá dinheiro, pois a própria empresa vislumbra que a parte de crescimento mesmo tem a ver com inteligência artificial, com construção de data centers no espaço”, disse.

Estrutura de controle mantém poder concentrado em Musk

Outro aspecto destacado pelo analista é a estrutura de governança corporativa adotada pela companhia. A SpaceX foi incorporada no estado do Texas, e não em Delaware, jurisdição tradicionalmente escolhida por empresas americanas listadas em bolsa.

Segundo Marink, essa decisão facilita a manutenção de estruturas acionárias que concentram poder de decisão nos fundadores.

“De fato, Elon Musk é o maior acionista. Ele exerce poder de veto e poder de decisão na empresa através de ações tipo Classe B. Cada ação do Elon Musk tem direito a 10 votos, enquanto as ações listadas amanhã são uma ação, um voto”, explicou.

Comparação com uma “blank check company”

Um dos pontos centrais da análise de Marink foi a comparação da tese de investimento da SpaceX com o conceito de “blank check company”, expressão utilizada para empresas nas quais os investidores apostam mais na capacidade de execução dos gestores do que nos resultados financeiros atuais.

Segundo ele, embora a SpaceX não seja formalmente uma SPAC, existe uma semelhança importante na lógica de investimento.

“Quando você compra hoje uma ação da SpaceX, você está dando um dinheiro para uma empresa que vai praticamente não crescer por aquisição, mas vai crescer por inovação”, afirmou.

Para o analista, a companhia ainda aposta em projetos que se encontram em estágio inicial de desenvolvimento.

“Você vai chegar e vai dar um dinheiro para o Elon Musk, e ele, de fato, vai construir algo que vai ser transformacional. Você está comprando, embarcando no sonho do Elon Musk”, declarou.

Valuation elevado é principal ponto de preocupação

Marink também chamou atenção para os múltiplos atribuídos à companhia. Segundo ele, a SpaceX registrou receita de aproximadamente US$ 18 bilhões em 2025, mas ainda apresentou prejuízo no período.

Ao comparar esses números com a avaliação de mercado da empresa, o analista conclui que os investidores estão pagando um prêmio extremamente elevado pelas expectativas futuras.

“Estamos falando de uma empresa que negocia praticamente a 100 vezes vendas”, afirmou. Na visão do especialista, o valor atual da companhia está baseado quase integralmente na expectativa de que os projetos futuros sejam bem-sucedidos.

“Tudo isso que foi feito na SpaceX até agora não vale nada. Você vai chegar e vai dar um dinheiro para o Elon Musk, e ele, de fato, vai construir algo que vai ser transformacional”, disse.

Volatilidade e realização de lucros estão no radar

Embora reconheça o entusiasmo dos investidores e a força da marca construída por Elon Musk, Marink alerta para os riscos envolvidos na operação.

Segundo ele, muitos investidores podem buscar ganhos rápidos nos primeiros dias de negociação, aproveitando a forte demanda inicial.

Além disso, há um cronograma de lock-up que impedirá parte dos acionistas antigos de vender imediatamente suas participações. No entanto, ao longo dos próximos meses, investidores que adquiriram ações em rodadas privadas a avaliações muito inferiores poderão realizar lucros.

“Mesmo que ela suba inicialmente, nada vai impedir que o preço dessa ação despenque 30%, 50%, 80%. Por que não? Existe essa possibilidade”, afirmou.

O analista ressalta que não é possível atribuir probabilidades precisas para o comportamento futuro das ações, mas considera importante que os investidores compreendam os riscos associados ao investimento.

Analista não recomenda compra das ações

Ao final de sua análise, Marink afirmou que não recomendaria a compra das ações da SpaceX neste momento.

“Eu me considero ainda um value investor e, nessa escola de value investing, eu não consigo conceber essa possibilidade de dar um dinheiro que, nesse momento, parece ser 100 vezes vendas ou um múltiplo infinito”, declarou.

Para ele, embora a missão da companhia seja única e o potencial de mercado apresentado seja extraordinário, grande parte da tese de investimento continua baseada em promessas futuras, especialmente ligadas à inteligência artificial.

“O Elon Musk apresenta um TAM de US$ 28 trilhões, mas desses US$ 28 trilhões, boa parte está em uma área de inteligência artificial, data centers no espaço e por aí vai”, concluiu.