Depois de um ano em que a tese de Axia Energia (AXIA6) entregou praticamente tudo o que se esperava — e algo a mais — a carteira “Mais Dividendos com Ações” (MDA), da EQI Research, fez um movimento que costuma dizer muito sobre o momento do mercado: reduziu o peso de uma posição vencedora e reforçou um case mais defensivo, com perfil clássico de geração de renda.
Na prática, a mudança significa menos concentração em Axia, que acumulou forte valorização em 2025, e mais espaço para Fleury (FLRY3), que passou a ser tratada como um dos nomes mais alinhados à proposta da carteira: ações resilientes, com valuation atrativo e capacidade consistente de pagar dividendos.
“Estamos realizando um ajuste no tamanho de duas posições nesta edição da carteira MDA – Mais Dividendos com Ações. A principal alteração é a redução do peso em Axia Energia que, após uma excelente performance, deixa de ser a maior posição dentro do setor de utilidades públicas em nossa carteira”, escreveu a EQI Research no relatório.
Menos Axia: realização parcial após um rali forte em 2025
A Axia Energia entrou na carteira MDA em fevereiro de 2025 e, poucos meses depois, ganhou protagonismo dentro do portfólio. Em julho, chegou a se tornar uma das maiores posições da carteira, com peso de 15%.
O desempenho ajudou a justificar o tamanho da posição: segundo a EQI Research, a ação entregou um retorno total de aproximadamente 90% em 2025 — uma alta expressiva para um papel que costuma ser associado a previsibilidade, disciplina financeira e geração de caixa.
Mas é justamente aí que entra a lógica do ajuste.
“Após um retorno total de ~90% em 2025, ainda enxergamos um relevante potencial de valorização para a Axia. Contudo, a maior parte da assimetria de valor já foi capturada”, apontou a EQI Research.
Com isso, a casa decidiu reduzir a exposição em Axia de 15% para 10%. Um movimento que, além de realizar parte do lucro, também diminui a concentração setorial — já que a companhia era, até então, a maior exposição da carteira ao setor de utilidades públicas.
Mesmo após a alta, o relatório ressalta que ainda há fundamentos para sustentar a tese. A EQI Research cita projeções do BTG Pactual (BPAC11) de que a ação negocia a uma taxa interna de retorno implícita de IPCA + 9,2% — um patamar ainda acima da média do setor, embora abaixo do retorno implícito observado quando Axia se tornou a maior posição do portfólio.
Engenharia da Axia para “proteger” dividendos
Além do ajuste de peso, o relatório também chama atenção para um tema que tem ganhado relevância entre empresas e investidores: as mudanças tributárias envolvendo dividendos — e como as companhias estão se preparando para isso.
A EQI Research explica que a Axia anunciou, no ano passado, uma nova classe temporária de ações como parte de uma estrutura financeira e tributária voltada a antecipar distribuições e preservar flexibilidade de capital.
“A nova classe de ações faz parte de uma engenharia financeira e tributária para se precaver para a tributação de dividendos (IRPFM)”, diz o relatório.
A Lei nº 15.270, de 2025, instituiu a figura do IRPFM (Imposto de Renda Pessoa Física Mínimo), amplamente interpretado pelo mercado como uma forma de tributação sobre dividendos, com alíquota que pode chegar a até 10%.
Segundo a EQI Research, esse contexto levou diversas empresas a acelerarem a declaração de proventos com base nos lucros obtidos em 2025 e também em lucros acumulados de anos anteriores — aproveitando regras anteriores e evitando a incidência do novo imposto.
No caso da Axia, a reorganização veio por meio da criação das ações preferenciais classe C, chamadas PNC, dentro de um processo de capitalização de lucros e reservas acumuladas. À época do anúncio, no 3T25, essas reservas somavam cerca de R$ 39,9 bilhões, o que viabilizou a operação.
Como funcionou a bonificação — e por que as PNC não são “para sempre”
De acordo com a EQI Research, o aumento de capital ocorreu por meio da capitalização de lucros ou reservas, com emissão das ações PNC e distribuição gratuita aos acionistas na forma de bonificação.
O mecanismo seguiu uma lógica proporcional à participação acionária e envolveu datas e eventos bem definidos:
- a data-base foi 19 de dezembro de 2025
- as ações passaram a ser negociadas ex-bonificação em 22 de dezembro de 2025
- as ações PNC começaram a ser negociadas na B3 em 22 de dezembro de 2025
- o crédito das ações nas posições dos acionistas ocorreu em 26 de dezembro de 2025
A razão de bonificação foi de 0,2628378881074 ação PNC para cada 1 ação.
Desde a criação, também ficou estabelecido um cronograma de conversão automática e obrigatória das PNCs. Entre 2026 e 2030, a companhia se comprometeu a converter ou recomprar ao menos 4% ao ano das PNCs. Em 2031, ocorreria a conversão ou recompra do saldo remanescente e, em 2032, as ações PNC deixariam de existir.
O Conselho de Administração manteve a prerrogativa de antecipar conversões ou recompras, se julgasse adequado.
Preferencialistas: a criação das PNR para preservar direitos econômicos
Um ponto adicional destacado pela EQI Research foi o tratamento dado aos acionistas preferencialistas (PNA e PNB), que possuem direito a um dividendo 10% superior ao das ações ordinárias.
Para preservar esse direito, a Axia criou uma classe adicional: as ações PNR.
“As PNR foram destinadas exclusivamente aos detentores de PNA e PNB”, diz o relatório. Segundo a EQI, tratava-se de ações imediata e compulsoriamente resgatáveis em caixa, com valor de resgate equivalente a 10% do valor atribuído às PNCs.
Na prática, esse mecanismo buscou reproduzir, do ponto de vista econômico, o mesmo efeito de uma distribuição de dividendos majorados aos preferencialistas.
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Mais Fleury: estabilidade, valuation atrativo e dividendos no setor de saúde
Se Axia representa a tese que já entregou boa parte do ganho — e agora passa por uma realização parcial —, Fleury aparece como o movimento complementar da carteira: reforçar uma empresa que combina defensividade, previsibilidade e geração de renda.
A Fleury foi introduzida na última edição da carteira MDA, mas agora ganha peso em um contexto de maior convicção na tese.
“Estamos aumentando nossa posição em um contexto de maior convicção na tese. Acreditamos que a Fleury representa um caso de investimento com perspectiva de crescimento de baixo risco, dividend yield atrativo e margens estáveis, resultando em uma combinação interessante de tese defensiva com opcionalidades”, escreveu a EQI Research.
O argumento central é que a companhia reúne exatamente as características que uma carteira de dividendos busca: resiliência, valuation atrativo e uma dinâmica operacional que permite pagar proventos sem pressionar o balanço.
Segundo o consenso de mercado citado no relatório, a ação negocia a um múltiplo preço/lucro de 12,6x para 2026 — o que representa um desconto de cerca de 14% em relação à sua média histórica.
A EQI também aponta que a empresa é negociada a um valuation atrativo, próximo de um desvio padrão abaixo de sua média histórica, além de apresentar baixa alavancagem. Isso, na visão da casa, abre espaço para direcionar a geração de caixa ao pagamento de proventos.
O motor estrutural do case: envelhecimento e medicina preventiva
Outro ponto que sustenta a tese de Fleury, segundo a EQI Research, é que o setor de medicina diagnóstica tende a ganhar relevância estrutural no Brasil.
“O setor de medicina diagnóstica tende a ganhar relevância estrutural com o envelhecimento populacional e o avanço da medicina preventiva no Brasil”, destaca o relatório, apontando fatores que contribuem para a ampliação da demanda por exames e procedimentos especializados.
Na visão da casa, mesmo em um cenário de mix menos favorável — com perda de peso relativo da marca Fleury à medida que negócios de menor margem ganham participação —, as margens podem se manter estáveis no longo prazo.
O que ajuda a sustentar essa estabilidade, segundo o relatório, é o aumento do ticket médio e a maior frequência de utilização dos serviços, fatores que podem compensar a mudança de mix e preservar a qualidade operacional.
Dividendos no centro: payout elevado e yield estimado de 6,7% em 2026
No fim das contas, o que coloca Fleury no centro da carteira de dividendos é a combinação entre solidez financeira e política consistente de distribuição.
Com payout elevado estimado entre 80% e 90%, a EQI Research projeta que a companhia pode entregar um dividend yield aproximado de 6,7% em 2026.
“Esse patamar deve ser alcançado sem a necessidade de aumento da alavancagem além do nível atual, preservando sua solidez financeira”, afirma o relatório.
A leitura é que, em um ambiente em que investidores voltam a priorizar previsibilidade e qualidade de caixa, a Fleury reúne um conjunto raro: resiliência operacional, margens saudáveis, geração de caixa e capacidade de remunerar o acionista com disciplina.
A opcionalidade fora do cenário base: um possível prêmio via Rede D’Or
Além da tese defensiva, a EQI Research ainda menciona uma opcionalidade que não entra nas projeções-base, mas que poderia destravar valor de forma relevante.
Trata-se da possibilidade de uma eventual aquisição da Fleury pela Rede D’Or (RDOR3), por meio de troca de ações. Nesse cenário, segundo a casa, a Fleury poderia ser adquirida com prêmio.
Apesar de já terem ocorrido negociações nesse sentido, de acordo com notícias citadas no relatório, a EQI não incorpora essa hipótese no cenário base.
O recado do ajuste: menos concentração, mais previsibilidade de renda
O movimento da carteira “Mais Dividendos com Ações” deixa um recado claro para 2026: após capturar boa parte da assimetria de um case que valorizou forte, faz sentido reduzir concentração e reforçar uma tese mais defensiva, com dividendos sustentáveis e risco controlado.
Axia ainda aparece como uma empresa com potencial e fundamentos relevantes, mas a Fleury ganha espaço justamente por reunir o que uma carteira de dividendos procura neste momento: valuation atrativo, baixa alavancagem e capacidade consistente de distribuir proventos.
Quer entender a tese completa, os pesos atualizados e o racional por trás de cada escolha da carteira “Mais Dividendos com Ações”? Acesse o relatório na íntegra da EQI Research no app do EQI+ para ver não só essas principais atualizações (menos Axia e mais Fleury), mas também todos os ativos que compõem a carteira e a estratégia completa por trás da seleção de dividendos.






