A fusão entre Afya ($A2FY) e YDUQS (YDUQ3) pode inaugurar um novo ciclo de crescimento para a Afya, ao combinar a força de sua operação de ensino médico com uma plataforma educacional mais ampla e diversificada. Essa é uma das principais conclusões do relatório elaborado pelos analistas Samuel Alves e Maria Resende, do BTG Pactual, após a participação no Investor Day 2026 da Afya, realizado no Rio de Janeiro.
O evento marcou a primeira apresentação pública da companhia a investidores desde o anúncio da fusão e teve como foco o histórico de crescimento da empresa, a lógica estratégica da transação e as oportunidades de expansão decorrentes da integração dos negócios.
Na avaliação apresentada pela administração, a combinação ocorre em um momento de maior concorrência no ensino médico e de desafios regulatórios crescentes. Nesse contexto, a união das duas empresas deve ampliar o mercado potencial da Afya, diversificar suas fontes de receita e fortalecer sua capacidade de crescimento tanto por meio da expansão das operações existentes quanto pela aquisição de novas instituições.
Histórico de expansão sustenta estratégia de crescimento
Desde sua abertura de capital, em 2019, a Afya ampliou de 1,2 mil para 3,8 mil o número de vagas autorizadas em cursos de medicina. A companhia também expandiu sua presença para 20 estados brasileiros e chegou a aproximadamente 26 mil estudantes de graduação. No mesmo período, a receita avançou de R$ 800 milhões para uma estimativa de R$ 3,8 bilhões em 2026.
A trajetória foi acompanhada por uma estratégia ativa de aquisições. Desde o IPO, a empresa realizou 22 operações de fusões e aquisições (M&A), distribuídas igualmente entre graduação e soluções digitais. No segmento de graduação, foram investidos R$ 4,1 bilhões, a um múltiplo médio de 4,6 vezes o valor da firma em relação ao EBITDA (EV/EBITDA), considerando as sinergias.
A administração também destacou os retornos obtidos em aquisições anteriores. As operações envolvendo Unigranrio e Unima apresentaram taxas internas de retorno (TIR) de 24%, enquanto a UniDomPedro registrou retorno de 21%, todos sem considerar o efeito da alavancagem.
A geração de caixa também teve papel relevante na trajetória da companhia. Desde 2019, a Afya acumulou R$ 3,15 bilhões em fluxo de caixa livre para o acionista (FCFE), distribuiu R$ 537 milhões em dividendos e destinou R$ 588 milhões à recompra de ações. Apesar dos investimentos e das distribuições aos acionistas, a empresa manteve a alavancagem líquida abaixo de uma vez o EBITDA dos últimos 12 meses.
Companhia combinada terá receita estimada em R$ 9,4 bilhões
Com a integração, Afya e YDUQS deverão formar uma operação com receita anual de aproximadamente R$ 9,4 bilhões e 5,9 mil vagas autorizadas em cursos de medicina. A estrutura combinada atenderá inicialmente cerca de 38 mil estudantes da área, número que poderá chegar a 44 mil após a maturação completa das vagas.
As marcas premium Afya, IDOMED e IBMEC deverão responder por aproximadamente 50% da receita e 66% do EBITDA da nova companhia, segundo as informações apresentadas no evento.
A administração também ressaltou os múltiplos envolvidos na transação. O negócio foi avaliado em 3,8 vezes o EV/EBITDA antes das sinergias, indicador que cai para 2,7 vezes quando considerados os ganhos esperados com a integração.
Outro ponto destacado foi a previsão de uma política de distribuição de dividendos de, no mínimo, 50%. A combinação também poderá ampliar a liquidez das ações, favorecendo a negociação dos papéis no mercado.
Quatro frentes devem impulsionar a expansão
A administração identificou quatro principais vetores de crescimento para a companhia combinada. O primeiro é a expansão do ecossistema de saúde, com potencial para adicionar cerca de 5 mil estudantes de medicina à medida que as vagas existentes da YDUQS amadureçam. Também há oportunidades de ampliar cursos na área da saúde e programas de educação continuada nos 19 campi da IDOMED.
O segundo vetor é o IBMEC, marca posicionada no segmento premium e com margens elevadas. A instituição apresenta potencial de expansão geográfica, especialmente na região Nordeste, onde a companhia poderá ampliar sua presença.
A terceira frente envolve a educação presencial e digital. Além de diversificar as fontes de receita, esse segmento oferece menor exposição aos riscos regulatórios específicos do ensino médico e abre espaço para o desenvolvimento de programas de aprendizagem ao longo da vida, conhecidos como lifelong learning.
Por fim, a maior escala e a presença geográfica ampliada deverão fortalecer a estratégia de aquisições. Com a fusão, o universo potencial de instituições para operações de M&A poderá crescer de aproximadamente 80 para 135 alvos. A presença relativamente limitada do grupo combinado em São Paulo e na região Sul também representa uma oportunidade de expansão.
Integração prevê captura de 80% das sinergias em três anos
O planejamento da integração já está em andamento. Para preparar a combinação antes do fechamento da operação, as empresas constituíram uma equipe dedicada de 12 executivos seniores, denominada clean team, com atuação no Rio de Janeiro.
O grupo deverá concentrar esforços na redução de despesas administrativas e comerciais, na busca por eficiências operacionais, na integração de sistemas de tecnologia da informação e na otimização dos investimentos de capital (capex). A revisão da estrutura organizacional, da arquitetura acadêmica e das iniciativas de retenção de talentos também está entre as prioridades.
A expectativa da administração é capturar aproximadamente 80% das sinergias projetadas nos três primeiros anos após a conclusão da transação.
O fechamento é esperado em até 12 meses após a assinatura do acordo. As assembleias de acionistas estão previstas para o fim de novembro ou o início de dezembro, enquanto a análise ordinária pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) poderá levar de nove a 11 meses. As principais sobreposições regulatórias identificadas estão concentradas nas cidades do Rio de Janeiro, Teresina e Ji-Paraná.
Concorrência e regulação seguem no radar
Apesar das perspectivas de expansão, o ambiente competitivo e regulatório continua sendo um ponto de atenção para o setor. Durante o evento, a administração reconheceu o aumento recente da oferta de cursos de medicina, mas observou que alguns concorrentes têm enfrentado dificuldades para preencher as vagas recém-autorizadas. Também avaliou que a maior parte das autorizações de vagas obtidas por via judicial parece já ter ocorrido.
A Afya anunciou um reajuste de 5,72% nas mensalidades para 2027, sinalizando confiança no posicionamento de sua marca e na capacidade de repassar aumentos de preços.
Em relação à regulação, a companhia espera maior clareza sobre o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) ao longo de 2026. Segundo as expectativas apresentadas pela administração, eventuais medidas preventivas relacionadas ao exame só passariam a ser aplicáveis após a segunda edição, considerando a entrada em vigor da nova legislação.
A qualidade acadêmica também foi apontada como prioridade. A Afya informou contar com nove certificações do Sistema de Acreditação de Escolas Médicas (SAEME), ter investido mais de R$ 100 milhões em infraestrutura médica nos últimos 12 meses e manter aproximadamente 600 parcerias com governos locais e hospitais.
Nesse cenário, a combinação com a YDUQS representa uma oportunidade de ampliar a escala, diversificar as operações e fortalecer a capacidade de investimento da Afya. A concretização desses benefícios, contudo, dependerá da aprovação regulatória, da execução do plano de integração e da efetiva captura das sinergias previstas pela administração.






