
FIIs: o caso que o mercado (ainda) não explica
01 Nov 2023 às 13:30 · Última atualização: 01 Nov 2023 · 11 min leitura
01 Nov 2023 às 13:30 · 11 min leitura
Última atualização: 01 Nov 2023
A SouthRock surpreendeu o mercado financeiro ao entrar com o pedido de recuperação judicial, tendo dívidas de R$ 1,8 bilhão. Para aqueles que não estão familiarizados com a holding, ela controla as operações da Starbucks no Brasil, além de administrar a franquia Subway e o Eataly, um mercado premium e restaurante situado no coração da Avenida Faria Lima, em São Paulo.
Esse pedido de recuperação judicial da SouthRock gerou muitas dúvidas entre os investidores. De fato, alguns estão questionando qual o tamanho do problema financeiro que a Starbucks vem apresentando no Brasil.
Em nota, a administração da empresa ressaltou que os desafios econômicos no Brasil, decorrentes da pandemia e marcados pelo aumento da inflação e das taxas de juros, afetaram profundamente todos os varejistas, incluindo a SouthRock.
Nesse cenário, a gestora está se preparando para encarar uma nova fase de desafios que exige uma revisão e reestruturação de seus negócios, com o objetivo de garantir a contínua proteção das marcas que representa no mercado brasileiro.
A SouthRock enfatizou que as mudanças planejadas incluem a avaliação do número de lojas em operação, o cronograma de aberturas, a otimização das relações com fornecedores e stakeholders, bem como uma revisão da atual estrutura de sua equipe de trabalho.
O portal EuQueroInvestir coletou as principais informações sobre a situação da SouthRock para manter nossos leitores atualizados sobre o que está acontecendo com a controladora da Starbucks no Brasil.
Fundada em 2015, a SouthRock é uma empresa de private equity com sede em São Paulo, destacando-se no controle das marcas Starbucks, TGI Fridays, BRA, Eataly e Subway.
Em 2017, a Brazil Airport Restaurants (BRA), uma operadora multimarcas da SouthRock, inaugurou suas primeiras lojas em aeroportos. No ano seguinte, a SouthRock conquistou a posição de Master Licensee (Licenciada Mestre) da Starbucks e do TGI Fridays no Brasil.
Em 2019, a Starbucks expandiu sua presença para além do eixo São Paulo-Rio, atingindo clientes em São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais.
Em maio de 2022, a SouthRock também se tornou a franqueada master da Subway no Brasil, uma das maiores marcas de restaurantes de comida rápida do mundo, com quase 40.000 lojas em todo o mundo, incluindo mais de 1,6 mil unidades no Brasil.
O fundador e CEO da SouthRock é Kenneth Pope, um americano que atua no Brasil desde 2008.
O empreendedor veio para o Brasil ao se tornar diretor financeiro da Laço Managment, uma subsidiária da Riata para a América Latina com sede em São Paulo.
O fundo de private equity privilegiava negócios com perspectiva de se tornar líderes de mercado nas áreas de agricultura, energia, varejo e setor imobiliário. Seu portfolio incluía St. Marche Supermercados, Eataly Brasil, The Fifties: Traditional Burger, China-in-Box e Gendai.
Em 2015, Pope fundou a SouthRock, dedicada a negócios de alimentos e bebidas no Brasil. “A SouthRock não tem interesse em expor sua marca, mas em procurar por oportunidades para que as marcas que controla, como a Starbucks, sejam reconhecidas”, disse em entrevista.
O empreendedor se graduou em ciências biomédicas pela Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos. Depois, tornou-se analista de investimentos em energia na Riata Corporate Group. Entre 2007 e 2008, cursou MBA em Finanças pela Universidade da Cidade de Oklahoma.
A Starbucks está presente no Brasil desde dezembro de 2006, por meio de uma parceria com investidores locais.
Inicialmente, a empresa era controlada pela Cafés Sereia do Brasil, com 51% do negócio, enquanto os americanos detinham os outros 49%.
Em 2010, o grupo dos EUA anunciou a aquisição do restante da operação brasileira, tornando-se proprietário de 100% da Starbucks Brasil Comércio de Café.
Oito anos depois, a rede americana fechou um acordo de licenciamento no Brasil com a SouthRock, que passou a ser a detentora da marca no país. A gestora adquiriu 113 pontos da cafeteria em 17 cidades no Brasil, embora o valor do negócio não tenha sido divulgado na época.
O acordo entre as partes foi intermediado por Kenneth Pope, um empresário norte-americano e ex-diretor da Laço Management, que anteriormente esteve envolvido com empresas como St. Marché e Eataly. Kenneth Pope fundou a SouthRock em 2015, após sua saída da Laço Management.
Após a aquisição da Starbucks pela SouthRock, a cafeteria iniciou o processo de expansão para fora do eixo Rio-São Paulo. Atualmente, a empresa está presente em nove estados, tendo recentemente alcançado o Nordeste. No Brasil, a Starbucks conta com 190 lojas.
De acordo com o Valor Econômico, uma fonte relatou que o processo de expansão da gestora ocorreu de maneira desorganizada, e nos últimos meses, franquias da rede de cafeteria enfrentaram dificuldades para pagar o aluguel de alguns pontos.
Outra fonte confidenciou ao jornal que a SouthRock estava em busca de investidores para obter mais recursos com o objetivo de quitar as dívidas com fornecedores.
Apesar da expansão para o Nordeste, o Pipeline apurou que a rede teria fechado 36 unidades da Starbucks nos últimos meses, incluindo locais em cidades como Franca, São Paulo, Rio de Janeiro e Canoas. A SouthRock confirmou o fechamento das lojas, mas não especificou quais seriam elas.
Segundo informações que circulam na imprensa nesta quarta-feira (1), a Starbucks Corp., de Seattle, nos EUA, que é listada na bolsa de Nova York (Nyse) sob o código SBUX, entregou à SouthRocks, em 13 de outubro, uma notificação de rescisão do acordo de licenciamento, o que significa que estava retirando da empresa o direito de uso da marca.
O pedido de recuperação judicial da SouthRock informa que o valor da dívida é de R$ 1,8 bilhão.
Segundo o Pipeline, a SouthRock chegou a contratar o UBS para negociar uma participação acionária na holding. O banco esteve em reuniões com fundos de private equity recentemente, mas eles não estavam dispostos a concluir uma transação às pressas em meio a um processo de reestruturação.
O site informa que a SouthRock buscava um montante de R$ 700 milhões para refinanciar suas dívidas, com parte destinada à amortização e à retomada do crescimento.
A holding contratou a consultoria Galeazzi & Associados para conduzir uma reestruturação em suas operações. Essa decisão veio após a holding adiar o pagamento das debêntures da Subway, que têm como garantia as ações detidas tanto pela SouthRock quanto pelo fundador e CEO, Kenneth Pope.
Prevendo dificuldades, a empresa já havia adiado o pagamento de juros e a amortização da primeira série das debêntures, no valor total de R$ 130 milhões, em duas ocasiões desde o início de outubro, com a data de pagamento mais recente fixada para 15 de novembro.
É importante ressaltar que esses títulos só vencerão em abril de 2029 e pagam juros de 6,75%, acrescidos da variação do CDI. No entanto, os desafios enfrentados pela holding não se limitam apenas a esse aspecto.
Especialistas em recuperação judicial são unânimes em afirmar que esta se difere da falência. Além disso, a recuperação judicial se refere à SouthRocks e não à marca Starbucks, cuja propriedade é da Starbucks Corp. americana.
“De forma objetiva, estar em recuperação judicial significa ingressar em um rito judicial, por meio do qual a empresa que se encontra em crise financeira superável poderá implementar os atos jurídicos e financeiros necessários para se recuperar. Não se confunde, assim, a recuperação judicial com a falência. Na recuperação judicial, há crise e surgirão negociações e compromissos a serem feitos, mas a superação do cenário de dificuldade é tida por possível. Na falência, a crise é profunda e insuperável, de maneira que se organiza a liquidação da empresa e o pagamento dos credores, organizados em concurso”, explica Claudio Miranda, sócio do escritório CGV Advogados.
“A recuperação judicial confere uma proteção temporária à empresa devedora contra ações dos credores, visando dar tempo para que devedor e credores possam negociar um novo modo de pagamento das dívidas, que será formalizado através de um plano coletivo de pagamentos, e que deve ser aprovado pela maioria dos credores reunidos em assembleia e homologado pelo juiz do processo”, complementa Frederico Loureiro, sócio do LCSC Advogados.
E quando ocorre a falência? Segundo Miranda, esta vem quando não há viabilidade para a recuperação ou quando são verificadas dificuldades adicionais. A falência resulta na liquidação dos ativos, dentre os quais, potencialmente, as marcas e seus direitos.
A rigor, a recuperação judicial não impacta de imediato o funcionamento das empresas, que podem continuar operando. Mas é comum que ocorra uma reestruturação das operações, com novos fechamentos de lojas e demissões.
“Também é possível que o futuro plano de recuperação judicial preveja a alienação de parte dos ativos para pagamento de credores, ou mesmo que ativos sejam usados em garantia para obtenção de novos aportes de investidores estratégicos. É o plano de recuperação judicial, a ser apresentado em 60 dias do deferimento da recuperação, que vai apontar os caminhos para as marcas e para os ativos do grupo”, aponta Loureiro.
Assim como no caso da SouthRocks, os especialistas apontam que o argumento dos impactos da pandemia tem aparecido bastante nos recentes processos de recuperação judicial.
“A pandemia gerou abalos generalizados na economia brasileira, mas impactou mais fortemente determinados setores, como o varejo, serviços, bares e restaurantes, que sofreram mais com as restrições de circulação de pessoas”, diz Loureiro.
“Durante a pandemia houve ajuda do governo, vide linhas emergenciais disponibilizadas pelo BNDES, carências e prorrogações de dívidas pelos bancos, que ajudaram as empresas durante aquele período. Mas uma hora a conta iria chegar. O aumento das recuperações judiciais em 2023 pode ser explicado em parte pela retomada das cobranças dessas dívidas prorrogadas durante a pandemia, num cenário atual de juros muito mais altos e com a economia ainda patinando”, afirma.
A Riza Asset, gestora do fundo RZAK11, emitiu um comunicado a respeito da situação do pedido de recuperação judicial da SouthRock.
A empresa confirmou que alguns de seus fundos têm investimentos em notas promissórias emitidas pela SRC 6 Participações, que faz parte do mesmo grupo empresarial da SouthRock.
Os fundos alocam parte de seus ativos nessas notas promissórias da SouthRock, representando 2% e 1,9% de suas carteiras, respectivamente, com base nos dados de 30 de outubro de 2023.
Devido ao pedido de recuperação judicial da SouthRock, os valores desses investimentos podem ser afetados e, portanto, precisam ser ajustados imediatamente em termos de seu valor de mercado.
Carolina Borges, analista de FIIs (Fundos Imobiliários) da EQI Research, informa que a Riza, do fundo RZAK11, possui a maior exposição ao Starbucks, representando cerca de 6,5% do patrimônio líquido. Eles detêm alguns CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) em seu portfólio.
No entanto, Borges reforça o que foi mencionado na nota da gestora: apenas dois fundos multimercados serão impactados pelo pedido de recuperação judicial da SouthRock.
“No caso do RZAK11, eles [Riza Asset] afirmaram que o CRI não foi incluído na recuperação judicial. Portanto, todos esses CRIs, uma vez que possuem garantia de alienação fiduciária dos recebíveis do cartão de crédito e as lojas continuarão operando, esses CRIs não foram objeto da recuperação judicial. Assim, a princípio, não deverá afetar a distribuição de proventos no fundo imobiliário RZAK11“, explica a analista.
Borges menciona que ainda não teve a oportunidade de avaliar os outros fundos imobiliários que serão impactados pela crise da Starbucks. No entanto, ela informa que o Iridium (IRDM11) tem uma exposição de 1%, e o IRIM (IRIM11), que é outro fundo gerido pela Iridium, tem uma exposição de cerca de 4% a esses devedores.
Ouça o áudio na íntegra!
O conteúdo foi útil para você?
FIIs: o caso que o mercado (ainda) não explica
Autorizo o envio das minhas informações de acordo com os termos de uso.
Editorias