“Hoje somos a BMW da aviação executiva, mas queremos ser a Tesla.” A frase dita por Paul Malicki, CEO da Flapper, durante entrevista exclusiva ao portal EuQueroInvestir, sintetiza a visão de futuro da companhia.
Mais do que uma metáfora de posicionamento, a declaração revela a tese estratégica da empresa, que é permanecer em um segmento premium, mas com um modelo cada vez mais tecnológico, digital e, no longo prazo, orientado à eletrificação.
Em um setor historicamente associado à exclusividade, a contratos institucionais e à baixa digitalização, a proposta da Flapper não é baratear a aviação executiva — algo estruturalmente limitado pelo próprio custo do serviço —, mas transformar a forma como ela é acessada, operada e integrada à mobilidade aérea do futuro.
Essa ambição ganha ainda mais relevância no Brasil, que reúne uma das maiores frotas privadas do mundo, mas ainda convive com gargalos operacionais e baixa eficiência na utilização de aeronaves.
Um mercado gigante — e ainda pouco eficiente
O Brasil é hoje o segundo maior mercado de jatos privados do mundo, com cerca de 1.070 aeronaves desse tipo em operação. Apesar do tamanho da frota, apenas uma parcela relativamente pequena está certificada para uso comercial no táxi aéreo — um sinal claro de ociosidade e subutilização estrutural do setor.
Ao todo, o país conta com cerca de 765 aeronaves de táxi aéreo, sendo apenas 113 jatos. Ao mesmo tempo, as horas de voo têm avançado de forma relevante: os voos de asa rotativa executiva somaram cerca de 60 mil horas, ante 45 mil anteriormente, enquanto a asa fixa avançou para mais de 37 mil horas, contra cerca de 26 mil no período comparável.
Para Malicki, esse contraste entre tamanho de frota e eficiência operacional foi justamente o ponto de partida para a criação da companhia.
“Faltava acesso à informação e, principalmente, digitalização. Como executivo, pensei que não poderia ser tão difícil reservar um jato ou um helicóptero, mas o setor estava anos atrás de segmentos como hotelaria, que já operam com reservas em tempo real e plataformas integradas”, afirma.
É nessa distância entre frota, certificação e uso eficiente que, segundo o executivo, nasce a oportunidade para plataformas capazes de organizar a oferta, padronizar o serviço e reduzir fricções de acesso.
Da dor do mercado à fundação da empresa
Fundada em 2016, a Flapper nasceu com a proposta de digitalizar a aviação executiva, criando uma plataforma capaz de conectar oferta e demanda em um mercado historicamente fragmentado e pouco transparente.
Na época, a lógica predominante do táxi aéreo no Brasil ainda estava fortemente concentrada em contratos com governos, grandes empresas e operações pouco orientadas ao cliente final sob demanda.
“Tradicionalmente, o táxi aéreo no Brasil viveu muito de contratos institucionais. Faltava um serviço estruturado para o cliente executivo que precisa voar sob demanda, com previsibilidade, tecnologia e governança”, diz o executivo.
O diagnóstico inicial apontava para um setor com alta capacidade ociosa, baixa padronização e pouca integração tecnológica — características que abriram espaço para um modelo mais digital.

Da plataforma digital à operadora de aviação executiva
Ao longo dos anos, a companhia deixou de ser apenas uma intermediadora de voos para assumir um papel mais amplo dentro da cadeia de valor do setor.
“Começamos como uma empresa de tecnologia, mas migramos para também ser operadora. Hoje atuamos nas duas frentes, com intermediação e operação direta”, explica Malicki.
Essa verticalização incluiu a expansão para gestão de aeronaves, clube de jatos e táxi aéreo próprio, permitindo atender desde clientes esporádicos até usuários recorrentes com maior volume de horas de voo.
O movimento também teve impacto direto no perfil de receita, hoje majoritariamente corporativo — reflexo de uma governança mais rígida e certificações internacionais que facilitam a entrada no segmento empresarial.
“Nosso foco em compliance, certificações e governança corporativa aproxima a empresa de grandes corporações, que valorizam segurança e padronização operacional”, afirma.
O avanço do modelo também aparece em números. Em 2024, a Flapper fechou o ano com faturamento próximo de R$ 50 milhões e atingiu o breakeven, consolidando a transição de uma plataforma digital para uma operadora com atuação mais ampla no setor.
Segundo Malicki, a empresa hoje é “majoritariamente corporativa”, apoiada em certificações e processos que facilitam a entrada em grandes companhias.
Malicki também aponta a escala do produto digital: o aplicativo da companhia se aproxima de 500 mil downloads, sinal de que a barreira de acesso — historicamente alta — começa a cair.
Crescimento em um mercado em transformação
A evolução do modelo de negócio ocorre em paralelo ao crescimento do próprio uso da aviação executiva no país. O aumento expressivo nas horas de voo, tanto em helicópteros quanto em aeronaves de asa fixa, indica uma demanda crescente por mobilidade aérea sob demanda, especialmente em grandes centros como São Paulo.
Esse avanço também reforça a leitura de que a aviação executiva deixou de ser apenas um símbolo de luxo para se consolidar como ferramenta estratégica de mobilidade para executivos e empresas.
“Quando as perspectivas econômicas são positivas, a agenda de executivos fica mais estruturada e planejada. Em momentos de incerteza, vemos mais reservas de última hora e decisões mais cautelosas”, observa Malicki.
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A virada estratégica: verticalização e recorrência corporativa
Nos últimos anos, a empresa também apostou na recorrência e na gestão de aeronaves como pilares de expansão.
O lançamento de modelos como propriedade compartilhada e clube de jatos ampliou o leque de atendimento, permitindo diluir custos operacionais e aumentar a eficiência da frota.
“Antes, como marketplace, atendíamos principalmente clientes esporádicos. Hoje conseguimos atender desde quem voa poucas horas por mês até clientes com alta demanda, oferecendo gestão profissional de aeronaves e otimização de custos”, explica o CEO.
Esse movimento reduziu a dependência de voos pontuais e fortaleceu a previsibilidade de receita — um fator relevante para uma companhia em fase de escala.
Da aviação tradicional à mobilidade aérea do futuro
É nesse contexto que surge a metáfora da transição de “BMW para Tesla”. A comparação não implica abandonar o posicionamento premium, mas sim incorporar uma nova lógica tecnológica ao setor.
Segundo Malicki, a eletrificação da aviação executiva é um processo gradual, especialmente em rotas curtas e regionais — justamente onde se concentra a maior parte dos voos no Brasil.
“Cerca de 88% dos voos de táxi aéreo no país acontecem dentro de um raio de até mil quilômetros, com duração média de uma a duas horas. Isso torna a eletrificação uma tendência natural no longo prazo”, afirma.
A aposta, porém, não se resume ao discurso. Malicki afirma que a Flapper vem se posicionando para participar da próxima onda de mobilidade aérea, incluindo iniciativas ligadas à eletrificação e ao uso de aeronaves de decolagem e pouso vertical (eVTOL), voltadas a rotas curtas e operações mais próximas do ambiente urbano.

Segundo o executivo, a lógica operacional favorece o Brasil: a maior parte dos voos de táxi aéreo acontece em trechos de curta duração — e é exatamente nesse intervalo que as primeiras soluções elétricas tendem a ganhar tração, antes de avançarem para rotas mais longas.
“Essa mudança vai vir em partes”, afirma.
É nesse contexto que se insere a aproximação com a Embraer, que desenvolve sua própria visão de mobilidade aérea avançada. Para a Flapper, a eletrificação não substitui o caráter premium da aviação executiva, ela reconfigura a experiência e abre espaço para novos produtos — mais frequentes, mais integrados e com outra lógica de eficiência.
A companhia já firmou acordos relacionados a aeronaves elétricas e híbridas, com foco inicial em voos curtos, mobilidade regional e operações de menor alcance, incluindo destinos próximos a grandes centros urbanos.
Aviação executiva como barômetro da economia
Além da transformação tecnológica, a leitura estratégica do setor também passa pelo comportamento dos próprios executivos.
Para o CEO da Flapper, a aviação executiva funciona como um termômetro da economia real, refletindo diretamente o nível de confiança empresarial.
“A janela de reserva diminuiu. Antes, um executivo reservava um jato com três ou quatro dias de antecedência; hoje estamos mais próximos de dois ou três dias. Isso indica cautela e planejamento mais curto”, diz.
Ele também destaca o aumento de voos para Brasília e a maior busca por otimização de custos, como a inclusão de aeronaves privadas em operações de táxi aéreo — sinais que, segundo ele, refletem um ambiente mais prudente no meio corporativo.
Escalar sem perder o caráter premium
Mesmo com a ambição tecnológica, a companhia não pretende abandonar o posicionamento premium que caracteriza a aviação executiva.
“O serviço sempre será mais caro do que a aviação comercial. Nosso objetivo não é democratizar o preço, mas democratizar o acesso ao serviço por meio de tecnologia, eficiência operacional e novos modelos de consumo”, afirma Malicki.
Com produto já mais maduro, presença internacional e foco em clientes corporativos, a estratégia agora é escalar mantendo governança, segurança e experiência como diferenciais centrais.
Na visão do executivo, o futuro do setor passa por uma combinação de digitalização, economia compartilhada e eletrificação — três vetores que, se bem executados, podem redefinir a mobilidade aérea executiva nos próximos anos.
Se hoje a empresa se enxerga como uma “BMW” da aviação executiva, a ambição declarada de se tornar uma “Tesla” revela menos uma ruptura e mais uma evolução: permanecer premium, mas com tecnologia e inovação no centro do modelo de negócio.






