A disparada do ouro no mercado internacional, fechando nesta quarta-feira (28) a US$ 5.303,60 por onça-troy pela primeira vez na história, impulsionou também o contrato futuro do metal na B3 ($B3SA3), negociado sob o ticker GLD. Isso fez com que o ativo atingisse um recorde histórico na bolsa de valores do Brasil.
Segundo a B3, foi superada a marca de 35.900 contratos negociados em uma única sessão. Ao longo do dia, foram realizadas 1.177 operações, movimentando um volume financeiro de R$ 966 milhões. O número de contratos representa um salto expressivo de 69,09% em relação ao recorde anterior, de 21.232, evidenciando o forte aumento do interesse pelo metal precioso como instrumento de proteção e diversificação tática.
Marcos Skistymas, diretor de Produtos Listados da B3, explicou que esse desempenho demonstra a eficácia do esforço da B3 voltadas para o aumento da liquidez e acessibilidade do produto.
“O crescimento de 69,09% em relação à máxima anterior não é um dado isolado, mas o resultado de um trabalho contínuo para ampliar o acesso ao Futuro de Ouro para diversos tipos de investidores, desde os institucionais até os clientes do varejo, que buscam estratégias sofisticadas para protegerem seus portfólios ou buscar lucros em curto prazo”, analisou ele.

Disparada do ouro: entenda a alta desta quarta
O mercado de ouro ganhou novo impulso após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizando pouca preocupação com a recente desvalorização do dólar, que atingiu o menor patamar em quase quatro anos. O enfraquecimento da moeda americana, combinado ao aumento das tensões geopolíticas, reforçou a busca de investidores por ativos de proteção, como o ouro e outros metais preciosos.
Nesta quarta-feira, o metal chegou a avançar até 4%, após já ter registrado alta de 3,4% na sessão anterior — o maior ganho diário desde abril. Com esse desempenho, o ouro acumula valorização aproximada de 22% no ano. A prata também se destacou, com avanço em torno de 60% no mesmo período, refletindo o movimento generalizado de proteção observado nos mercados.
O cenário externo contribuiu para intensificar a cautela dos investidores. Um forte movimento de venda de títulos públicos no Japão elevou as preocupações com o elevado nível de gastos do governo japonês. Paralelamente, cresce a expectativa de que os Estados Unidos possam intervir para sustentar o iene, o que tende a exercer pressão adicional sobre o dólar.
Na terça-feira, o índice da moeda americana recuou 1,1%, registrando a maior queda diária desde abril. A desvalorização do dólar tornou o ouro mais barato para compradores de outras moedas, ampliando a demanda internacional e reforçando a trajetória de alta do metal.
O ouro como hedge
Em momentos de elevada incerteza econômica e política, o ouro volta a ocupar um papel central nas estratégias de proteção de investidores ao redor do mundo. Tradicionalmente visto como um ativo de preservação de valor, o metal precioso funciona como hedge — uma espécie de seguro — contra choques macroeconômicos, instabilidade financeira e perda de poder de compra das moedas.
O principal fator que sustenta essa característica é a relação histórica do ouro com o dólar e com os juros. Em cenários de enfraquecimento da moeda americana, inflação persistente ou expectativas de políticas monetárias mais flexíveis, o ouro tende a se valorizar, já que não depende de emissor soberano nem carrega risco de crédito. Além disso, por ser cotado internacionalmente em dólar, sua atratividade aumenta quando a divisa perde força, tornando o metal mais acessível a investidores de outras economias.
A instabilidade geopolítica também reforça o papel defensivo do ouro. Conflitos internacionais, tensões comerciais e disputas entre grandes potências costumam elevar a aversão ao risco nos mercados, levando investidores a reduzir exposição a ativos mais voláteis, como ações e moedas emergentes, e a buscar refúgio em instrumentos considerados mais seguros. Nesse contexto, o ouro se destaca por sua liquidez global e por manter valor mesmo em períodos de forte estresse financeiro.
Outro ponto relevante é o comportamento dos bancos centrais. Em ciclos de incerteza prolongada, diversas autoridades monetárias aumentam suas reservas em ouro como forma de diversificação e proteção cambial, o que contribui para sustentar a demanda estrutural pelo metal. Esse movimento institucional reforça a percepção do ouro como ativo estratégico de longo prazo.
Diante de um cenário marcado por dúvidas sobre crescimento econômico, trajetória fiscal de grandes economias e volatilidade cambial, o ouro volta a cumprir sua função histórica: servir como instrumento de proteção patrimonial. Mais do que uma aposta especulativa, o metal atua como amortecedor de riscos em portfólios, especialmente em períodos em que a confiança nos ativos tradicionais é colocada à prova.
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