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Usuários de canetas emagrecedoras pagam mais caro por carne

Usuários de canetas emagrecedoras pagam mais caro por carne

Estudos acadêmicos apontam que usuários de GLP-1 também reduzem o consumo geral de alimentos e bebidas alcoolicas

O avanço das chamadas “canetas emagrecedoras”, medicamentos à base de GLP-1 usados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, começa a redesenhar o comportamento de consumo dentro dos supermercados. Embora esses remédios levem a uma redução significativa na ingestão total de alimentos, eles também estão mudando a forma como os consumidores escolhem o que colocar no carrinho.

Estudos acadêmicos analisados em relatório recente apontam que usuários de GLP-1 reduzem o consumo geral de alimentos e bebidas. A supressão do apetite leva a uma queda média de 5,3% nos gastos com supermercado após seis meses de uso — percentual que chega a 8,2% entre famílias de maior renda. Snacks processados e alimentos ultracalóricos são os mais afetados, com redução relevante no consumo de produtos salgados, açucarados e altamente calóricos, segundo relatório da XP.

Ao mesmo tempo, o impacto se estende às bebidas alcoólicas. Pesquisas indicam que os medicamentos diminuem a vontade de beber e reduzem o número de doses por ocasião, muitas vezes com eficácia superior a tratamentos específicos contra o alcoolismo. O efeito ocorre inclusive entre pessoas que não pretendiam reduzir o consumo, criando um impacto negativo incidental sobre a demanda de bebidas.

Mas é no consumo de proteínas que surge uma mudança estrutural mais relevante. Usuários de GLP-1 demonstram menor sensibilidade a aumentos de preço de carnes e outras fontes proteicas. Em termos práticos, após um reajuste de 10% no preço, a queda no volume comprado por esses consumidores é cerca de dois pontos percentuais menor do que entre não usuários.

Além disso, há uma mudança no chamado “valuation” do consumidor: a disposição a pagar por proteínas aumenta. Os estudos mostram que, mesmo comendo menos no total, esses consumidores passam a atribuir maior valor nutricional às proteínas e aceitam pagar mais por esses produtos.

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O efeito agregado sobre a demanda total de alimentos ainda é considerado marginal e depende de validação científica adicional. Mesmo em cenários extremos de adoção ampla dos medicamentos, as projeções indicam variações pequenas no volume total consumido na maioria das categorias.

Canetas emagrecedoras e o mercado

Para o mercado acionário, os impactos potenciais são assimétricos. Empresas focadas em proteínas, como a JBS (JBSS32), a Marfrig (MBRF3) e a Minerva (BEEF3), tendem a se beneficiar da maior disposição a pagar e da menor elasticidade-preço, o que pode sustentar estratégias de premiumização mesmo com volumes estáveis.

Por outro lado, companhias mais expostas a alimentos ultraprocessados, grãos básicos e bebidas alcoólicas podem sentir pressão maior. É o caso da Camil (CAML3), da M. Dias Branco (MDIA3) e da Ambev (ABEV3), que atuam em categorias diretamente impactadas pela redução do consumo calórico e de álcool.