O Bitcoin voltou a testar a região dos US$ 60 mil nas últimas semanas, em um movimento marcado por forte deterioração das métricas on-chain e enfraquecimento relevante dos principais pilares de demanda, de acordo com análise da Glassnode. A criptomoeda chegou a operar próxima de US$ 59 mil após uma queda acelerada, refletindo um ambiente de aversão ao risco e pressão vendedora crescente.
A correção ocorre em um contexto macro mais restritivo, com o dólar fortalecido e juros elevados nos Estados Unidos, combinação que historicamente comprime ativos de risco. No período recente, o índice DXY voltou a superar o nível de 100 pontos, enquanto os Treasuries de 10 anos permaneceram acima de 4,5%, reduzindo o apetite por criptoativos.
Desconto atinge níveis extremos
Segundo a Glassnode, o mercado entrou em uma zona de desconto profundo em relação à média cíclica. O indicador AVIV z-score atingiu -1,09 no momento mais agudo da queda e segue próximo de -1,06, patamar associado a fases de estresse elevado.
O AVIV (Active Investor Value) compara o preço atual do Bitcoin com uma referência chamada True Market Mean, que representa o custo médio dos investidores ativos (excluindo efeitos como moedas paradas ou mineração).
“Os dados mostram que o Bitcoin está negociando em um nível historicamente barato em relação à base de custo dos investidores ativos, mas sem reação consistente de compra até agora“, destaca a casa.
A ausência de recuperação expressiva, mesmo diante desse desconto, reforça a leitura de que o sentimento permanece fragilizado e que o mercado ainda não encontrou um piso claro. A dinâmica sugere um ambiente dominado por cautela, com participantes evitando assumir novas posições relevantes.
Investidores recentes acumulam perdas
Outro ponto de pressão relevante está concentrado nos investidores mais recentes. De acordo com a Glassnode, mais de 95% da oferta em mãos de detentores de curto prazo está atualmente no prejuízo, com apenas 3,3% desse grupo em lucro, contra média histórica de 55%. Isso implica que a maior parte das compras realizadas entre US$ 78 mil e US$ 82 mil permanece submersa.
Esse cenário é reforçado por métricas de realização de perdas, que mostram intensificação do movimento de capitulação. O indicador STH-SOPR chegou a um z-score de -1,86, próximo do nível tradicionalmente associado a momentos de exaustão vendedora.
“Embora a realização de perdas já seja significativa, ainda não atingiu níveis extremos historicamente ligados a repiques mais duradouros”, aponta a análise.
Demanda enfraquece e fluxo segue defensivo
Além da deterioração on-chain, o ambiente é agravado pelo enfraquecimento da demanda institucional. O chamado Coinbase Premium permanece em território negativo, sinalizando ausência de compras agressivas por parte de investidores norte-americanos, enquanto fluxos de tesourarias corporativas desaceleraram de forma acentuada desde junho.
No mercado de derivativos, a postura segue defensiva. A volatilidade implícita subiu de forma expressiva após a quebra de suportes, enquanto o skew — indicador de demanda por proteção — disparou, mostrando forte procura por opções de venda. Ao mesmo tempo, a maior concentração de gamma negativa está próxima de US$ 65 mil, nível que tende a amplificar movimentos de preço ao redor do patamar atual.
Combinados, os indicadores sugerem que o Bitcoin avança em uma fase típica de capitulação, mas ainda sem sinais claros de formação de fundo estrutural. Apesar do alívio no excesso de alavancagem após liquidações forçadas, a ausência de nova demanda relevante indica que o mercado pode permanecer volátil e vulnerável a novas quedas no curto prazo.
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