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Invasão chinesa: BYD, GAC e Leapmotor usam o futebol para vencer a desconfiança do brasileiro

Invasão chinesa: BYD, GAC e Leapmotor usam o futebol para vencer a desconfiança do brasileiro

Com fatia asiática perto de 15% no Brasil, BYD, GAC e Leapmotor disputam vitrine entre Corinthians, Bahia, Flamengo e Palmeiras por visibilidade e confiança

Em poucas semanas, quatro grandes clubes do futebol brasileiro passaram a estampar marcas de montadoras chinesas em seus uniformes.

O Corinthians fechou com a BYD em fevereiro deste ano, com contrato vigente até dezembro. Já o Bahia anunciou a parceria com a mesma montadora em março.

O Flamengo oficializou no fim do primeiro trimestre o patrocínio da GAC por R$ 12,5 milhões anuais até 2029.

E o Palmeiras fechou com a Leapmotor por R$ 20 milhões fixos por temporada, com gatilhos variáveis que podem levar o total a R$ 50 milhões, em contrato até março de 2028.

A movimentação atual do mercado não é uma coincidência. As marcas chinesas, que ocupavam menos de 1% do mercado brasileiro em 2019, fecharam 2025 acima de 9% e chegaram a 14,8% de market share em março de 2026, segundo dados do setor automotivo.

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O salto é uma tentativa das fabricantes asiáticas de contornar as barreiras tarifárias dos Estados Unidos e da Europa, e o Brasil se tornou um dos principais alvos da expansão.

Com a entrada acelerada, o futebol apareceu como atalho para construir confiança junto a um consumidor que ainda olha com cautela para a rede de concessionárias, o pós-venda e o valor de revenda das marcas estreantes.

Onda chinesa nos clubes

O setor automotivo havia abandonado os gramados nacionais. A Chevrolet deixou o naming rights do Brasileirão em 2017 e a Fiat encerrou suas parcerias com clubes mineiros em 2019.

A retomada acontece agora pelas asiáticas, em um momento em que os clubes brasileiros buscam diversificar receitas e reduzir a dependência das casas de apostas, que viraram a maior fonte de patrocínio do futebol nacional na última década.

Além disso, o mercado automotivo brasileiro está vivendo uma nova era, com a expansão dos veículos elétricos. Em 2025, o Brasil emplacou 223,91 mil veículos eletrificados, uma alta de 26% sobre 2024, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).

A projeção para 2026 supera 280 mil novas unidades, com frota total estimada em 670 mil veículos.

A BYD lidera o segmento com folga, ao emplacar 112,81 mil unidades em 2025 e ocupar a oitava posição no ranking geral das montadoras no Brasil. O Dolphin Mini, produzido em Camaçari, é o elétrico mais vendido do país.

Leapmotor valoriza gestão profissional e alcance do Palmeiras

Divulgação Leapmotor

Em entrevista exclusiva ao EuQueroInvestir, a Leapmotor destacou que escolheu o Palmeiras devido a sua gestão profissional e alcance nacional.

Felipe Daemon, head da marca para a América do Sul, afirma que a parceria une duas operações que entendem a construção de marca como um processo de longo prazo.

“O Palmeiras é um dos principais clubes do Brasil, com uma gestão profissional séria e de alta performance, que se reflete também nos resultados no campo. Esses atributos foram essenciais para fecharmos a parceria”, diz Daemon.

O contrato vai até março de 2028 e prevê a marca nas costas do uniforme masculino, feminino e da base. Com o acordo, o uniforme palmeirense ultrapassa R$ 300 milhões anuais em receitas, segundo levantamentos de marketing esportivo.

Para a Leapmotor, o movimento ocorre em paralelo à ampliação da rede no país e à confirmação da produção local dos SUVs B10 e C10 a partir de 2027, em fábrica da Stellantis.

Stellantis pesa na conta

Apesar de o termo invasão chinesa ser adotado nesta reportagem, ele pode se mostrar parcialmente equivocado quando o assunto é a Leapmotor. A operação no Brasil é tocada pela Stellantis, líder do mercado nacional, que injetou capital na montadora de Hangzhou em 2023 e criou uma joint venture chamada Leapmotor International em 2024 para explorar mercados fora da China.

A rede começou no país com 36 lojas em 29 cidades, número que se compara à estrutura de marcas asiáticas instaladas há mais tempo no Brasil.

“A parceria ocorre no mesmo momento em que anunciamos a ampliação de nossa rede, aumento da nossa gama, confirmação da produção local dos SUV B10 e C10 e o desenvolvimento da inédita tecnologia REEV Flex. Tudo isso ocorreu ao mesmo tempo para demonstrar a confiança que a Leapmotor e Stellantis têm no Brasil, com planos de longo prazo”, afirma Daemon.

O peso da Stellantis na operação é confirmado pelo presidente da companhia na América do Sul, Herlander Zola, que apontou o salto do market share chinês de menos de 1% em 2019 para mais de 10% em 2025. Para o executivo, a parceria com a Leapmotor é parte da estratégia da Stellantis para manter participação em um mercado em que diversas fabricantes asiáticas estrearam nos últimos meses.

GAC mira o Flamengo

Divulgação GAC

Já a GAC seguiu uma rota diferente. Em vez de associar a marca à gestão financeira do clube, mirou o tamanho da torcida.

O contrato com o Flamengo prevê R$ 12,5 milhões anuais por três temporadas, com a marca exibida nos calções dos uniformes de jogo, nas camisas de treino e pré-jogo, no ônibus oficial do time profissional e no backdrop de coletivas. Com o acordo, o rubro-negro ultrapassa R$ 450 milhões anuais em patrocínios, atrás apenas da master Betano, que paga R$ 268,5 milhões.

Luis Fernando Guidorzi, diretor de Comunicação e Marketing da GAC no Brasil, em entrevista exclusiva ao EuQueroInvestir, justifica a escolha pela combinação de torcida e exposição internacional.

A montadora chegou ao país em meados de 2025 com cinco modelos e emplacou 3,63 mil unidades em seis meses, número que coloca a marca acima de algumas concorrentes que estão no Brasil há mais tempo.

“Ter escolhido o Flamengo foi uma decisão que levou em consideração, além da grandiosa estrutura que ele oferece, o fato de ser o maior clube do país. Essa parceria mostra que chegamos no Brasil para ficar e nada melhor do que nos conectarmos com público brasileiro de maneira relevante, emocional e consistente, em uma temporada de grande projeção nacional e internacional para o clube rubro-negro”, afirma Guidorzi.

Aposta além do esporte

A GAC trata o esporte como uma das frentes de uma estratégia maior. A marca também patrocinou a Turnê Tempo Rei, do cantor Gilberto Gil, em movimento paralelo ao do Flamengo, e estuda novas parcerias com cultura e música. O foco em construir percepção em vez de buscar volume rápido aparece também na decisão de produzir localmente.

A montadora fechou parceria com a HPE Automotores para fabricar veículos em Catalão, em Goiás, na mesma estrutura que opera a Mitsubishi e a Suzuki no Brasil. O SUV compacto GS3, lançado em 2026 com preço de R$ 129.990,00, deve sair da fábrica goiana a partir de 2027.

“A parceria com a HPE, recentemente anunciada, para a produção local só reforça a importância do Brasil para a matriz e nosso compromisso de longo prazo com o mercado nacional. Não estamos no Brasil apenas para vender carros. Estamos fortemente comprometidos com o desenvolvimento socioeconômico e ambiental do Brasil, além da modernização e da competitividade da indústria automotiva nacional”, afirma Guidorzi.

A leitura do executivo difere da de algumas concorrentes que apostam em volume e preço agressivo. A GAC opera com posicionamento mais sofisticado, segundo análises de consultorias como a K.Lume, e parece mirar 2027 como ano de consolidação no Brasil.

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Marca chinesa virou virtude

A percepção do consumidor brasileiro sobre os carros chineses mudou nos últimos anos, e a frase mais incisiva sobre o assunto vem da Leapmotor.

“Sem dúvidas. Ser chamada de marca chinesa deixou de ser um fator detrator há muitos anos e agora se tornou uma virtude. A Leapmotor chegou ao Brasil com muita inovação e tecnologia, complementando a oferta de modelos comercializados na região pela Stellantis”, diz Daemon.

A GAC reforça a mesma leitura, com argumento ancorado na própria eletrificação. Para Guidorzi, a rápida disseminação dos modelos eletrificados no mercado brasileiro, segmento em que as marcas chinesas se destacam, acelerou a mudança de percepção.

“O brasileiro está muito mais propício a consumir os carros chineses”, afirma o executivo. A leitura é confirmada por consultorias como a Bright Consulting, que projeta participação chinesa de 18% no mercado nacional até 2030, contra os 9,5% medidos em 2025.

BYD preferiu não se posicionar

Divulgação BYD

Mesmo sendo a líder do mercado de carros elétricos em volume, o posicionamento mais aprofundado da BYD ficou de fora.

A reportagem procurou a montadora por e-mail e por contato direto com a assessoria de imprensa para apurar as motivações por trás dos patrocínios ao Corinthians e ao Bahia.

A resposta foi de que a empresa não tem posicionamento sobre o tema e que informações seriam divulgadas em momento oportuno. Ao ser questionada sobre o acordo já oficializado com o Corinthians, a BYD informou que não divulgaria release sobre o patrocínio paulista e limitou-se a enviar a nota oficial referente ao Bahia.

O comunicado destaca a conexão geográfica entre a marca e o clube baiano, ancorada na fábrica de Camaçari, e replica trecho do vice-presidente sênior da BYD do Brasil, Alexandre Baldy.

“A BYD é uma empresa que constrói sua história no Brasil há mais de 12 anos, então entende muito sobre os brasileiros e suas paixões além dos automóveis, principalmente no futebol. Desde 2023 fincamos morada na Bahia e fomos tão bem acolhidos que queremos retribuir essa boa recepção. Patrocinar o Esporte Clube Bahia foi um movimento natural”, diz Baldy no comunicado.

A aposta de BYD, GAC e Leapmotor no futebol brasileiro mostra que a disputa pelo consumidor não se resolve apenas com preço ou tecnologia. Em um mercado em que a marca chinesa ainda precisa vencer a barreira da percepção, a camisa do clube de massa aparece como o atalho mais visível para converter penetração em confiança.