O mercado de minério de ferro enfrenta uma combinação cada vez mais desafiadora no Brasil. Segundo análise do BTG Pactual, a forte alta do frete marítimo, somada aos preços da commodity abaixo de US$ 100 por tonelada e aos descontos por qualidade, está comprimindo as margens dos produtores brasileiros, principalmente daqueles com custos mais elevados e maior exposição ao mercado à vista de transporte.
O minério de ferro está sendo negociado na faixa de US$ 96 a US$ 98 por tonelada, enquanto o custo de transporte entre Brasil e China chegou a aproximadamente US$ 42 por tonelada. De acordo com o banco, esse valor representa sozinho perto de 40% do preço de referência da commodity, tornando algumas operações de exportação economicamente pouco atrativas.
Frete marítimo amplia desvantagem do Brasil
O frete marítimo entre Brasil e China avançou cerca de US$ 25 por tonelada desde o agravamento do conflito no Irã, segundo o BTG Pactual. No início do ano, as tarifas estavam próximas de US$ 22 a US$ 23 por tonelada. O banco atribui a escalada principalmente ao aumento dos custos de combustível marítimo e à menor disponibilidade de embarcações.
A distância dos portos brasileiros em relação à China já colocava os produtores brasileiros em posição menos favorável na comparação com concorrentes australianos. Com o frete próximo de US$ 42 por tonelada, porém, essa diferença atingiu um nível considerado extremo pelo banco.
O gráfico apresentado pelo BTG na página 2 do relatório ajuda a dimensionar essa diferença. Enquanto o trecho Tubarão-Qingdao, entre Brasil e China, aparece próximo de US$ 42 por tonelada, a rota Dampier-Qingdao, partindo da Austrália, está ao redor de US$ 19 por tonelada. Na avaliação do BTG Pactual, produtores que dependem de frete spot e comercializam minério de menor qualidade estão entre os mais vulneráveis.
Usiminas e Itaminas já sinalizam ajuste da oferta
Os primeiros sinais concretos de reação da oferta já começaram a aparecer. A Usiminas suspendeu recentemente as operações da planta de Samambaia, em Minas Gerais, citando preços mais baixos do minério de ferro e o aumento do custo do transporte marítimo. Segundo o relatório, a unidade representa aproximadamente 30% a 35% da capacidade de mineração da companhia, estimada em cerca de 9 milhões de toneladas anuais.
A Itaminas também adotou medidas diante do cenário adverso. A mineradora anunciou férias coletivas para cerca de 300 funcionários e pretende interromper temporariamente a produção em outubro, após acumular estoques equivalentes a aproximadamente um mês de produção.
Para o BTG Pactual, essas decisões podem não ser episódios isolados caso as condições atuais persistam. A instituição avalia que a combinação entre minério abaixo de US$ 100 por tonelada, descontos relacionados à qualidade e frete marítimo elevado pode levar outros produtores brasileiros de maior custo a reduzir ou suspender operações.
Até 40 milhões de toneladas podem estar em risco
Em uma estimativa preliminar, o BTG calcula que entre 30 milhões e 40 milhões de toneladas anuais de produção brasileira de maior custo podem estar sob risco de interrupção caso os parâmetros atuais sejam mantidos. O volume corresponderia a aproximadamente 2% a 3% do mercado transoceânico de minério de ferro, tornando uma eventual retirada dessa oferta relevante para o equilíbrio global da commodity.
A avaliação do banco é que alguma variável precisará mudar para que essa parcela da produção permaneça competitiva. Uma possibilidade seria uma normalização significativa do frete marítimo. A outra seria uma recuperação do preço do minério de ferro, capaz de compensar os custos adicionais enfrentados pelos produtores.
Se as tarifas de transporte continuarem elevadas, o BTG Pactual considera que novos cortes de produção podem acabar dando suporte às cotações internacionais. Nesse cenário, o banco vê possibilidade de o minério de ferro retornar para pelo menos a faixa de US$ 105 a US$ 110 por tonelada.
Vale está mais protegida, enquanto CSN e Usiminas sentem maior pressão
Entre as companhias acompanhadas pelo banco, a Usiminas aparece como uma das mais expostas, com a própria paralisação de Samambaia servindo como evidência da deterioração da economia de sua operação de mineração. A CSN também é apontada como vulnerável devido à dependência relevante do mercado spot de frete. Caso as tarifas permaneçam próximas dos patamares atuais, o BTG espera pressão sobre os valores líquidos realizados e sobre as margens da mineração.
A Vale, por outro lado, está em posição considerada mais favorável. Segundo a análise, a companhia conta com maior proteção contra oscilações do frete marítimo, além de vantagens relacionadas à escala de suas operações. Por isso, teria conseguido atravessar melhor o choque recente nos custos de transporte.
Para o BTG Pactual, portanto, o momento permanece negativo principalmente para os produtores brasileiros marginais e de maior custo. Ao mesmo tempo, a redução da oferta provocada por essas dificuldades pode funcionar como um mecanismo de ajuste do mercado e, no médio prazo, oferecer sustentação aos preços do minério de ferro.






