O dólar digital vem ganhando espaço como porta de entrada para o mercado de criptoativos. Em 2026, 11,6% dos clientes que fizeram sua primeira compra de criptomoedas no Mercado Bitcoin (MB) começaram por stablecoins atreladas ao dólar, como USDT e USDC. A proporção equivale a cerca de um em cada nove novos investidores e mais que triplicou em relação a 2024, quando era de 3,6%.
Os dados também mostram que esse investidor chega com valores maiores: o aporte inicial de quem começa pelo dólar digital chega a ser 4,5 vezes superior à média daqueles que entram pelo bitcoin.
“Os dados mostram uma mudança interessante no perfil de entrada no mercado de ativos digitais. O bitcoin continua sendo, de longe, o principal primeiro ativo, mas o dólar digital começa a ocupar um espaço relevante entre quem está chegando agora. Ao mesmo tempo, vemos que boa parte de quem coloca esses ativos para render permanece alocada por vários meses, o que indica um uso diferente daquele associado à negociação de curto prazo”, afirma Giresse Contini, diretor do Mercado Bitcoin.
Além da entrada de novos investidores, os dados indicam uma permanência mais longa nesses ativos. Entre os clientes que aderiram à Renda Passiva em dólar digital em julho de 2025, 57% ainda mantinham saldo alocado 13 meses depois. Em 12 meses, o número de clientes com USDT nessa modalidade cresceu 98%, enquanto a base em USDC avançou 75%.
Stablecoin não é o mesmo que dólar em conta
Apesar da paridade buscada com a moeda americana, uma stablecoin não equivale a um depósito bancário em dólar. O token é emitido por uma empresa privada, responsável por manter reservas capazes de sustentar sua conversão.
Por isso, além da variação do dólar em relação ao real, o comprador está exposto a riscos relacionados ao emissor, à composição das reservas, à custódia, à plataforma utilizada e à possibilidade de a stablecoin perder temporariamente a paridade com a moeda americana.
Já o dinheiro mantido em uma conta internacional pode ser utilizado diretamente em transferências, compras com cartão, pagamentos e investimentos, conforme os serviços oferecidos pela instituição. A stablecoin acrescenta vantagens tecnológicas, como negociação contínua e liquidação mais rápida, mas não reproduz necessariamente todas as funções nem as proteções de uma conta bancária.
O crescimento acelerado também não significa que esses ativos já tenham alcançado uma adoção ampla. Em análise publicada em agosto, o ING destacou que as stablecoins representam aproximadamente 7% da capitalização total do mercado de criptomoedas e ainda possuem participação limitada no universo global de pagamentos.
As projeções para os próximos anos também apresentam grande dispersão. As estimativas citadas pelo banco apontam que a capitalização das stablecoins pode alcançar entre US$ 900 bilhões e US$ 4,2 trilhões até 2030. Segundo o ING, a distância entre os números evidencia a dificuldade de prever se esses ativos conseguirão avançar para além do ecossistema cripto.
Na avaliação do banco neerlandês, uma adoção mais ampla dependerá da existência de regras claras, da integração com os sistemas de pagamentos e da capacidade de competir com alternativas como depósitos bancários tokenizados e moedas digitais emitidas por bancos centrais. Esses instrumentos também podem oferecer transações rápidas e disponibilidade contínua, mas com vínculos diretos com bancos regulados ou autoridades monetárias.
O ING alerta ainda que uma expansão expressiva pode produzir efeitos sobre o sistema financeiro. Nos mercados emergentes, a facilidade para converter moedas locais em stablecoins de dólar pode ampliar movimentos de saída de recursos durante períodos de estresse, pressionar o câmbio e reduzir a capacidade de transmissão da política monetária.
A regulamentação também está avançando. O Banco Central incluiu determinadas operações com ativos virtuais no mercado de câmbio e estabeleceu regras para as empresas prestadoras desses serviços. A mudança busca ampliar a transparência sobre transferências internacionais e reduzir as diferenças regulatórias entre o mercado tradicional e o universo cripto.
Visão de mercado
Para Fernando Cesário, diretor de Banking da Avenue, porém, a tendência não deve provocar a substituição imediata de uma alternativa pela outra. A expectativa é que dólares tradicionais e suas representações digitais sejam utilizados de acordo com a finalidade de cada operação.
“Não enxergamos isso como uma questão de substituição, mas de coexistência. Os ativos digitais e as moedas tradicionais devem conviver, dependendo da jornada e do caso de uso. No futuro, veremos as stablecoins participando de forma mais intensa das transações da economia”, afirmou.
Para o investidor, a comparação também não deve considerar apenas a cotação oferecida no momento da compra. Spread, tributação, taxas de transferência, possibilidade de uso, segurança da custódia e qualidade das reservas da stablecoin são fatores que podem alterar o custo e o risco da operação.





