O fundo do bitcoin segue em construção, mas o caráter do mercado começou a mudar. É o diagnóstico da Glassnode em seu relatório semanal, batizado de “Green Shoots” (brotos verdes), que destaca a reação da criptomoeda ao dado fraco de inflação americana desta semana: o ativo subiu mais do que qualquer grande índice de ações — sua melhor resposta a uma boa notícia em semanas.
“Um mercado tão ansioso para subir com um único dado de inflação é um mercado em que os vendedores se esgotaram e os compradores esperam por um motivo“, escreveram os analistas Frederik Theissen e Chris Beamish.
Menos bolsa, mais dólar
A pressão sobre o bitcoin neste trimestre veio dos juros reais — os rendimentos reais dos títulos americanos de 10 anos atingiram a máxima do ano, perto de 2,4% —, e não de aversão a risco, já que as bolsas rondam as máximas e a volatilidade segue contida.
Nesse ambiente, a correlação da criptomoeda com as ações vem diminuindo desde o inverno, enquanto o vínculo inverso com o dólar se aprofunda.
“O bitcoin negocia menos como um substituto de ações e mais como um ativo que se fortalece quando o dólar enfraquece“, avaliaram os analistas da Glassnode.
Capitulação dos veteranos perde força
No mercado on-chain, a principal mudança está na rendição dos detentores de longo prazo, que foi a maior fonte de pressão vendedora do ano.
A métrica que mede as perdas realizadas diariamente por esse grupo fez pico há duas semanas e começou a cair — exatamente a condição que o relatório anterior apontava como pré-requisito para uma recuperação durável. A realização de lucros, que dominou o ciclo, praticamente secou.
“Pela primeira vez neste ciclo, a métrica que define o processo de formação de fundo está caindo em vez de subir. Os vendedores que fizeram este bear market estão, na margem, se esgotando”, apontaram Theissen e Beamish.
Do outro lado do balcão, os compradores apareceram: os indicadores de acumulação mostram uma onda ampla de compras nas mínimas de junho, espalhada entre carteiras pequenas e grandes. As moedas vendidas no fundo encontraram dono — e a força desses compradores no próximo movimento decidirá se a base se sustenta.
O preço, por ora, negocia entre o piso e o teto do mapa de custos: acima do preço realizado, a média paga por todas as moedas em circulação, e abaixo da base de custo dos detentores de curto prazo, perto de US$ 69 mil, que marca o ponto de equilíbrio de quem comprou nos últimos cinco meses.
“O primeiro encontro com esse nível provavelmente vai provocar uma reação forte, porque as pessoas mais inclinadas a vender são justamente as que estão prestes a recuperar o que investiram”, ponderaram os analistas.
A peça que falta
Fora da blockchain, o sangramento dos ETFs à vista americanos diminuiu bastante desde o extremo de junho, embora uma única sessão desta semana tenha registrado a maior saída diária em semanas antes de uma recuperação parcial no dia seguinte.
“As instituições pararam de fugir, mas ainda não começaram a comprar”, resumiram Theissen e Beamish.
Nos derivativos, o desmonte das apostas pessimistas avança: a relação entre opções de venda e de compra caiu à mínima do ano, o prêmio pago por proteção contra quedas segue murchando e o índice de volatilidade do bitcoin roda perto do menor nível em 12 meses — uma compressão que, historicamente, antecede movimentos decisivos.
“O reposicionamento dos traders de futuros e opções não é o mesmo que dinheiro entrando no mercado à vista, e essa ausência é a ressalva mais clara de toda a recuperação”, concluíram os analistas da Glassnode.






