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Jorge Paulo Lemann é o mais rico do Brasil

Jorge Paulo Lemann é o mais rico do Brasil

Pedro Virla

Pedro Virla

02 Set 2022 às 14:14 · Última atualização: 29 Set 2022 · 15 min leitura

Pedro Virla

02 Set 2022 às 14:14 · 15 min leitura
Última atualização: 29 Set 2022

Jorge Paulo Lemann

Jorge Paulo Lemann/ Divulgação

“Ter sonhos pequenos dá o mesmo trabalho de ter sonhos grandes”, é o que costuma dizer Jorge Paulo Lemann. Foi sonhando grande, e mirando alto que ele se tornou o homem mais rico do Brasil.

De acordo com a lista de bilionários da Forbes, divulgada nesta sexta-feira (2), o investidor tem patrimônio de US$ 13,7 bilhões. Ele é também o número 133 no ranking dos mais ricos do mundo.

Lemann não é extravagante, preza pela simplicidade, e sempre se considerou uma pessoa de bom senso e raciocínio simples. Sua trajetória de vida passa pelo surf nas praias do Rio de Janeiro, pelas quadras de tênis na Europa, por bancos de investimento e pela aquisição de empresas, que viraram gigantes globais.

Foi comprando companhias em dificuldade, e dando um choque de gestão, sempre utilizando a cultura da meritocracia, que Lemann virou um dos homens mais ricos do mundo, formando os melhores líderes e os tornando sócios de seus negócios.

Quem é Jorge Paulo Lemann?

Jorge Paulo Lemann nasceu no Rio de Janeiro, em 26 de agosto de 1939, filho de pais suíços. Seu pai mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fundou a fábrica de laticínios Leco, abreviatura de Lemann & Company. Sua mãe, Anna Yvette, era filha de um casal de suíços.

Crescendo sem muitos luxos, apesar de ser de família rica, Lemann sempre se dedicou ao esporte e aos estudos. Chegou a ser surfista, onde aprendeu uma grande lição, mas foi no tênis em que ele mais se destacou.

Aos sete anos, no Country Club do Rio, começou a praticar mais o esporte. Sempre muito competitivo, ganhou vários campeonatos chegando a ser campeão brasileiro juvenil.

Praticando surfe Lemann teve seu primeiro aprendizado. Ao entrar no mar com seus amigos em um dia de maré alta, escapou por pouco de ser engolido por uma onda muito maior do que estava habituado.

Tomou o evento como lição, dizendo ser importante tomar risco, mas quando se está preparado para isso. “Ao longo da minha vida, eu me lembrei mais da onda de Copacabana do que daquilo que aprendi na faculdade.”

Concluiu o ensino médio na Escola Americana do Rio de Janeiro, devido ao inglês fluente e influência do primo, aos 17 anos, formou-se em economia na Harvard em 1961.

Carreira profissional de Jorge Paulo Lemann

Aos 20 anos, já formado, após uma experiência na Deltec, empresa que negociava ações no mercado latino-americano. Lá, seu primeiro chefe foi Roberto Teixeira da Costa, que, em 1976, seria o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Com sua dupla cidadania, decidiu mudar-se para a Suíça, onde conseguiu uma vaga no banco Credit Suisse para estagiar na expectativa de aprender com os melhores do mercado.

Após sete meses no banco, se decepcionou com a burocracia, hierarquia e os processos lentos e engessados. Saiu do banco para se dedicar profissionalmente ao tênis. Chegou a disputar os torneios de Wimbledon e Roland Garros, mas depois de um ano e meio abandonou as quadras. “Pelo tanto que joguei, percebi que dificilmente estaria entre os 10 melhores do mundo. Resolvi parar, já que eu não seria um astro”.

O início de Lemann no mercado financeiro

Lemann voltou ao Rio de Janeiro, em 1963, para trabalhar no mercado financeiro. Aos 24 anos, foi contratado pela Invesco, uma empresa de concessão de crédito.

Chegou a adquirir 2% da empresa, mas a Invesco quebrou três anos depois, por má administração.

No ano seguinte, em 1967, trabalhou na corretora Libra, já com uma participação de 13%. Ele tocava a área de mercado de capitais. Passados três anos, vendeu a sua parte e deixou a empresa, o que lhe rendeu US$ 200 mil.

Em sociedade com colegas que tinham também deixado a Libra, comprou a corretora Garantia — que seria o banco de investimentos mais poderoso do país.

Sua cultura de meritocracia foi aplicada no Garantia, onde também deu-se o início de uma grande amizade com Marcel Herrmann Telles, contratado para trabalhar como liquidante e Carlos Alberto Sicupira, que conheceu Lemann praticando pesca submarina e começou a trabalhar na corretora.

O banco J.P. Morgan tentou comprar o Garantia em 1976, mas, com bastante jogo de cintura, Lemann dificultou o negócio enquanto entrava no ramo de bancos de investimento.

A cultura da meritocracia

Jorge Paulo Lemann foi pioneiro ao instaurar a cultura da meritocracia, uma revolução na época. Escritórios integrados e abertos, fim das regalias e corte nos altos salários fizeram com que a hierarquia e o elitismo fossem desaparecendo da cultura empresarial.

Em seu lugar, no lugar de grandes bônus anuais, Lemann oferecia aos melhores funcionários a oportunidade de comprar ações com seu bônus. Um modelo totalmente focado na meritocracia e no talento.

O corte nos custos também foi feito de forma inédita. Devido ao foco em produtividade, a margem de lucros foi aumentando de maneira gradativa.

No livro “Sonho Grande”, a escritora Cristiane Correa explica que conseguir uma vaga de emprego para trabalhar no Garantia era uma tarefa difícil e que somente os mais ambiciosos obtinham sucesso.

Enquanto o recrutamento sempre foi uma missão do departamento de recursos humanos, no Banco Garantia, Jorge Paulo Lemann sempre fez questão de que as entrevistas com os candidatos fossem feitas pelos líderes da empresa.

Geralmente, as entrevistas eram feitas em painéis com 8 a 10 sócios, que realizavam perguntas inapropriadas para pegar os candidatos desprevenidos. O foco era sempre em contratar funcionários que poderiam se tornar sócios.

No Garantia, era comum Jorge Paulo Lemann procurar pelos PSDs: poor, smart and deep desire do get rich (pobre, inteligente e com grande desejo de ficar rico). Seu melhor e maior exemplo de candidato PSD foi Sicupira, que entrou no banco aos 17 anos e fez carreira ao lado do empresário.

A ideia de copiar modelos de negócio bem sucedidos sempre foi uma característica comum de Lemann e seus sócios. Seu ex-sócio, Luiz Cezar Fernandes, chegou a ser enviado ao Goldman Sachs para um estágio, buscando aprender como o banco de investimentos funcionava.

Após a aquisição da rede Lojas Americanas, Beto Sicupira chegou a enviar cartas aos CEOs das melhores companhias do mundo, sempre buscando conseguir uma visita.

Após um convite pessoal de Sam Walton, dono do Walmart, Jorge Paulo Lemann e Sicupira viajaram até Oklahoma para conhecer toda a estrutura por trás da gigante multinacional. E claro, as lições aprendidas foram utilizadas para recuperar a varejista que haviam comprado.

Estratégia de investimentos de Jorge Paulo Lemann

Em 1999, após a venda do Garantia, Lemann e seus sócios criaram a Ambev, um conglomerado de cervejarias que começou com a aquisição da Brahma em 1989.

A AmBev foi um ponto de inflexão da carreira de Lemann, não somente pelas aquisições que viriam adiante, mas também por ser ter sido o momento em que a filosofia de trabalho e o estilo de liderança foram implementados de maneira inédita no Brasil.

Em 2004 a AmBev realizou uma fusão com a belga InterBrew, em um negócio de 11 bilhões de dólares, para se tornar a Ambev IB. Outra fusão notável foi realizada com a Anheuser-Bush, tornando a Anheuser-Busch InBev a maior empresa de cervejaria do mundo.

Responsável por um quarto do market share mundial, a empresa é dona de marcas globais como Budweiser, Corona, Stella Artois, Beck’s, Hoegaarden, Leffe e outras marcas líderes regionais.

Ainda em 1999, o Grupo 3G Capital foi criado. O que torna o 3G diferente de outros fundos é a maneira com que ele levanta receita para grandes aquisições. Enquanto algumas organizações realizam investimentos com muitos participantes, Jorge Paulo Lemann sempre realizou negócios com um grupo pequeno de famílias ricas. 

Ao abordar a elite nos Estados Unidos, Europa e América Latina, Lemann sempre julgou estar em melhor posição para manter os negócios em segredo. Além disso, apesar de ser pouco conhecido no mundo, Lemann é conhecido pela elite financeira por sua capacidade de ganhar dinheiro.

Dentre os investidores do Grupo 3G estão a família Santo Domingo, da Colômbia, e a família Reimann, da Alemanha. Seu amigo e lenda do tênis, Roger Federer, e o gestor de fundos William Ackman também fazem parte do time.

A aquisição da Heinz em 2013 aconteceu após Lemann e Buffett se encontrarem e unirem as forças do grupo 3G e da Berkshire Hathaway na quarta maior aquisição da história de empresas alimentícias.

Buffett fala muito bem de Jorge Paulo Lemann, prova de sua confiança é que o Grupo 3G realiza a operação da Heinz ainda que Buffett seja acionista majoritário da companhia. “Eu sempre gostei dele, e quanto mais trabalhamos juntos, mais eu gosto” disse Buffet sobre Lemann ao The Wall Street Journal.

A filosofia de Jorge Paulo Lemann no Burger King

Em uma aquisição por 3,3 bilhões de dólares da famosa rede de hamburguerias Burger King, mais uma vez a filosofia de Lemann e seus sócios foi aplicada. Bernardo Hess foi colocado no cargo de CEO da rede e logo implementou o jeito de operar do Garantia no Burger King.

O novo CEO em um curto espaço de tempo demitiu 600 funcionários do administrativo e preencheu a vaga de 11 seniores pelos membros que mais performavam na equipe.

Mais uma vez, no modo Garantia, todas as paredes foram derrubadas e se criou um plano único de trabalho em prol da comunicação, o corte de gastos foi implementado e até mesmo as copiadoras coloridas foram banidas.

De onde vem a fortuna de Jorge Paulo Lemann?

Grande parte da fortuna de Lemann é derivada de 10% das ações do grupo Anheuser-Busch InBev, a maior fabricante de cervejas do mundo.

Junto a seus sócios, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Herrmann Telles, Lemann controla a 3G capital. Sua participação no grupo é estimada em 45%, o equivalente às participações de Sicupira e Telles juntos.

Na sociedade com Buffett, o Grupo 3G investiu 4,1 bilhões de dólares para a aquisição da Heinz por US$ 23 bilhões em 2013. Em 2015, após uma decisão entre o grupo e a Berskshire Hathaway, foram pagos 10 bilhões de dólares ao grupo Kraft Foods para uma fusão, criando o 4º maior conglomerado alimentício do mundo.

Jorge Paulo Lemann: o início da construção do império 3G Capital

Em 1983, o Garantia adquiriu as Lojas Americanas e se tornou o primeiro banco a comprar uma empresa de outro setor para atuar diretamente em sua gestão. Quem tocou o negócio foi Beto Sicupira. Em um semestre, as Lojas Americanas já valiam mais do que seu valor de aquisição.

Em 1989 foi a vez do Garantia comprar a Brahma por US$ 60 milhões, sendo que desta vez o encarregado de tocar o negócio foi Marcel Telles com meta de corte nas despesas em 10%. O trio — Lemann, Sicupira e Telles — sempre se inspirou nos grandes, como o banco Goldman Sachs e o Walmart. 

Assim como Beto havia feito nas Lojas Americanas, Marcel mudou toda a estrutura da empresa, demitiu funcionários e criando uma política de distribuição de bônus, visando ter os melhores profissionais em sua equipe.

Sob a gestão de Lemann, em 1994, o Banco Garantia se tornou o banco mais poderoso do país. A época, 7% de todo o volume negociado na bolsa de valores passou pelo banco Garantia, gerando um lucro de quase US$ 1 bilhão. Por fim, em 1997, o Garantia foi vendido para o Credit Suisse por US$ 675 milhões em decorrência da crise financeira asiática.

Ambev, Inbev e AB InBev

Em 1999, com as contas da Brahma em dia, o trio — Lemann, Sicupira e Telles — arquitetou a compra da principal rival da Brahma, a Antárctica, dando origem à quinta maior fabricante de cervejas do mundo, American Beverage Company (Ambev).

Nos anos seguintes, a Ambev seguiu fazendo aquisições. Comprou a paraguaia Cerveceria Nacional, em 2001, e a argentina Quilmes, em 2002. Em 2004, a Ambev anunciou a fusão com a belga Interbrew, fabricante da Stella Artois, quando se tornou a líder do setor em volume, com receita anual de 12 bilhões de dólares, atuação em 140 países e 12% do mercado.

Por fim, a então InBev comprou a americana Anheuser-Busch, dona da marca Budweiser e fez sua última aquisição em 2015, com a compra da concorrente sul-africana SABMiller.

3G Capital

Lemann, Sicupira e Telles criaram, em 2004, a 3G Capital. A empresa foi fundada para investir em empresas fora do Brasil. Dentre as aquisições mais famosas, em 2010, o 3G comprou a rede Burger King por US$ 4 bilhões e três anos depois anunciou a compra da Heinz, em parceria com Warren Buffett.

Lemann também é investidor em outros dois fundos: o Innova Capital, que investe em startups e colocou dinheiro na Movile (dona do iFood, entre outros negócios), e o Gera Venture Capital, focado em educação.

O fracasso de Jorge Paulo Lemann com a Kraft Heinz

A criação de uma das maiores empresas alimentícias do mundo, com 28 bilhões de dólares em receitas com marcas no portfólio como Heinz, Kraft, Oscar Mayer e Planters Nuts se mostrou um grande erro.

Tanto para Jorge Paulo Lemann e o Grupo 3G como para Warren Buffett, a fusão se mostrou um raro fracasso. Enquanto aquisições anteriores se mostraram verdadeiros sucessos, a Kraft Heinz gerou bilhões em prejuízos. Muito do fracasso é creditado à filosofia de cortar custos ao invés de se criar novos produtos.

A filosofia do grupo se mostrou presente logo após a conclusão do acordo de fusão, com a demissão de 2.500 funcionários, o equivalente a 5% de toda a equipe ao redor do mundo. Por 1 ano, as ações subiram e o grupo ainda fez uma oferta de US$ 143 bilhões pela Unilever.

Mesmo com o aumento nas margens de lucro da empresa, alguns problemas começaram a surgir após a redução nas vendas. Parte do problema, segundo analistas, veio dos cortes em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos.

O interesse em produtos vegetarianos e veganos cresceu entre os consumidores, enquanto o grupo saiu de US$ 149 milhões de dólares para US$ 93 milhões de dólares em desenvolvimento de novos produtos entre 2014 e 2017.

Até mesmo Jorge Paulo Lemann admitiu o fracasso na Kraft Heinz, que teve queda de mais de 50% em suas ações. “Não dá mais para construir algo no ramo de alimentos como fizemos com a cerveja. Tentamos, não deu certo e vamos consertar”, prometeu em evento em 2019, após nomear Miguel Patricio, um executivo de longa data da AB Inbev, como diretor-presidente.

Filantropia

Desde 2012, Jorge Paulo Lemann vem dedicando um tempo maior aos seus projetos na área de educação. Ele tem duas grandes fundações filantrópicas: a Fundação Estudar e a Fundação Lemann.

A Estudar custeia bolsas de estudo para jovens fazerem graduação e pós-graduação no Brasil ou no exterior. Uma das bolsistas da Fundação Estudar foi a deputada Tábata Amaral, que estudou, assim como Lemann, em Harvard.  A Fundação Lemann, por sua vez, é focada em ajudar a melhorar a qualidade da educação pública no país.

Livro Sonho Grande

O livro “Sonho Grande” foi lançado em 2013 e conta a história de como Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira construíram o maior império do capitalismo brasileiro.

Na obra, a jornalista Cristiane Correa aborda a discrição dos sócios que sempre buscaram ficar longe dos holofotes, bem como a fórmula de gestão baseada em meritocracia, corte de custos e simplicidade.

De maneira detalhada, o livro conta os bastidores da trajetória dos “três mosqueteiros” em seus empreendimentos, abordando também a cultura implacável que nunca deixou espaço para desempenhos medíocres, enquanto remunerava de maneira excepcional os melhores funcionários.

Família Lemann

Jorge Paulo Lemann teve seis filhos, três do primeiro casamento e três do segundo. Todos seguiram caminhos diferentes.  Desde o início, os três sócios definiram que seus filhos e filhas não poderiam trabalhar nas empresas do Grupo. Como herdeiros, alguns deles participam de conselhos de administração. 

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