Todo banco central no mundo tem o papel de garantir a estabilidade financeira dos mercados onde atuam, como no Brasil, onde o Banco Central (BC) define as taxas básicas de juros, mais conhecida como taxa Selic; e, entre outras funções, realizar intervenções quando necessário. O mesmo se dá com o Federal Reserve (Fed), dos Estados Unidos, o Bank of England, da Inglaterra, entre outros. Mas você sabia que existe uma instituição que está por trás de todos os demais BCs? Trata-se do chamado “banco dos bancos centrais”, fundado ainda no período antes da Segunda Guerra Mundial e pouco após o crash da bolsa de Nova York. Aliás, o BC brasileiro é membro ativo dessa instituição desde 1997.
Criado em 1930, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) carrega o título de instituição financeira internacional mais antiga em funcionamento. Ao longo de quase um século, a entidade sediada em Basileia atravessou guerras, crises cambiais, choques do petróleo, colapsos bancários e transformações profundas no sistema financeiro global — sempre atuando nos bastidores como uma espécie de “banco dos bancos centrais”.
Originalmente concebido para administrar as indenizações impostas à Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, o BIS rapidamente ampliou sua atuação. Com o passar das décadas, tornou-se um espaço estratégico de cooperação entre autoridades monetárias, oferecendo suporte técnico, promovendo debates sobre política econômica e ajudando a coordenar respostas em momentos de turbulência. Em tempos de instabilidade, sua função de articulador discreto ganhou ainda mais relevância, especialmente na busca por estabilidade monetária e solidez do sistema financeiro internacional.
Em maio de 2020, a instituição celebrou 90 anos de existência — um marco que simboliza não apenas longevidade, mas também capacidade de adaptação a diferentes ordens econômicas globais. Para marcar esse percurso, foi lançado o livro “Promovendo a estabilidade monetária e financeira global: o Banco de Compensações Internacionais após Bretton Woods, 1973-2020”, publicado pela Cambridge University Press.
A obra analisa os últimos 50 anos de atuação do BIS, período iniciado após o colapso do sistema de Bretton Woods, quando o mundo abandonou o regime de câmbio fixo atrelado ao dólar. Desde então, a instituição esteve no centro das discussões sobre regulação bancária, supervisão financeira e coordenação internacional — temas que ganharam ainda mais peso após crises como a de 2008.
Mais do que um organismo técnico, o BIS consolidou-se como um fórum essencial para o diálogo entre bancos centrais. Em um cenário global cada vez mais interconectado, seu papel segue sendo o de antecipar riscos, fomentar cooperação e reforçar os pilares da estabilidade econômica mundial.
Breve histórico do BIS
Nos primeiros anos de funcionamento do BIS, as reuniões eram o coração da instituição. Entre elas, os encontros regulares do Conselho, realizados aos fins de semana, assumiam papel central. Era nesses momentos, longe dos holofotes e em meio a um ambiente reservado, que os governadores dos principais bancos centrais do mundo se reuniam para discutir os rumos da economia internacional.

Na década de 1930, o Conselho do BIS era formado por nomes de peso da política monetária global: participavam os governadores e seus suplentes do Banco Nacional da Bélgica, do Banco da França, do Reichsbank alemão, do Banco da Itália, do Banco dos Países Baixos, do Riksbank sueco, do Banco Nacional Suíço e do Banco da Inglaterra, além de representantes do Banco do Japão. Em um período marcado por instabilidade econômica e tensões geopolíticas, esses encontros funcionavam como um raro espaço de diálogo e coordenação entre autoridades monetárias.
Paralelamente às articulações diplomáticas, o BIS começou a estruturar uma base técnica própria. Sob a liderança de seu primeiro Conselheiro Econômico, o sueco Per Jacobsson, a instituição passou a investir de forma sistemática em pesquisa sobre bancos centrais e finanças internacionais. Com perfil dinâmico e visão estratégica, Jacobsson ajudou a consolidar a vocação do BIS como centro de análise econômica.
Foi também nesse período que a instituição iniciou a coleta regular de estatísticas financeiras e bancárias, iniciativa pioneira para a época. Os estudos produzidos passaram a integrar o Relatório Anual do Banco, publicação que rapidamente se transformou em referência para economistas, formuladores de políticas e autoridades monetárias ao redor do mundo.
Mais do que um fórum de encontros reservados, o BIS começava a se afirmar como um polo de produção de conhecimento — unindo articulação política e rigor técnico em um momento decisivo da história econômica global.
No fim da década de 1930, o avanço das tensões políticas e militares na Europa tornou cada vez mais difícil a cooperação internacional. Ainda assim, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) assumiu uma missão delicada: ajudar a transferir ouro de bancos centrais europeus para Nova York, em busca de segurança. Entre junho de 1938 e junho de 1940, mais de 140 toneladas foram transportadas em meio à escalada do conflito.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, representantes da Alemanha, França e Reino Unido deixaram de participar das reuniões do BIS. Mesmo assim, seus dirigentes decidiram manter a instituição ativa, apostando que ela seria essencial na reconstrução financeira do pós-guerra. As reuniões do Conselho foram suspensas durante o conflito, mas a estrutura do banco foi preservada.
Pós-guerra
Após 1945, investigações revelaram que o Reichsbank utilizou ouro saqueado de países ocupados para realizar pagamentos internacionais, inclusive ao próprio BIS. Parte desse metal, refundido para ocultar sua origem, incluía 3,7 toneladas recebidas pelo banco e posteriormente devolvidas, em 1948, à Comissão Tripartite Aliada responsável pela restituição do ouro monetário.
O futuro da instituição chegou a ser colocado em xeque na Conferência de Bretton Woods, em 1944, quando se propôs sua extinção após a criação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Bancos centrais europeus, porém, defenderam sua continuidade — e venceram. Em 1948, a proposta foi arquivada.
No pós-guerra, o BIS tornou-se peça-chave na reconstrução monetária da Europa. Atuou como agente técnico da União Europeia de Pagamentos, criada em 1950, que ajudou a restaurar a conversibilidade das moedas europeias até 1958, consolidando o sistema de Bretton Woods.
Nas décadas seguintes, a instituição esteve no centro da cooperação monetária internacional. Participou das articulações do Grupo dos Dez e apoiou iniciativas para sustentar o regime de câmbio fixo. Mesmo assim, o sistema ruiu no início dos anos 1970, abrindo caminho para as moedas flutuantes.
A partir daí, o foco se deslocou para a estabilidade financeira. Crises como a quebra do Bankhaus Herstatt (1974), a crise da dívida latino-americana (1982), a crise asiática (1997) e o colapso global de 2008 ampliaram o papel do BIS. O banco passou a abrigar fóruns como o Comitê de Basileia e apoiou a criação do Conselho de Estabilidade Financeira.
Hoje, quase um século após sua fundação, o BIS segue atuando como espaço de coordenação entre bancos centrais, ampliando pesquisas, estatísticas e mecanismos de supervisão. Em um sistema financeiro cada vez mais interligado, sua missão permanece a mesma: promover estabilidade monetária e financeira em escala global.





