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Por que o iene subiu e como a alta pode afetar o Brasil

Por que o iene subiu e como a alta pode afetar o Brasil

Intervenção cambial e apostas de novos juros no Japão fortalecem a moeda, mas possível desmontagem do carry trade ameaça ativos emergentes

O iene japonês voltou a ganhar força nesta quarta-feira (2). A moeda avançava cerca de 0,8% diante do dólar, com a cotação próxima de 158,92 ienes por dólar, após operadores identificarem sinais de que as autoridades poderiam preparar uma nova intervenção no câmbio, segundo a Reuters.

A recuperação, contudo, não ocorre em linha reta. O iene chegou a se aproximar de 164 por dólar no fim de julho, menor nível em quatro décadas, e avançou até a região de 155 após uma intervenção conjunta dos governos do Japão e dos Estados Unidos. Desde então, devolveu parte dos ganhos.

No acumulado desde o fim de junho, o iene ainda registra valorização próxima de 2% diante do dólar, segundo Fernando Saad, analista de alocação e inteligência da Avenue.

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Por que o iene subiu?

A alta tem três explicações principais. A primeira é a intervenção cambial realizada no fim de julho, quando autoridades japonesas e americanas compraram ienes para impedir uma desvalorização desordenada da moeda.

A segunda está na expectativa de novos aumentos dos juros japoneses. O Banco do Japão mantém a taxa básica em 1%, maior nível em 31 anos, mas declarações recentes de dirigentes reforçaram a possibilidade de uma nova elevação. Juros mais altos reduzem a vantagem de tomar recursos emprestados no Japão e aplicá-los em outros mercados.

O terceiro fator é a perda de força do dólar em um recorte mais amplo. Desde a máxima recente do índice DXY, em 24 de junho, a moeda americana acumula queda de aproximadamente 2%. No mesmo intervalo, uma cesta de moedas emergentes avança quase 4%, enquanto o real se valoriza cerca de 2%, conforme os dados apresentados pela Avenue.

“Quando a moeda americana perde força, ativos de maior risco tendem a se beneficiar”, afirmou Saad.

A situação do iene, porém, exige uma leitura diferente da aplicada ao real e às demais moedas emergentes. Uma valorização rápida da divisa japonesa pode provocar o encerramento de operações de carry trade e elevar a volatilidade nos mercados globais.

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Como a alta do iene afeta o Brasil?

Durante décadas, os juros baixos do Japão permitiram que investidores tomassem empréstimos baratos em ienes para aplicar em ações, títulos de crédito, dólares e moedas de países emergentes. Essa estratégia é conhecida como carry trade.

Quando o iene sobe rapidamente, aumenta o custo de recomprar a moeda para quitar os empréstimos. Alguns investidores precisam vender os ativos adquiridos e comprar ienes. Esse processo pode reforçar a valorização da moeda japonesa e pressionar simultaneamente bolsas, crédito e moedas emergentes.

O risco já havia sido abordado pelo estrategista Marink Martins na reportagem “Alta de juros no Japão: o que muda para o Brasil”, publicada pelo EuQueroInvestir em dezembro de 2025. Na ocasião, ele explicou que a normalização dos juros japoneses poderia estimular a repatriação de recursos e afetar os títulos americanos, o dólar, as commodities e os mercados emergentes.

“O mercado já comentava essa possibilidade há bastante tempo, e os impactos, até aqui, foram marginais, nada fora do esperado”, afirmou Marink Martins na ocasião.

Para o Brasil, existem duas forças em sentidos opostos. A fraqueza mais ampla do dólar favorece o real, reduz pressões financeiras sobre empresas endividadas na moeda americana e aumenta a procura por ativos emergentes. Uma alta abrupta do iene, por outro lado, pode levar investidores a reduzir riscos, retirar recursos desses mercados e pressionar a bolsa, o câmbio e os juros brasileiros.

Saad também aponta fatores que podem limitar uma valorização mais duradoura do iene, como a dependência japonesa das importações de petróleo, a situação fiscal delicada do país e a diferença ainda elevada entre os juros do Japão e dos Estados Unidos. O grande volume de posições vendidas pode intensificar altas pontuais, mas não garante uma trajetória sustentada.

Para os ativos brasileiros, portanto, a velocidade da valorização do iene importa mais do que a direção isolada da moeda. Uma alta gradual, acompanhada pela fraqueza do dólar, tende a ser administrável. Uma disparada provocada por intervenções ou pela desmontagem acelerada do carry trade representa o principal risco.