A ata da última reunião do Federal Reserve, divulgada nesta quarta-feira (19), reforçou a possibilidade de uma alta dos juros americanos caso a inflação não continue recuando. Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, o documento apresenta uma postura mais hawkish do que a observada durante o mandato de Jerome Powell.
Na reunião realizada em 28 e 29 de julho, o Comitê Federal de Mercado Aberto, o Fomc, manteve a taxa dos fed funds no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano. A decisão foi aprovada por nove votos a três, com três dirigentes defendendo uma elevação de 0,25 ponto percentual.
A ata mostrou que vários participantes consideram provável a necessidade de um novo aperto monetário se a inflação não diminuir. Alguns integrantes também avaliaram que as condições financeiras talvez ainda não estejam suficientemente restritivas para levar o índice de preços de volta à meta de 2%.
“A ata mais recente do Fed reforça uma postura mais hawkish da instituição, mas ainda não representa uma mudança concreta na taxa de juros. O mercado vinha cobrando uma alta porque, se existe uma preocupação tão grande com a inflação, o próximo passo natural seria elevar os juros”, afirmou Alves.
Inflação ameaça credibilidade do Fed
A inflação medida pelo índice de preços de gastos com consumo, o PCE, acumulou 4,1% nos 12 meses encerrados em maio. O núcleo do indicador avançou 3,4%. Para junho, os técnicos do Fed estimaram uma desaceleração para 3,7% e 3,3%, respectivamente, ainda distante da meta.
Para a Avenue, o presidente do Fed, Kevin Warsh, adotou um discurso mais firme diante da persistência da inflação. Alves considera que o principal risco para a credibilidade da instituição seria não conseguir cumprir sua responsabilidade de preservar a estabilidade dos preços.
“O grande risco é a inflação permanecer elevada por tempo demais e comprometer a credibilidade do Fed. O papel de um banco central é ser o guardião da moeda e garantir que ela mantenha seu poder de compra, independentemente das pressões políticas ou dos debates públicos”, avaliou o estrategista-chefe da Avenue.
A ata atribuiu parte da pressão inflacionária às tarifas comerciais, aos preços mais altos de energia e insumos provocados pelo conflito no Oriente Médio e ao aumento da demanda relacionado aos investimentos em inteligência artificial. Muitos dirigentes alertaram que novos choques de oferta poderiam prolongar o período de inflação elevada.
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Mercado de trabalho limita aperto monetário
Ao mesmo tempo, o Fed precisa considerar os efeitos dos juros sobre a atividade e o emprego. A ata classificou o mercado de trabalho como estável, com desemprego de 4,2% em junho. O crescimento das vagas perdeu força no mês, embora a média do primeiro semestre tenha permanecido superior à registrada em 2025.
“O cenário é bastante complexo. Ao mesmo tempo em que a inflação continua sendo um problema, o mercado de trabalho americano apresenta sinais de desaceleração. Os dirigentes precisam equilibrar os dois lados do mandato: controlar os preços sem provocar uma deterioração excessiva da atividade econômica”, explicou Alves.
Outra discussão envolve o balanço patrimonial do Fed. Warsh defende uma redução maior dos ativos acumulados pelo banco central, segundo a Avenue. A venda de títulos retiraria liquidez da economia e também funcionaria como uma forma de aperto monetário, reduzindo a dependência de aumentos mais agressivos dos juros.
A maioria dos participantes, entretanto, reafirmou que a taxa básica deve continuar sendo o principal instrumento da política monetária.






