Nos últimos anos, manter uma parcela relevante do patrimônio em ativos atrelados ao CDI foi uma estratégia bastante eficiente. Com a inflação pressionada, o Banco Central adotou uma postura mais restritiva, levando a Selic para níveis historicamente elevados e proporcionando retornos reais bastante atrativos para os investidores.
No entanto, já observamos alguns sinais de mudança nesse cenário.
O Banco Central iniciou um ciclo de flexibilização monetária, com quatro cortes consecutivos de 25 pontos-base, reduzindo a taxa básica de juros de 15% para os atuais 14% ao ano. E o processo de calibração pode continuar ao longo dos próximos anos.
Diante desse novo ambiente, surge uma questão importante: depois de anos de bons resultados com o CDI, faz sentido agora diversificar parte da carteira de Renda Fixa?
Onde está a oportunidade
A ideia não é abandonar os investimentos nos títulos pós-fixados. O CDI continua desempenhando um papel importante na construção de uma carteira equilibrada e segue oferecendo taxas bastante atrativas.
No entanto, o cenário atual abre espaço para incluir uma exposição complementar ao Tesouro Prefixado com vencimento em janeiro de 2029, aproveitando as taxas ainda elevadas oferecidas pelo título.
Hoje, a remuneração está perto de 14,1% ao ano, ligeiramente acima da própria Selic. E isso acontece na prática porque a curva de juros futuros ainda precifica uma manutenção dos juros em níveis elevados por um período prolongado.
Porém, caso o Banco Central opte por seguir realizando cortes na Selic como tem feito, o investidor que contratar essa taxa hoje poderá capturar uma rentabilidade superior a dos investimentos pós-fixados ao longo do período.
Curva de juros futuros brasileira

O que pode mudar
Um fator importante é a inflação brasileira, que apresentou bastante volatilidade nos últimos anos, permanecendo em diversos momentos acima do teto da meta. No entanto, os dados mais recentes mostram sinais de alívio. O IPCA de junho último, por exemplo, desacelerou para 0,16%, levando o acumulado em 12 meses para 4,52%.
Alguns fatores podem favorecer uma trajetória benigna da inflação nos próximos anos. Aproveito para destacar a partir de agora três dos principais:
- A alta do petróleo, influenciada por tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Irã, adicionou pressão sobre a inflação ao longo do ano. Uma eventual redução dessas tensões pode aliviar parte desse impacto;
- Outro fator é a desaceleração da atividade econômica brasileira. Após crescer 3,4% em 2024, o PIB ficou em 2,3% em 2025, enquanto as projeções apontam crescimento próximo de 1,6% em 2027. Esse crescimento mais moderado tende a reduzir pressões de demanda e contribuir para um ambiente inflacionário mais controlado.
- Embora a trajetória das contas públicas continue sendo um dos principais riscos para os ativos brasileiros, um volume menor nos gastos públicos nos primeiros anos do próximo mandato pode reduzir a pressão sobre o fiscal e diminuir o prêmio de risco.
A combinação desses fatores pode abrir espaço para uma trajetória mais benigna da inflação e, consequentemente, para uma queda gradual da taxa Selic nos próximos anos, como indicado no gráfico abaixo. Assim, o ambiente pode se tornar especialmente favorável para posições prefixadas, que se beneficiam de ciclos de queda dos juros.
Trajetória da Taxa Selic e estimativa

Diversificação além do CDI
Uma carteira concentrada no CDI depende da manutenção de juros altos para continuar entregando retornos elevados. E, ao incluir uma parcela de títulos prefixados, o investidor passa a capturar, além de um cenário de queda da Selic, como já vimos aqui, uma redução importante da dependência de um único fator de rentabilidade no Brasil.
Em nossas estimativas, considerando a trajetória projetada para a taxa Selic, o Tesouro Prefixado com vencimento em janeiro de 2029 apresenta potencial de retorno equivalente a aproximadamente 112% do CDI no período até o vencimento.
Pós-fixado x Prefixado 2029 (Comparativo de retorno estimado)

É importante destacar que essa comparação considera a permanência do investidor até janeiro de 2029. Isso porque, e nunca é demais lembrar, antes do vencimento o preço do título pode oscilar devido à marcação a mercado.
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O que explica os 14%?
O principal risco da estratégia é uma eventual reaceleração da inflação nos próximos anos. Caso ocorram choques ou a atividade doméstica surpreenda positivamente, o BC poderá interromper o ciclo de cortes ou até voltar a elevar a Selic.
Nesse cenário, as taxas exigidas pelo mercado poderiam subir, pressionando os preços dos títulos prefixados.
No entanto, alguns fatores ajudam a reduzir esse risco:
A inflação implícita no título prefixado até 2029 está perto de 5,4%, acima da meta do Banco Central. Isso indica que o mercado já incorpora um prêmio para o risco inflacionário. Esse é, inclusive, um dos fatores que contribuem para manter elevada a taxa oferecida pelos títulos prefixados.
Os juros reais próximos de 8,2% representam um patamar historicamente alto e oferecem uma margem de segurança relevante para o investidor que optar por alocar recursos nesse título.
E o vencimento em janeiro de 2029 oferece um equilíbrio entre potencial de retorno e controle de risco, evitando uma exposição excessiva aos riscos fiscais associados a prazos mais longos.
Inflação Implícita

O mercado brasileiro ainda apresenta desafios importantes. O cenário fiscal, a inflação e as condições externas continuam sendo fatores de atenção.
Mas, ao mesmo tempo, a combinação entre desaceleração da atividade econômica, possível convergência da inflação e início do ciclo de cortes da Selic cria uma oportunidade para revisar a composição da carteira de Renda Fixa.
Nessa visão, faz sentido considerar uma exposição ao Tesouro Prefixado 2029 como complemento aos investimentos atrelados ao CDI.
Não se trata de substituir uma estratégia vencedora dos últimos anos, mas de preparar a carteira para cenários diferentes.





