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Talibã: as peças do tabuleiro geopolítico se movem; como isso pode mexer com os mercados

Talibã: as peças do tabuleiro geopolítico se movem; como isso pode mexer com os mercados

O tabuleiro mundial está se movendo. Depois de vinte anos de ocupação norte-americana no Afeganistão, o Talibã se manteve de tocaia. Bastou o movimento contrário, de retirada das tropas por ordem do governo dos Estados Unidos e o grupo extremista avançou rapidamente para, no último domingo (15), tomar à força, embora sem resistência, o poder afegão.

Nos dias que se seguiram, o mundo presenciou cenas de caos e desespero no aeroporto de Cabul, a capital, com pessoas tentando embarcar em aviões a todo custo, inclusive das próprias vidas.

O que levava tais afegãos a atos extremos de desespero era a memória da década de 1990, quando o Talibã governou o país à base do fundamentalismo religioso, que cerceava direitos humanos, aprisionava, sequestrava e estuprava mulheres, assassinava dissidentes em praça pública e impedia contestações.

O objetivo do grupo sempre foi impor sua interpretação extremista da lei islâmica, a sharia, e remover a influência estrangeira do país.

Aquele Talibã elevou o nível de terror a todo o mundo e não só ao próprio país. Incendiou nações vizinhas também. E chegou até aos Estados Unidos, com o fatídico 11 de setembro de 2001.

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O surgimento do Talibã

Em resumo, o Talibã surgiu em 1994, após mais de uma década de ocupação soviética no Afeganistão, um país tribal, sem formação social ampla e coesa.

Com a retirada soviética, Mohammed Omar liderou os estudantes para a tomada de Kandahar, segunda maior cidade do país, quinhentos quilômetros ao sul de Cabul, e cem quilômetros da fronteira com o Paquistão. Não demorou dois anos para o grupo ocupar também Cabul e criar uma horda de seguidores e admiradores.

De 1996 a 2001, o grupo forçou uma interpretação radical das leis islâmicas ao povo. Isso incluía a obrigação das mulheres se cobrirem da cabeça aos pés com a burca, não frequentar escolas, não trabalhar fora de casa, serem proibidas de viajar sozinhas e, de acordo com muitos relatos, serem arrancadas de suas famílias para servirem de esposas aos combatentes talibãs.

“Modernidades” do mundo ocidental – como televisão, música, feriados não islâmicos e Internet sem limites – também são proibidos.

Nesse formato, o governo talibã só é reconhecido pelo vizinho Paquistão, pela extremista Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos.

É nesse cenário que Osama Bin Laden se abriga em Kandahar e começa a planejar o ataque com os aviões do 11 de Setembro.

20 anos depois

O presidente norte-americano, Joe Biden, disse que era o quarto mandatário do país a financiar tropas no Afeganistão. Não queria passar o problema para um quinto. E, depois de seu antecessor, o republicano Donald Trump, deixar claro que era seu desejo retirar as tropas, Biden levou ao cabo a intenção e os Estados Unidos deixaram o Afeganistão, relegando o povo à mercê do extremismo.

É aí que as peças se movem no tabuleiro.

A China e os metais de terras-raras

A China, que possui uma estreita fronteira com o Afeganistão e é concorrente no mercado mundial dos Estados Unidos, se apressou em dizer que queria uma relação amistosa com o novo governo.

Não é bondade. É business. Estima-se que o Afeganistão tenha trilhões de dólares em metais raros.

Shamaila Khan, diretora de dívida de mercados emergentes da AllianceBernstein, disse à CNBC que os insurgentes do Talibã surgiram com recursos que são “uma proposta muito perigosa para o mundo”, com minerais no Afeganistão que “podem ser explorados”.

A comunidade internacional deve exercer pressão sobre a China, se ela de fato se aliar ao Talibã. Qual tipo de pressão e sua efetividade são uma incógnita.

Minerais e metais de terras-raras (conjunto de 15 elementos químicos constituídos por lantânio, cério, praseodímio, neodímio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio e ítrio) no Afeganistão foram estimados em valores entre US$ 1 trilhão e US$ 3 trilhões em 2020, de acordo com uma reportagem da revista The Diplomat, citando Ahmad Shah Katawazai, um ex-diplomata da Embaixada do Afeganistão em Washington DC.

Não é pouco dinheiro. Há ainda veios de alumínio, ouro, prata, zinco, mercúrio e lítio. Metais de terras-raras são usados em tudo, desde eletrônicos a veículos elétricos, a satélites e aeronaves.

“Portanto, deve haver pressão sobre a China se eles vão fazer alianças com o Talibã a fim de gerar ajuda econômica para eles – que eles o façam em termos internacionais”, disse Khan. Por “termos internacionais” entenda-se especialmente direitos humanos.

Cerca de 35% das reservas globais de terras-raras estão na China, a maior fatia do mundo.

Tensão China x EUA

A tensão entre Pequim e Washington aumentou sob o governo de Donald Trump, que escalou uma guerra comercial e trabalhou para proibir as empresas chinesas de tecnologia de fazer negócios nos Estados Unidos.

Nos últimos quatro anos, o governo Trump culpou a China por uma ampla gama de queixas, incluindo roubo de propriedade intelectual, práticas comerciais desleais e, recentemente, a pandemia de Covid-19.

Biden disse anteriormente que sua abordagem com a China seria diferente, pois trabalharia mais de perto e com os aliados, a fim de montar uma reação contra Pequim.

“Vamos enfrentar os abusos econômicos da China”, explicou Biden em um discurso no Departamento de Estado, descrevendo Pequim como o “concorrente mais sério da América”, o que é a mais pura verdade.

“Mas também estamos prontos para trabalhar com Pequim quando for do interesse fazê-lo”, apaziguou. “Vamos competir em uma posição de força, reconstruindo melhor em casa e trabalhando com nossos aliados e parceiros”.

OTAN entra no jogo

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, ou NATO, na sigla em inglês) se reúne para discutir uma série de desafios que o grupo de 30 membros enfrenta e passará a enfrentar, entre eles: a possível onda migratória, como vista pela crise da Síria na década passada, e o possível aumento do terrorismo.

“Quando fortalecemos nossas alianças, ampliamos nosso poder e também nossa capacidade de interromper as ameaças antes que cheguem às nossas costas”, disse Biden durante um discurso esta semana no Departamento de Estado.

A mensagem de Biden rompeu nitidamente com a política “EUA em primeiro lugar” de Trump, que na ocasião parecia irritar os membros da OTAN.

A organização precisa se preocupar com as fronteiras, pois junto com os desesperados imigrantes fugindo do Talibã podem entrar em terreno europeu terroristas, como aconteceu com a crise síria na década passada e que desencadeou uma preocupante onda nacionalista e extremista por todo o continente, erguendo governos autoritários e xenófobos, tudo aquilo que a União Europeia repudia como princípio básico.

Crise humanitária

Os líderes europeus já falaram da necessidade de formular um plano em resposta aos refugiados do Afeganistão, com especialistas dizendo que a Turquia pode mais uma vez ter um papel importante nas negociações. Entre o país e o Afeganistão há apenas o longo e desgastante território do Irã, mas outras rotas podem ser traçadas, todas elas desembocando na Turquia.

A Turquia não é integrante da União Europeia (UE). Desde 2016 o processo de adesão está paralisado.

Agora, as duas maiores economias da UE, França e Alemanha, falaram de um fluxo potencial de refugiados para o bloco.

“Devemos nos antecipar e nos proteger contra os principais fluxos migratórios irregulares”, disse o presidente francês Emmanuel Macron esta semana, enquanto prometia trabalhar para uma “resposta robusta, coordenada e unida” com outras nações europeias.

Na vizinha Alemanha, a retórica é semelhante. Armin Laschet, o chefe da União Democrática Cristã e visto como o mais provável para substituir a chanceler Angela Merkel, disse que “2015 não deve ser repetido”, referindo-se à Síria.

A UE enfrentou uma crise de refugiados em grande escala em 2015 e 2016, devido ao conflito na Síria. Mais de 1,2 milhão de pessoas solicitaram asilo em 2015 na UE, de acordo com o serviço de estatísticas da região.

A lógica mais simplista é que se os países aceitarem refugiados sem restrição, incharão seus custos internos, em suas políticas de bem-estar social, o que pode afetar dados econômicos nacionais. Por outro lado, os países não querem ser os vilões de fechar as portas a desesperados.

As próximas eleições nos gigantes como França, Alemanha e Itália vão dar o tom. E isso pode afetar mercados em todo mundo, afinal ninguém espera ver economias como estas encolhendo.

A Rússia

Assim como a China, Biden também disse que os Estados Unidos terão uma abordagem diferente ao lidar com o presidente russo, Vladimir Putin.

“Eu deixei bem claro para o presidente Putin de uma maneira muito diferente de meu antecessor que os dias dos Estados Unidos rolando diante das ações agressivas russas, interferindo em nossas eleições, ataques cibernéticos, envenenando seus cidadãos, acabaram”, disse.

“Seremos mais eficazes ao lidar com a Rússia quando trabalharmos em coalizão e coordenação com outros parceiros com ideias semelhantes”, acrescentou.

A Rússia também tem especial interesse no Afeganistão e muitas das armas da década de 1990 vieram tanto da Rússia quanto dos Estados Unidos, preocupados ainda com o avanço do gigante vermelho.

Custo da guerra

As guerras no Afeganistão, Iraque e Síria custaram aos contribuintes norte-americanos mais de US$ 1,57 trilhão, desde 11 de setembro de 2001, de acordo com um relatório do Departamento de Defesa.

A guerra no Afeganistão, que agora é o conflito mais longo da América, custou aos contribuintes dos EUA US$ 193 bilhões, número informado pelo Pentágono.

Em fevereiro passado, os Estados Unidos intermediaram um acordo com o Talibã que daria início a um cessar-fogo permanente e reduziria a presença militar dos EUA de aproximadamente 13 mil soldados para 8,6 mil em meados de julho do ano passado. Em maio de 2021, todas as forças estrangeiras deixariam o país cansado da guerra. Esse era o acordo.

Foi a brecha que o Talibã desejava há duas décadas. “Vocês têm o relógio, nós temos o tempo”, dizia o lema talibã, sabendo que a presença norte-americana, por alto custo financeiro que exigia, não duraria para sempre.

Mercados temem terrorismo

Uma outra questão que pode afetar mercados (e, claro, a vida das pessoas) é o terrorismo. Com o Talibã de volta ao poder, tal como se viu na década de 1990, os cérebros terroristas encontraram abrigo. Já viu esse filme antes do 11 de Setembro e da série de atentados que se sequenciaram a partir dali.

É o que os núcleos de inteligência de diversos países chamam de “Al-Qaeda 2.0.”.

Por ora, é só especulação.

A revista Exame escreveu sobre o assunto: “as conexões do Afeganistão com mercados mais amplos são bastante pequenas, disse Ilya Spivak, chefe para Grande Ásia do DailyFX. ‘Começaria a ter impacto se a área se tornar um palco para o terrorismo novamente’, disse. Investidores provavelmente hesitarão em negociar muito com esse tema ‘a menos que algo aconteça’ a esse respeito, acrescentou Spivak”.

E seguiu: “a presença limitada de empresas globais no Afeganistão necessariamente restringe seu impacto mais amplo nos mercados, disse Jeffrey Halley, analista de mercado sênior da Oanda Asia Pacific. ‘Duvido seriamente que qualquer grande empresa tenha operações de escala lá’, afirmou. ‘Infelizmente, o maior produto de exportação do Afeganistão será a fuga de pessoas'”.

E o impacto no mercado brasileiro?

Apesar da derrota que o Talibã impôs aos Estados Unidos no âmbito político e militar, os mercados caíram no começo da semana por vários motivos. Não necessariamente pelo temor da mudança do tabuleiro geopolítico.

No Brasil, segundo análise de Aline Cardoso, gestora de renda variável da EQI Asset, os problemas por aqui são bem outros, longe do Talibã, da OTAN, do terrorismo e dos refugiados.

“O mercado brasileiro já vem estressado desde o mês passado, por conta das preocupações fiscais, precatórios, Bolsa Família e toda a tensão política”, resumiu. Isso no mercado interno.

Lá fora, ela alerta que os papéis mais cíclicos, como companhias aéreas, empresas de real estate e varejo estão em queda. Além disso, “é largamente esperado que o Fed anuncie o tapering já em agosto”, ela diz.

Segundo Alexandre Viotto, da EQI, “desde a crise de 2009, o banco central americano tem expandido o seu balanço. A forma de fazer isso é comprando títulos do governo e das empresas, aumentando a liquidez no sistema. O nome deste processo é ‘quantitative easing’. O inverso disso é vender os títulos e ‘enxugar’ o mercado, trazendo os dólares de volta. O nome disso é tapering“.

Tapering no radar

O movimento que Aline apontou começou a ser mais fortemente acenado depois da divulgação da ata do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto, na sigla em inglês), formado por dirigentes do Fed, na quarta-feira (18).

Os membros discutiram em sua reunião de julho o início da redução do ritmo de suas compras mensais de títulos, indicando que isso deve ocorrer até o fim deste ano.

Também votaram para manter as taxas de juros de curto prazo perto de zero, ao mesmo tempo expressando otimismo sobre o ritmo de crescimento econômico.

Dirigentes do Fed notaram que a inflação subiu mais que o esperado em 2021. Para participantes, a inflação transitória traz dúvida sobre estabilidade de preços.

Dessa forma, muitos dirigentes notaram que fatores temporários podem manter inflação alta no ano que vem.

Por fim, a Ata mostrou que os dirigentes do Fed ainda estão divididos em relação ao início do tapering e como ele será feito, embora a maioria considere mais adequado começar ainda neste ano.

Permanece a dúvida se a economia já apresentou “progresso substancial” para justificar a redução das compras de ativos. As incertezas sobre os impactos da variante delta da Covid-19 e a persistência da inflação também são apontados como fatores de atenção pelo Fed.

“Apesar do tapering ser um evento esperado”, Alise segue, “o mercado fica estressado, ainda mais porque os dados mais recentes de atividade econômica vieram fracos.

Varejo nos EUA

Um desses dados é a performance do varejo norte-americano.

As vendas no varejo recuaram 1,1% em julho na comparação com junho, pior que a projeção de queda de 0,3%. Na comparação anual, a alta é de 15,78%, ante 18,73% da leitura anterior.

Os dados são de prévia divulgada na terça-feira (17) pelo Census Bureau, do Departamento do Comércio, e revelam uma desaceleração no crescimento observado nos meses anteriores.

As vendas totais foram de US$ 617,7 bilhões, frente US$ 624,7 bilhões de junho. Os dados de junho foram revisados e a alta no mês foi de 0,7% (de 0,6% anunciados anteriormente).

As vendas o varejo excluindo automóveis caíram 0,4%.

Vale lembrar que as vendas no varejo representam quase 70% de toda atividade nos EUA e são interpretadas como indicador de saúde econômica geral.

Portanto, mais importante que peças se movendo lentamente no tabuleiro geopolítico, é bom mesmo o investidor ficar com um olho no futuro global e outro nas movimentações internas cotidianas. É uma bomba para desarmar todos os dias.

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