Em um cenário macroeconômico frágil, marcado pela alta dos juros e da inflação nos últimos meses, uma das grandes dúvidas do mercado é para onde vai o Ibovespa em 2022.
De acordo com levantamento da consultoria Austing Rating, o Brasil teve o terceiro pior desempenho entre as bolsas de 79 países. De janeiro até meados de dezembro, o Ibovespa caiu 8%, ficando atrás somente da bolsa venezuelana, que caiu 99,5% no ano, e da Turquia, com queda de 31,1%.
Riscos fiscais e alta inflação são pontos em comum observados nos piores desempenhos das bolsas ao redor do mundo. Em entrevista à CNN, Alex Agostini, economista-chefe da Austing Rating, disse que 2022 ainda deverá ser um período delicado. “A bolsa brasileira ainda deverá figurar em um crescimento nas últimas colocações em 2022. Nesse sentido, o retorno das ações deverá ser baixo porque o país só cresce se empresas vendem e produzem. Inclusive, há casas que falam em recessão ou baixo crescimento”, explica.
Além disso, especialistas concordam que as eleições também serão outro agravante para a volatilidade do mercado no ano que vem.
Ibovespa em 2022: perspectivas
Por todos os motivos anteriores, muitas instituições revisaram as projeções para o Ibovespa em 2022.
Em relatório divulgado no início de dezembro, a Ativa Investimentos afirma que, no futuro próximo, o potencial de volatilidade é maior do que o de 2021, devido a questões internas e externas. Para o analista Pedro Serra, o movimento do governo em favor de uma agenda mais popular pode vir a prejudicar o mercado.
Já para o Goldman Sachs, o Ibovespa em 2022 pode retomar 120 mil pontos. Para o banco, uma política econômica expansiva da China poderá beneficiar principalmente Brasil e Chile, na América Latina. O banco inclusive vê a possibilidade de que o índice retome os 120 mil pontos ainda no início de 2022. Isso porque os ativos brasileiros estão com um desconto de 0,9% em relação à perspectiva global.
Cenários para o Ibovespa em 2022
Para o BTG Pactual, 132 mil pontos é o alvo do Ibovespa para o final de 2022, se as coisas melhorarem por aqui. Para chegar a esse valor, a equipe de Research do banco utilizou as próprias estimativas para o lucro das empresas no ano que vem.
O cenário base considera três premissas. A primeira é que o Banco Central traria novamente a inflação para a meta (3,5%). A segunda, considera que as taxas reais de longo prazo voltariam a 4%, como estavam há alguns meses. E a terceira projeta um crescimento real do PIB de 2% no longo prazo.
Considerando essas três premissas, o banco chega a um múltiplo P/L (preço da ação dividido pelo seu lucro) de 12,7x do Ibovespa em 12 meses (excluindo Petrobras e Vale, para não gerar distorções no índice). Ou seja, o múltiplo P/L justo estaria em linha com o valuation histórico.
“A um P/L 12,7x, usando nossas estimativas de lucro para 2022, o Ibovespa teria que estar em 132 mil pontos, sinalizando um potencial de valorização de 23%”, afirma o relatório.
O BTG calculou seis cenários para o Ibovespa em 2022. Para estimar o valor justo do índice em cada caso, foram utilizadas diferentes premissas para taxas de juros reais, inflação de longo prazo e crescimento real do PIB. Além disso, manteve o ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) inalterado em 15%, para facilitar o cálculo.
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Cenários conservadores
Os cenários 1 e 2 projetados pelo banco são os negativos. No primeiro, o Banco Central não consegue trazer a inflação para a meta, e ela fica em 5,5%. Isso faz com que não haja crescimento real no Brasil. Nessa situação, o múltiplo P/L do Ibovespa é 7,5x, em comparação a um P/L atual de 10,3x (sem Petrobras e Vale).
Já o cenário 2 considera que as atuais variáveis econômicas não se modificariam no longo prazo. Nesse caso, a expectativa para a inflação seria de 5% para 2022 e a taxa de juros real ficaria em 5%. Além disso, o crescimento real do PIB seria de 0,5%. Todas essas variáveis levariam a um múltiplo P/L justo do Ibovespa de 8,5x.
Cenários otimistas
Os cenários 5 e 6 são os mais positivos. No 5, as premissas seriam inflação de 3%, juros reais de longo prazo de 3,5% e PIB com crescimento de 2,5% em 2022. Tudo isso levaria a um múltiplo P/L do Ibovespa de 15,8x.
No cenário 6, o mais otimista de todos, a inflação seria de 2,5%, os juros reais de longo prazo estariam na casa de 3%, e o PIB cresceria 3% no ano. Dessa forma, chegaríamos a um P/L justo do Ibovespa de 21,1x.
Cenários mais factíveis
Os cenários 3 e 4 são os que o BTG considera mais viáveis por enquanto. O cenário 3 foi calculado para ficar em linha com o atual Ibovespa, de ~10x. Nesse caso, considerou-se inflação de 4,5%, juros reais de longo prazo de 4,5% e crescimento real do PIB de 1,5%.
Por fim, o cenário 4 é o base, mencionado no início, no qual o Ibovespa para 2022 poderia chegar a 132 mil pontos. Logicamente, considerando que o Brasil “volte aos trilhos”, nas palavras do relatório do banco.
Para a equipe do BTG, apesar da volatilidade esperada em 2022, existe espaço para um bom desempenho da bolsa brasileira, dado o atual nível de valuation. Para os analistas, os lucros de 2022 deverão permanecer estáveis em relação a 2021, mesmo com a recuperação econômica mais lenta do que o esperado.
Recomendações do BTG para 2022
O BTG apontou as 38 melhores ações de cada setor para ter na carteira em 2022. Confira a seguir:
Setor financeiro: Itaú (ITUB4), XP (XPBR31) e Porto Seguro (PSSA3).
Materiais básicos: CBA (CBAV3), Suzano (SUZB3), Vale (VALE3) e Gerdau (GGBR4).
Alimentos: JBS (JBSS3).
Agronegócio: 3tentos (TTTV3) e Raízen (RAIZ4).
Varejo: Mercado Livre (MELI34) e Arezzo (ARZZ3)
Saúde e educação: Notredame Intermédica (GNDI3), Hapvida (HAPV3), Anima (ANIM3) e Cruzeiro do Sul (CSED3).
Transportes, infraestrutura e bens de capital: Santos Brasil (SBPR3), Localiza (RENT3), Randon (RAPT4), Sequoia (SEQL3) e Gol (GOLL4).
Serviços públicos: Alupar (ALUP11), Energisa (ENGI11) e Eletrobras (ELET3).
Construção civil: Cyrela (CYRE3).
Tecnologia: Intelbras (INTB3), Totvs (TOTS3) e Locaweb (LWSA3).
Telecomunicações: TIM (TIMS3), Unifique (FIQE3) e Desktop (DESK3).
Shoppings e propriedades: SYN (SYNE3), Iguatemi (IGTA3) e Log CP (LOGG3)
Petróleo e gás: Petrobras (PETR3; PETR4), Braskem (BRKM5), PetroRio (PRIO3) e 3R Petroleum (RRRP3).