As empresas aéreas Azul (AZUL4) e Gol (GOLL4) se transformaram nos “patinhos feios” da bolsa de valores durante a pandemia, e não foi para menos. No ápice da crise, as decolagens caíram mais de 90%.
Agora, alguns sinais estão trazendo maior otimismo para esse setor na bolsa. Com isso, a Azul e a Gol já acumulam altas de 43% e 20,5% nos últimos 30 dias. No mesmo período, o Ibovespa cai cerca de 1%.
Segundo o MarketWatch, as ações da Gol e da Azul comeaçaram a receber avaliações mais positivas dos analistas em setembro. Por exemplo, em 4 de setembro, o Raymond James elevou a recomendação dos ADRs das duas empresas para outperform (acima da média do mercad0). Antes, o rating era market perform, ou seja, em linha com o mercado.
Em seguida, foi a vez do Deutsche Bank elevar o rating, em 9 de setembro. A recomendação, que era de manter (hold), passou para recomendação de compra.
Confira nesta reportagem o que justifica a retomada dos papéis e quais são as expectivas dos analistas para o setor aéreo na B3.
Tempestade perfeita para Gol e Azul
As ações da Gol e da Azul foram submetidas a um conjunto de más notícias neste ano. Não bastasse a queda brusca da demanda, as empresas também foram pressionadas por notícias negativas de outras empresas do setor.
A falência da Avianca e a recuperação judicial da Latam são bons exemplos disso. “Foi uma sequência de sustos neste mercado”, destaca Henrique Esteter, analista da Guide.
A elevada exposição das empresas aéreas ao câmbio ajudou a agravar a situação. Em meio à alta do dólar, as companhias sofreram com alta de custos, justamente num momento de baixa demanda.
Antes da crise, a ação da Gol estava na casa dos R$ 30. No auge da pandemia, chegou a ficar abaixo de R$ 6. O papel da Azul, antes na casa dos R$ 50, caiu para R$ 10 no início da pandemia.
No entanto, finalmente as boas novas começaram a chegar neste mercado, refletindo nas cotações.
Situação financeira não tão ruim
Um dos motivos para a melhora das ações das aéreas foi a percepção do mercado de que a situação financeiras das empresas não era tão ruim quanto a dos seus pares internacionais.
Isso trouxe um grande alívio e começou a ajudar na retomada dos preços. “Percebemos que o cenário é desafiador, mas não tão crítico”, disse Estater.
No final do segundo trimestre, a Azul divulgou que sua liquidez imediata somava R$ 2,3 bilhões. A liquidez total da Azul foi de R$ 6,6 bilhões, incluindo investimentos de longo prazo, ativos disponíveis e reservas de manutenção.
Ao mesmo tempo, a Gol também tranquilizou o mercado com seus dados financeiros. Neste mês, a Gol divulgou que encerrou o mês de agosto com cerca de R$ 2,1 bilhões de liquidez total. Além disso, a empresa conseguiu cumprir com sua principal dívida de curto prazo (Term Loan B).
Segundo comunicado, o prazo médio de vencimento da dívida da empresa é de quatro anos – excluindo arrendamento de aeronaves e notas perpétuas. No documento, a empresa disse que tem liquidez suficiente para financiar suas atividades, pagar despesas e dívidas.
BNDES na jogada
Desde o início da pandemia, as empresas e o governo começaram a negociar uma possível ajuda financeira. Mas o apoio chegou somente neste mês, e os analistas ainda não têm certeza se as empresas vão aceitar a ajuda oferecida.
As propostas feitas pelo BNDES às duas empresas preveem a captação em mercado de R$ 2 bilhões por empresa, com partipação do banco estatal de até 60% do montante. Os bancos privados entrariam com 20% do valor, e o restante seria captado junto ao mercado.
A operação seria feita por meio de uma emissão de debêntures e bônus de subscrição, que dão ao detentor a preferência na compra de novas ações emitidas pela empresa.
De acordo com o analista da Ativa, Ilan Arbetman, a ajuda do BNDES seria bem-vinda, mas o custo imposto pelo banco é considerado alto. “A ajuda do BNDES não é de graça, pois a possibilidade de conversão dilui os acionistas”, destaca.
Por isso, não se descarta a possibilidade de as empresas buscarem apoio em outras frentes – até com sócios de outros países, segundo o sócio da consultoria Performa Partners, André Pimentel.
De qualquer forma, o apoio do governo ajudou a impulsionar a alta das cotações nas últimas semanas.
Além disso, a queda do dólar nos últimos três meses (de R$ 5,96 para R$ 5,24) também foi benéfica para as ações, de acordo com o economista da EQI Investimentos, Pedro Ivo.
Sinais de retomada
Embora a situação financeira e o apoio do BNDES sejam assuntos importantes, o que mais interessa ao mercado é observar a retomada da demanda por voos. De acordo com os especialistas, é a volta das viagens aéreas que fará a alta das ações continuar.
Por isso, a expectativa de uma vacina para o coronavírus é um fator que influencia muito as cotações destas companhias.
Vale destacar que, embora tenham subido nos últimos 30 dias, as ações ainda caem no acumulado do ano. No caso da Azul, o papel cai 50% no ano. Já a Gol recua 43% de janeiro até agora.
Aquecimento da Gol
Até agora, os dados de retomada têm sido animadores. Os números de agosto divulgados pela Gol mostraram que a empresa aumentou a sua oferta para uma média de 190 voos por dia para atender um aumento de 20% na demanda.
Para setembro, a companhia projetou alta para 300 voos por dia. Isso representa 40% do realizado no mesmo mês do ano passado.
Para o terceiro trimestre, a Gol projetou alta de 300% na capacidade ante o trimestre anterior. Já para o quarto trimestre, a alta deve ser de 120%. A meta é terminar o ano usando 80% da sua capacidade doméstica.
Retomada da Azul
Perspectivas
Apesar da alta nas ações vista neste mês, as ações das aéreas inspiram cautela devido aos vários riscos envolvidos no setor. De acordo com a Guide, é preciso continuar observando a recuperação da demanda. “Ainda estamos neutros nesses papéis”, afirma Estater.
No caso do setor rodoviário, a recuperação da pandemia já está mais avançada. Mas o caminho para o setor aéreo ainda é incerto. O noticiário positivo de vacinas pode ajudar – e muito – o setor. No entanto, ainda não é possível saber como ficará a demanda por viagens no ano que vem.
Segundo o sócio da consultoria Performa, o segmento de viagens corporativas pode demorar mais para se recuperar do que as viagens de lazer. Outro ponto de dúvida é a retomada das viagens internacionais. Isso porque somente as rotas mais curtas têm mostrado recuperação.
De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), a demanda global por voos caiu 79% em julho ante o mesmo mês de 2019. No entanto, olhando apenas para os voos domésticos, a queda foi de 57,5%.
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