De acordo com especialistas consultados pelo Correio Braziliense, a atual crise econômica devido à pandemia de coronavírus é aguda e sem precedentes. Ou seja, a queda do Produto Interno Bruto (PIB) só cresce e a recessão é dada como certa. Bancos avaliam que esta será a pior recessão, desde a Segunda Guerra Mundial, na América Latina.
Em outras palavras, a crise causará enormes impactos, que superarão até mesmo o investimento de US$ 5 trilhões dos países integrantes do G20. O banco Goldman Sachs compartilhou na última sexta-feira (27), a revisão da queda do PIB latino-americano de 1,2% para 3,8%. Os dados também indicaram a retração de todos os países do grupo.
Por exemplo, no Brasil, a estimativa de queda foi ampliada ainda para este ano, de 1% para 3,4%. Enquanto na Europa, a Itália deve contribuir para a queda de 9%, levando à 11,6% de retração. Para o economista-chefe do banco na América Latina, Alberto Ramos, as previsões no Brasil não devem ser modificadas. Apesar do esforço do governo para amenizar as perdas de pequenos empresários.
“A dinâmica da crise é altamente recessiva, e respostas de políticas financeira e fiscal não mitigam o jogo no curto prazo”, esclareceu. “O risco de esses dados serem um pouco piores do que estamos projetando existe, porque a gente nunca viu uma retração como essa. Se eu ganhar na loteria, não vou sair de casa para gastar. É o espírito de sobrevivência à doença que vai prevalecer, e as pessoas vão preferir ficar em casa”, ressaltou.
Especialistas são cautelosos sobre futuro
Mesmo sem uma ideia da eficiência dos pacotes governamentais pelo mundo, Ramos previu alguns casos ao Correio Braziliense. Nos Estados Unidos, estima-se que haja queda de 2% a cada mês sem atividade econômica. Ainda assim, pode uma queda acima 10% no trimestre. “Com os dados de março, há uma queda de receita de 70% a 90% no setor de serviços, e estamos vendo retração nas cadeias de suprimentos da indústria.”.
Outro especialista, o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, também acredita que analisar a proporção das consequências da crise agora é precoce. Entretanto, ele analisa que a riqueza mundial não superará os 3% previstos anteriormente. E considera otimista a queda do PIB brasileiro em 1,5%, já que pode superar os 4% neste ano, dependo da duração da paralisação.
“Se as empresas quebram e as pessoas perdem emprego, aumenta a inadimplência e os bancos se retraem. E estamos ainda no começo do processo; não sabemos quanto tempo essa crise vai durar nesse cenário de estresse”, justificou.
Dificuldades no gerenciamento
Devido à crise ter se iniciado no campo da saúde, os governos tiveram mais dificuldades de gerenciamento, segundo os especialistas. Apesar de o isolamento social ser eficaz para conter a pandemia, analistas econômicos consideram necessária a conciliação com o restabelecimento do mercado. Para o economista-chefe do francês BNP Paribas Brasil, Gustavo Arruda, é preciso copiar os bem sucedidos.
“O exemplo a ser seguido é o da Coreia do Sul: testar o maior número de pessoas possíveis e torcer para não haver uma segunda onda de contágio, como estamos vendo em alguns países da Ásia”, disse ao Correio Braziliense.
Em relatório global divulgado na sexta-feira(27), o BNP previu a uma queda de 1% no PIB brasileiro. Até o final do ano passado, a estimativa era de 4% de crescimento. A estimativa da expansão da economia global também despencou de 2,8% para 0,5%. Enquanto os PIBs foram apontados com retração de 0,7% nos Estados Unidos, e 2,6% no Japão.
Para os especialistas otimistas, recuperação vem em junho
De acordo com o economista do Itaú Unibanco, Pedro Renault, no melhor cenário, a queda da economia deverá mudar a partir de junho. “As estimativas mais pessimistas são de uma normalização mais lenta. E se isso acontecer, a queda pode ficar em 1,6%.” Segundo o Correio Braziliense, o banco ainda prevê a retração na economia global de 0,4%. Mas, vislumbra o avanço de 5,5% no PIB brasileiro em 2021.
Já o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, aposta na retomada lenta. Principalmente ao considerar a postura atual do presidente Jair Bolsonaro. “Esse comportamento dele não vai trazer tranquilidade, e vai ser muito difícil fazer o mega-ajuste fiscal necessário”, analisou. O especialista aponta queda no PIB do terceiro trimestre em 8% e retração no ano de 2,1%. Entretanto, não descarta a possibilidade de retração acima de 4%.