O Dia Internacional das Mulheres, comemorado em 8 de março, é sempre uma data relevante para trazer à tona as questões de luta e superação feminina.
E o momento atual é realmente bastante propício para jogar luz sobre a relação das mulheres e finanças.
Temos acompanhado números recentes que mostram o quanto elas estão evoluindo suas participações no âmbito financeiro.
Mas, ainda existem lacunas que distanciam um mercado que movimenta mais de R$ 704 bilhões na economia do mercado de investimento.
Esse é apenas o montante da parcela de mulheres negras que são arrimo de família e poderiam usufruir da educação financeira para diminuir as desigualdades entre classes.
E, por que isso não está acontecendo? Ou, pelo menos, não na velocidade que gostaríamos?
Foi para debater o momento atual da emancipação financeira das mulheres que Paula Reis, trader e fundadora do canal “Mulher Trader”, do Youtube; Astrid Lacerda, fundadora e CEO da WOMA, consultoria de finanças para mulheres e Mônica Costa, fundadora do G&P, programa de Finanças para Mulheres Negras, se encontraram em um evento organizado pela B3.
Por que ainda é tão importante falar de equanimidade de gêneros em pleno 2022?
Para a consultora Astrid Lacerda não tem como existir qualquer tipo de igualdade, sem igualdade financeira.
Esse é um ponto ainda mais relevante quando abordamos a disparidade que existe na relação entre dinheiro e mulheres.
“As mulheres estão há pouco tempo no ‘jogo’. Passamos a ter direito a um CPF próprio somente em 1962. Trata-se de um período curto para a emancipação financeira da mulher. Além disso, existe ainda uma grande diferença salarial”, diz.
E complementa: “A autonomia financeira não se trata somente de gerar renda. Mas, sim, de decidir o que será feito com o fruto do trabalho, de tomar decisões e de fazer escolhas. Trata de não esperar que alguém assuma o papel de cuidar”, comenta Astrid.
Ela acrescenta: “Nós, mulheres, ainda não temos a segurança de fazer as escolhas financeiras. Esse medo nos impede de entrar no mundo dos investimentos.
Prover a nossa própria segurança financeira ainda é desafiador. Ainda tem muita coisa para mudar. Mas, já vemos as mulheres ocupando esse espaço”, se anima.
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Qual a importância de levar a emancipação financeira para as mulheres?
“Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da comunidade se movimenta com ela”, essa frase é de Angela Davis, filósofa norte-americana, e sinaliza a necessidade de desmontar a base da pirâmide social como a conhecemos hoje.
“Estamos falando de uma população que representa 28% da população brasileira. São 60 milhões de pessoas. É muita gente que está ‘invisível’”, constata Mônica Costa, Fundadora do G&P Finanças para Mulheres Negras.
Ela destaca ainda a desigualdade histórica enfrentada. “No caso da população negra, as mulheres já trabalham e são arrimos de família há mais de 100 anos. Isso porque os maridos não tinham o direito ao trabalho no começo do século XX. Eram elas que empreendiam. Portanto, sempre tivemos talento e capacidade para trabalhar, o que não tivemos foi espaço”, destaca.
Um mercado ignorado que representa 10% do PIB
“As mulheres negras, ainda hoje, são a base das famílias brasileiras; 40% dos domicílios são mantidos por elas. Este público, que representa quase 30% da população e movimenta mais de R$ 704 bilhões da economia, não está na bolsa. Percebam quantos recursos poderiam entrar. Essa é uma parcela muito importante da população, que está na base da pirâmide social, recebendo os piores salários. E ainda sim, representa quase 10% do PIB Nacional.”, diz.
“Se esse público tiver a oportunidade de ingressar neste mercado, será que a sociedade como um todo não irá se movimentar?”, dimensiona Mônica.
“Os investimentos podem proporcionar uma melhor qualidade de vida”
“A educação financeira é ainda mais ausente entre a população negra, pois ela tem acesso a menos recursos.
“Eu tinha essa dor. Fui buscar conhecimento para proteger a mim e aos meus filhos e percebi que eu não era a única.
E o programa G&P surgiu a partir disso. Se não nos protegermos agora, mais uma geração ficará à mercê”, analisa Mônica.

Reprodução/Pixabay
Quais são as práticas que podem levar à emancipação financeira feminina?
“Tem que haver um espaço para que essas mulheres fiquem mais confortáveis”, atenta Astrid Lacerda.
E foi com este objetivo que a fundadora e CEO da WOMA desenvolveu o seu trabalho de consultoria e mentoria.
“Quando comecei, muitos me perguntavam por que falar só para as mulheres? Porque os homens já tinham outros homens para falar com eles, eu respondia. O tema ainda é um tabu na forma como a sociedade vê as mulheres com dinheiro e poder. As mulheres ficam mais confortáveis em falar sobre dinheiro com outra mulher”, observa.
Como colocar em prática a emancipação financeira feminina?
Para Astrid Lacerda são três passos:
- Procure ouvir outras mulheres: na visão da consultora “elas já ‘pagaram o preço de ser mulher’ e já viveram alguma situação parecida;
- Procure pessoas que se relacionem com um estilo de vida que você se identifica: isso, segundo ela, ajuda a neutralizar o sentimento de exclusão, assim que tiver o primeiro contato com este universo. “Não escute gurus com fórmulas prontas. Lidar com finanças para mulheres não se trata de números. Mas, sim, do contexto em que estamos inseridas”, destaca.
- Entenda seu tempo: Astrid frisa que cuidar do dinheiro é algo para o resto da vida. “Não terceirize isso. Independentemente de quando começar, você vai terminar com alguma coisa”.
Empatia é importante para alcançar o mercado financeiro
Mônica Costa complementa que “sentir a mesma dor” é importante para superar o medo e o desconhecimento do mercado financeiro.
“Hoje, as mulheres são 26% na bolsa de valores, mas elas ainda estão muito afeitas à renda fixa.
Ainda não se sentem seguras para fazer investimentos mais arrojados, porque o mercado exige uma postura de embate, que não é do perfil feminino. As mulheres têm outros tipos de estratégia.
Para superar isso, é preciso se aproximar mais do mercado para se apropriar mais. É preciso conhecer esse lugar, caminhar aos poucos, ouvir outras mulheres que já passaram por isso”, ressalta.
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Qual a maior dificuldade da mulher para se emancipar nas finanças?
“Elas não veem essa dificuldade, mas sim o sintoma manifestado. É algo que fica inconsciente”, analisa Astrid Lacerda.
Para ela, as mulheres ainda precisam superar barreiras que são colocadas durante sua criação.
“Existe a questão da necessidade do ‘resgate romântico’, que é construída pela sociedade em torno da figura masculina.
Isso nos leva a acreditar que cabe aos homens o papel de provedores. A mulher precisa renunciar a essa fantasia para cuidar de si própria. Compreender que ninguém irá resgatá-la”, adverte a consultora.
“Neste discurso, as mensagens ditas às mulheres é que elas não têm segurança para prover a sua própria segurança. Para mudar isso, temos que começar a falar de dinheiro. Sair da inércia.
Mulher e dinheiro não podem ter uma associação negativa. É preciso tomar a responsabilidade para si. Saber que a segurança virá da própria competência. É cruel pensar o contrário”, critica.
Dependência emocional x dependência financeira
A consultora do WOMA destaca ainda como a correlação como dependência emocional se relaciona com o dinheiro dentro do universo feminino.
“Mesmo quando a mulher está cuidando das suas finanças, sente culpa de fazer algo para ela. Sempre pensa em terceiros. Elas cuidam muito do outro e nunca delas mesmas”, considera.
“É um dever das mulheres cuidar do seu dinheiro”
“É preciso saber que nós temos a mesma capacidade que os homens de cuidar de nossas finanças. Não há um gene que nos diferencie nesse sentido. Trata-se, portanto, de uma questão social”, comenta Astrid.
E a consultora completa: “É seu dever saber sobre dinheiro, mulheres. Falem sobre isso. Falem umas com as outras”, orienta Astrid.
Emancipação financeira: em quem as mulheres podem se apoiar na educação financeira?
Para Mônica Costa, os primeiros aprendizados devem ser observados em casa.
“As mulheres da minha casa foram minhas primeiras inspirações. Minha avó e minha mãe me mostraram como elas sabiam administrar o pouco que tínhamos. Minha dica para quem está começando é olhar para quem veio antes de você”, recomenda.
Astrid concorda. “Minha mãe me ensinou muito, porque sofreu na época do divórcio. Ela abriu mão de seu patrimônio para cuidar das duas filhas. Era uma questão de vida ou morte.
Tive o privilégio de ter tido uma mãe que me instruiu. Não podemos permitir que as mulheres continuem ‘pagando o preço de serem mulheres’”, finaliza.
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