Nesta terça-feira (3) é retomado os depoimentos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia do Senado. O reverendo Amílton Gomes de Paula foi o primeiro a ser ouvido. Ele é fundador da Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos (Senah), uma organização sem fins lucrativos (ONG).
A CPI investiga se ele teria tentado intermediar a aquisição de vacinas contra a Covid-19 pelo governo brasileiro por meio da empresa Davati Medical Supply. Aos senadores, ele negou conhecer pessoas ou ter influência para intermediar a negociação.
De acordo com o reverendo, ele conseguiu três reuniões com a cúpula do ministério por meio de e-mails enviados por ele à pasta.
As audiências ocorreram nos dias 22 de fevereiro e 2 e 12 de março deste ano. “Eu não tinha contatos. Os contatos que eu tinha eram sempre de forma formal, eletrônica”, garantiu.
Amilton de Paula afirmou que sua atuação se limitou a indicar para o Ministério da Saúde alguém que teria imunizantes. Além disso, também afirmou que foi usado pela Davati Medical Supply, empresa investigada pela comissão por suas tratativas sobre vacinas com o governo federal.
Conforme o reverendo, ele foi procurado pelo policial militar Luiz Paulo Dominghetti, suposto negociante de vacinas, em 16 de fevereiro.
Na ocasião, Dominghetti teria comentado sobre a entrega de 400 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca em até oito dias, por US$ 3,97 a dose. “Entendemos que fomos usados de maneira ardilosa para fins espúrios e que desconhecemos. Vimos um trabalho de mais de 22 anos de uma ONG, entidade séria, voltada para ações humanitárias, educacionais, jogado na lama, trazendo prejuízo na sua credibilidade e atingindo seus integrantes nas relações profissionais e familiares”, avaliou.
Audiência no Ministério da Saúde
Sobre a primeira audiência no Ministério da Saúde, no dia 22 de fevereiro, às 12h50, Amilton de Paula disse que encaminhou um e-mail ao Ministério da Saúde solicitando um encontro para o mesmo dia, às 16h30.
O assunto seria a compra das vacinas e o reverendo foi atendido prontamente. “O senhor mandou e-mail às 12h, apontou o horário que queria ser recebido e no mesmo dia isso ocorreu. Queria essa eficiência do governo também com a Pfizer. O que nos espanta é que farmacêuticas de todo o mundo não tiveram esse tipo de tratamento”, disse o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).
O presidente do colegiado, senador Omar Aziz (MDB-AM), também disse não acreditar na versão. Ainda mais, Aziz comentou que se ele levasse uma comitiva de prefeitos de qualquer lugar do país ao ministério teria dificuldade para ter um espaço na agenda, principalmente numa época de pandemia.
Ao reafirmar por diversas vezes que não tinha contatos no governo federal, o reverendo explicou porque acha que foi atendido prontamente com o pedido de audiência. “Fui lá como embaixador mundial da paz”, disse. “Imagino que por causa da escassez [de vacinas] que estávamos vivendo, fomos recebidos”, acrescentou.
A data que teria tido a última reunião no Ministério da Saúde seria no dia 12 de março. O encontro foi com o então secretário-executivo da pasta, coronel Élcio Franco. Na ocasião, houve a apresentação da oferta de 400 milhões de doses de vacina da AstraZeneca. “A reunião foi muito rápida”, destacou Amilton.
Quebras de sigilo
A nova etapa da comissão deve aprofundar as investigações sobre negociações de vacinas envolvendo intermediários. Na primeira parte da reunião de hoje, durante votação de requerimentos, 129 dos 135 que estavam na pauta foram aprovados. Um deles foi a quebra de sigilo da empresa VTCLog, atual encarregada da logística para a entrega de vacinas.
Além disso, outro aprovado é o que quebra os sigilos telefônico, fiscal, bancário e telemático do líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR). Barros foi citado no depoimento a CPI dos irmãos Luís Ricardo, servidor do Ministério da Saúde, e Luís Miranda, deputado federal (DEM-DF).
De acordo com os irmãos, Barros estava envolvido em um suposto esquema de corrupção na compra da vacina Covaxin. Luís Miranda também teve os sigilos quebrados.
Por fim, entre outros dos requerimentos aprovados, há um pedido de afastamento de Mayra Pinheiro. Atualmente, ela está no cargo de secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde. Além disso, houve nova convocação do ex-secretário executivo da pasta Élcio Franco.