Para além do impacto na saúde da população mundial, o coronavírus tem deixado claro que outra devastação está por vir: a econômica. Uma recessão mundial avança a olhos vistos enquanto o vírus se alastra pelos continentes. Quanto tempo ela irá durar? Semanas, meses, anos? Ninguém sabe. Mas é certo que, com as paralisações e quarentenas que se espalham por territórios, o temor do desemprego, da falência de milhares de empresas e da miséria está batendo à porta não só do Brasil como de vários outros países do mundo. A economia global está em crise.
Os ingredientes para a crise estão formados. Grande parte da população está isolada em casa. O varejo fechou as portas para conter a propagação do vírus. E fábricas tiveram que paralisar ou reduzir suas produções. Em algum tempo, o resultado dessa combinação será inevitável para a economia global: demissões em massa e quebra de empresa.
Em artigo publicado sexta-feira (20) no The New York Times, o Dr. David Katz, diretor do Centro de Prevenção e Pesquisa da Universidade de Yale, disse que há três objetivos neste momento: salvar tantas vidas quanto possível, garantindo que o sistema de saúde não entre em colapso. “Mas também garantir que no processo de atingir os dois primeiros objetivos não destruamos nossa economia e, como resultado disso, ainda mais vidas”. A questão é: como fazer isso?
Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, ou clube dos países ricos), afirmou que o choque econômico já é maior do que a crise financeira de 2008 e de 2001. Segundo ele, um crescimento global previsto para 2020 de 1,5% já soa otimista demais.
A previsão é que quase todas as grandes economias do mundo entrarão em recessão. Ou seja, sofrerão declínio econômico por, no mínimo, dois trimestres consecutivos.
Diferentes cenários e impactos na economia global
A empresa de consultoria empresarial norte-americana McKinsey & Company divulgou um estudo em 9 de março projetando três possíveis cenários para a economia mundial com a pandemia do coronavírus. Vamos conferir os diferentes cenários para a economia global:
1: Rápida recuperação: nesta projeção, a expectativa de crescimento do PIB mundial cairia de 2,5% para 2%. Neste cenário, uma baixa taxa de mortalidade entre a população ativa no mercado de trabalho. Isso, combinado a uma resposta rápida dos mecanismos de saúde pública, faria com que o período de shutdown da economia tivesse duração limitada. O cenário conta com a hipótese de que o vírus é sazonal. Isso faria com que seu comportamento fosse distinto nas diferentes regiões do mundo.
2: Desaceleração global: a economia se recuperaria no final do segundo trimestre. Isso levaria o PIB mundial a ter crescimento entre 1% e 1,5% em 2020. Neste caso, os países teriam dificuldade em replicar medidas severas de saúde pública. Assim, contribuiria para o crescimento do número de casos.
3: Pandemia global: PIB mundial entre queda de 1,5% e crescimento de 0,5%. No pior cenário, o coronavírus teria impacto em todo o mundo, já que a hipótese é de que o vírus não seria sazonal. Assim, a pandemia não perderia força mesmo com o início da primavera no hemisfério norte. A economia mundial experimentaria um choque de demanda ao longo do ano. Alguns sistemas de saúde ficariam sobrecarregados diante da escala dos impactos.
Entre os setores mais afetados pela crise, de acordo com a McKinsey & Company, estão turismo e hotelaria, aviação, óleo e gás, automotivo, alimentos e eletrônicos.
Tudo está parado
Assim como o Brasil vários outros países tomaram a atitude de determinar quarentena à população. Ações como fechamento de comércios, shoppings e outros serviços não essenciais se tornaram comuns nos últimos dias. China e Itália, dois dos países com mais número de casos e de mortes, também ficaram longos períodos em quarentena.
Em Hubei, epicentro da pandemia na China, parte das restrições aos 50 milhões de habitantes só terminaram nesta quarta-feira (25). Eles estavam com aeroportos, estações ferroviárias, e comércios fechados desde janeiro. No entanto, as escolas permanecem fechadas e os moradores só poderão deixar a cidade após 8 de abril.
Na Itália, que ainda registra expansão de casos e de mortes, os serviços não essenciais estão fechados desde 11 de março. Isso inclui restaurantes, bares, cafés e shoppings.
Medidas semelhantes foram tomadas nos Estados Unidos, Canadá, Espanha, Alemanha, Suíça, Irã, França, Áustria, Grécia, Dinamarca, Peru, Argentina, Honduras, entre muitos outros. Na terça-feira (24), a Índia impôs isolamento a 1,3 bilhões de pessoas, o maior isolamento populacional do mundo.
Em reunião na quinta-feira (26), os países do G20 anunciaram uma injeção conjunta de U$ 5 trilhões na economia global. A medida vai ajudar a tirar do papel uma série de medidas no combate a proliferação do vírus. Mas será suficiente?
As consequências no Brasil
Mas de que forma as quarentenas irão impactar a economia nos próximos meses?
No Brasil, grandes lojas varejistas fecharam fábricas e recomendaram a paralisação de lojas, afetando toda a cadeia produtiva. Empresas como Via Varejo, Confecções Guararapes, Lojas Marisa, Lojas Renner, Magazine Luiza e Cia Hering tomaram estas medidas.
As principais montadoras do país, Honda, GM, Ford, Fiat, Toyota e BMW, paralisaram a produção de carros no país. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) informou nesta segunda-feira (23) que as suas associadas já registram queda de 75% na demanda por voos domésticos. Houve também redução de 95% no mercado internacional nesta semana, em relação a igual período de 2019.
Com os fechamentos dos grandes e dos pequenos comércios, a expectativa é de “quebradeira” nos próximos meses. A Abrasel (Associação de Bares e Restaurante de São Paulo) diz que, na melhor das hipóteses, 10% dos estabelecimentos da capital paulista devem fechar com a crise.
Um estudo da FGV estima que PIB brasileiro pode ter retração de até 4,4 em 2020. A última projeção do governo federal fez cair a expectativa de crescimento da economia para este ano. Antes se esperava um crescimento de 2,5% e, agora, um “crescimento” de 0,02%.
Além dos impactos econômicos que serão sentidos nas próximas semanas, a dificuldade também estará em recuperar a confiança do consumidor. Dados divulgados terça-feira (24) mostram que houve queda de 7,6 pontos no Índice de Confiança do Consumidor em março. O patamar de 80,2 pontos é o mais baixo desde janeiro de 2017.
China ainda calcula impactos
Quase quatro meses após o primeiro contato com o coronavírus e agora com a diminuição do número de casos, a China ainda contabiliza os impactos econômicos com as medidas adotadas. Mas os números divulgados recentemente revelam um cenário sombrio. E, sendo a China um grande importador e exportador brasileiro e mundial, as consequências dos impactos na economia chinesa também serão sentidos em todo o mundo.
O Escritório Nacional de Estatística da China registrou quedas recordes na produção industrial, varejo e investimentos em ativos fixo.
A produção industrial (que mede as atividades de manufatura, mineração e serviços públicos) caiu 13,5% no comparativo anual, a primeira contração desde janeiro de 1990.
As vendas no varejo caíram 20,5% na China em relação ao ano anterior, o maior declínio da série histórica.
Já os investimentos em ativos fixos — despesas com itens que incluem infraestrutura, propriedades, máquinas e equipamentos — caíram 24,5% no período. Outra redução recorde.
Segundo especialistas, os dados revelam a escala dos danos causados pelo coronavírus e vão aumentar os temores de uma recessão.
No início deste mês, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) previu que a pandemia poderia custar à economia global até US$ 2 trilhões neste ano (cerca de R$ 10 trilhões).