Wuhan é a capital e maior cidade da província de Hubei na China. A cidade mais populosa da China Central, com mais de 11 milhões de habitante, é centro também de uma crise mundial de saúde, onde estão a maior parte dos atingidos pelo coronavírus. Entre o rio Yangtze e o rio Han os habitantes da metrópole descrevem como “filme de terror” e “cenário caótico” os hospitais da cidade.
Corredores lotados, pacientes abandonados e uma espera angustiante e interminável. Assim é o quadro no epicentro da crise, que está de quarentena desde a quinta-feira (23). Wuhan e parte da província de Hubei estão isoladas. Os deslocamentos são mínimos e na maioria das vezes só permitidos por carros oficiais.
A epidemia gerou uma psicose na cidade. De acordo com relatos à agência de notícias AFP, muitas pessoas têm ido aos hospitais desesperadas para saber se contraíram o novo vírus. Não é para menos, os números crescem todos os dias, mas até a segunda-feira (27), dados oficiais davam conta de 1.985 casos confirmados na China, incluindo Hong Kong, Macau e Taiwan, com 81 mortes. Os casos suspeitos são 2.761.
Wuhan está com o tráfego de veículos suspenso. Outras cidades da província de Hebei estão adotando a paralisação do transporte público e admitem a possibilidade de fechar os acessos, para impedir a propagação, o que dificulta a saída de estrangeiros.
As escolas também estão em recesso. O governo chinês estuda prolongar o Ano Novo local, o maior feriado do país, que resulta no maior êxodo de pessoas do planeta, até 2 de fevereiro, só para que as pessoas não tenham que se deslocar ao trabalho ou à escola.
O vírus já chegou a Pequim, onde se registrou uma morte, o que faz o pânico aumentar.
Tentativas de contenção
O prefeito da cidade de Wuhan, Zhou Xianwang, disse nesta segunda-feira (27) que vai deixar o cargo. Em entrevista ao canal estatal CCTV, ele assumiu que sua gestão demorou para dar respostas e dados no início das suspeitas sobre a doença. “Nossos nomes viverão na infâmia”, afirmou.
Mas não é o único a se equivocar com a potência devastadora do vírus. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também teve que corrigir sua percepção da crise. Nessa segunda-feira, passou a classificar como “elevado” o risco internacional de contaminação pelo novo coronavírus. A avaliação anterior, por um “erro de formulação”, havia apontado o risco como “moderado”.
O ministro da Comissão Nacional de Saúde da China, Ma Xiaowei, disse que o novo coronavírus pode se espalhar antes mesmo do aparecimento de sintomas. Ma afirmou ainda que a capacidade de transmissão está se fortalecendo e reforçou as ações de contenção, que até agora incluem restrições de transporte e viagens e o cancelamento de grandes eventos.
Retirada de compatriotas
Ao redor do mundo, países se organizam para tentar retirar seus compatriotas da China, especialmente de Wuhan. Estados Unidos, Japão e França trabalham com o governo chinês para transportar, por avião, cidadãos de volta a seus países de origem em meio a isolamento de cidade. A Jordânia deve também deve tomar medida semelhantes. A Índia ainda não tomou nenhuma resolução, mas acompanha de perto a situação dos indianos na província.
A China suspendeu também viagens turísticas. Viagens ao exterior estão proibidas. As domésticas estão proibidas desde sexta-feira (24).
A província de Guangdong, a mais populosa da China, com 110 milhões de habitantes, passou a obrigar o uso de máscara respiratória. A província de Jiangxi segue o mesmo padrão.
Mortes e preocupação
Fora da China, já foram confirmadas 40 mortes. Mas esse número é de domingo (26) e precisa de constante atualização. Países que já identificaram mortes pelo novo coronavírus são Tailândia (7), Estados Unidos (5), Austrália (4), Malásia (4), Singapura (4), França (4), Japão (4) Coréia do Sul (3), Vietnã (2) e Arábia Saudita, Nepal e Canadá, todos com uma vítima cada.
Segundo o site da rede filipina ABS-CBN News, uma criança brasileira de 10 anos está internada nas Filipinas com suspeita de ter contraído o coronavírus. Ela esteve em Wuhan com os pais, que também estão em isolamento, por precaução.
“Há dois dias não durmo e fico andando de hospital em hospital. No melhor dos casos, irão me atender amanhã de manhã”, conta à AFP um chinês, de 30 anos, que está com febre e gostaria de ser examinado, mas prefere não se identificar à reportagem.
Segundo a AFP “na entrada do hospital, uma longa fila de doentes exercitam a paciência durante a longa espera. No local, aguardam sua vez para ser atendidos em pé ou sentados em pequenos bancos de plástico. Outros, mais prevenidos, trouxeram suas próprias cadeiras desmontáveis. Diante da multidão de pacientes, os esforços parecem insuficientes: a epidemia surgiu no país pouco antes do Ano Novo chinês, quando milhares de trabalhadores retornam para as suas cidades de origem, sobrecarregando o sistema de saúde de cada um desses locais.
“As enfermeiras são muito determinadas, mas o gerenciamento dessa situação é caótico”, diz uma chinesa de 60 anos. Segundo o seu relato, ela teve a sorte de “somente esperar cinco horas para ser atendida”.
Os hospitais estão saturados e a cidade começou a construir novos hospitais a toque de caixa. Cada nova unidade hospitalar terá um milhão de leitos, que estarão prontos em até duas semanas. De acordo com a agência chinesa Xinhua, a cidade tem quatro mil camas hospitalares para os pacientes contaminados e para casas suspeitos.
Não há lugares para todos, faltam medicamentos e os pacientes estão abandonados. O risco da epidemia se espalhar é real.
Mercados
E já afeta os mercados mundo afora. Os mercados financeiros da China podem permanecer fechados até pelo menos segunda-feira da semana que vem, dia 3 de fevereiro. É o efeito colateral da medida das autoridades chinesas em prorrogar o Ano Novo até o dia 2.
Não se sabe se as bolsas de valores de Xangai ou Shenzhen serão reabertas na sexta-feira (31), conforme planejado originalmente. A bolsa de valores da China, a segunda maior do mundo, teve negociações pela última vez em 23 de janeiro. O fechamento foi ruim, com queda de 2,8%, a pior véspera do Ano Novo em três décadas de história.
Em Wall Street, o vírus também fez suas baixas: as ações de empresas ligadas ao setor de turismo, como aéreas, hotéis e cassinos apresenta significativa baixa. Na Europa, o fechamento pode ser o pior em meses, pelo mesmo motivo.
O problema foi sentido também no Brasil, com a B3 operando em queda acentuada nesta segunda-feira (27), e com os investidores preocupados com os possíveis danos econômicos causados pela rápida disseminação do coronavírus. A Gerdau (GGBR4) liderava as perdas, caindo 7,15%. Usiminas (USIM5), JBS (JBSS3), BRF (BRFS3) e Eletrobras (ELET6) caíam mais de 6%.






