Há poucos anos, sair de casa sem dinheiro em espécie ainda era motivo de preocupação para muitos brasileiros. Hoje, basta um celular para pagar um café, uma corrida por aplicativo, uma refeição ou uma compra no supermercado. Essa mudança de comportamento, impulsionada pelo Pix, pelos pagamentos instantâneos, pela redução do dinheiro em espécie e pela transformação digital, colocou o Brasil entre os países que mais avançaram na modernização do sistema financeiro.
Os dados fazem parte do Global Payments Report 2026, estudo elaborado pela Global Payments, que acompanha há 11 anos o comportamento dos consumidores em 42 países e projeta tendências até 2030. O levantamento mostra que o modelo brasileiro deixou de ser apenas um caso de sucesso doméstico para se tornar referência internacional, influenciando a evolução dos meios de pagamento em diferentes mercados.
Em um cenário em que economias desenvolvidas ainda convivem com sistemas fragmentados, o Brasil consolidou uma infraestrutura de pagamentos instantâneos capaz de conectar consumidores, empresas e governo em tempo real. O resultado é uma mudança profunda na forma como as pessoas pagam, recebem e movimentam dinheiro.
Pix consolida uma nova era dos pagamentos
O levantamento aponta que o Pix se tornou a principal infraestrutura de pagamentos em tempo real do país. Em 2025, o sistema respondeu por 42% do valor transacionado no comércio eletrônico, superando inclusive os cartões de crédito, responsáveis por 40% das operações online. Nos estabelecimentos físicos, o Pix já representa 34% das transações, consolidando-se como uma das principais formas de pagamento utilizadas pelos brasileiros.
Segundo o estudo, o sucesso do sistema está diretamente ligado à combinação entre rapidez, segurança, disponibilidade permanente e baixo custo para consumidores e comerciantes. O relatório classifica o Pix como “a mais nova pedra angular” do cenário brasileiro de pagamentos, destacando sua capacidade de integrar bancos, carteiras digitais, empresas e órgãos públicos em uma mesma infraestrutura.
Para Juan Pablo D’Antiochia, vice-presidente para a América Latina da Global Payments, iniciativas como o Pix demonstram que inovação em pagamentos não significa apenas desenvolver novas tecnologias, mas criar soluções capazes de ampliar o acesso da população aos serviços financeiros e impulsionar a digitalização da economia.
Dinheiro em espécie perde protagonismo
O avanço dos pagamentos instantâneos também acelerou a redução do uso do dinheiro em espécie. De acordo com o Global Payments Report 2026, o dinheiro físico representa atualmente apenas 12% do valor movimentado nos pontos de venda brasileiros, percentual que coloca o país em um patamar semelhante ao observado em mercados como Reino Unido e Estados Unidos.
Na avaliação do estudo, essa mudança reflete uma transformação no comportamento do consumidor, que passou a priorizar meios de pagamento digitais pela praticidade e conveniência. Além disso, o crescimento das transferências entre contas, conhecidas como A2A (Account-to-Account), vem ampliando as alternativas aos modelos tradicionais baseados em cartões.
O relatório destaca ainda que o Pix continua sendo um dos principais responsáveis pela redução da circulação de dinheiro físico no país. Recursos incorporados recentemente à plataforma ampliaram sua utilização e contribuíram para tornar serviços financeiros mais acessíveis, fortalecendo a inclusão financeira em diferentes regiões brasileiras.
Brasil se torna referência internacional
O sucesso do sistema brasileiro começa a ultrapassar as fronteiras nacionais. O estudo mostra que o Pix já está disponível em países como Argentina, Chile, Portugal, Espanha e Estados Unidos para determinadas operações, enquanto cresce o número de comerciantes estrangeiros que aceitam o meio de pagamento.
Outra mudança observada é o avanço da experiência de turistas internacionais no Brasil. Consumidores argentinos, por exemplo, já conseguem realizar pagamentos via Pix utilizando aplicativos bancários locais, reduzindo barreiras para compras durante viagens e aproximando diferentes ecossistemas financeiros.
O relatório também destaca que o caso brasileiro reforça o papel da regulação pública como indutora de inovação. Para a Global Payments, o Pix tornou-se um exemplo de como políticas coordenadas podem estimular a modernização dos meios de pagamento, promover maior concorrência e criar um ambiente favorável ao desenvolvimento de novas soluções digitais.
O que esperar até 2030?
As projeções do Global Payments Report indicam que a transformação dos meios de pagamento deverá se intensificar nos próximos anos. Até 2030, o comércio eletrônico brasileiro deve movimentar cerca de US$ 597 bilhões, enquanto o mercado de pagamentos presenciais poderá alcançar US$ 729 bilhões**, refletindo o crescimento contínuo da economia digital.
Nesse cenário, a tendência é que os pagamentos conta a conta (A2A), categoria da qual o Pix faz parte, ampliem ainda mais sua participação. O estudo estima que esse modelo responderá por 46% das fontes de financiamento das carteiras digitais até o fim da década, evidenciando sua crescente relevância dentro do ecossistema financeiro.
Mesmo com a força dos pagamentos instantâneos, os cartões devem continuar desempenhando papel importante no mercado brasileiro, principalmente nas compras parceladas e em operações de maior valor. A expectativa, contudo, é de um ambiente cada vez mais integrado, em que diferentes meios de pagamento convivam de forma complementar dentro de aplicativos e carteiras digitais.
Mais do que substituir o dinheiro em espécie, o Pix tornou-se símbolo de uma transformação estrutural na economia brasileira. Ao combinar tecnologia, inclusão financeira e inovação regulatória, o sistema redesenhou a forma como consumidores e empresas realizam transações e consolidou o Brasil como uma das principais referências globais em pagamentos digitais.
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