O ouro aprofunda o movimento de queda de livre iniciado na sexta-feira (30) e já acumula um recuo de cerca de 17% desde a máxima histórica registrada na semana passada, quando o metal tocou a região de US$ 5.595 por onça. A correção marca uma reversão abrupta após um rali considerado excessivo por analistas, impulsionado por forte fluxo especulativo e entrada de recursos via ETFs.
O movimento ganhou força após o anúncio de Kevin Warsh como futuro presidente do Federal Reserve (Fed), decisão que ajudou a reduzir as preocupações do mercado com uma eventual interferência política na condução da política monetária dos Estados Unidos.
A leitura predominante é de que Warsh deve adotar uma postura mais firme em relação aos juros, o que fortaleceu o dólar e pressionou ativos sensíveis ao custo de oportunidade, como o ouro.
“Com base em sua passagem anterior pelo Fed, ele parece ser ideologicamente o oposto do que o presidente buscava inicialmente”, afirmou Kathy Jones, estrategista-chefe de renda fixa do Schwab Center for Financial Research, em comentário divulgado nesta segunda-feira.
Segundo a especialista, a indicação foi interpretada por Wall Street como um sinal de preservação da independência do banco central, afastando o risco de uma política monetária excessivamente frouxa diante do atual cenário econômico.
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Desde o pico registrado na quinta-feira (29), a correção se espalhou por todo o complexo de metais preciosos. A prata acumula queda de aproximadamente 36%, a platina recua cerca de 26%, enquanto o ouro lidera o ajuste em um movimento marcado pelo desfazimento de posições concentradas.
A prata, em especial, registrou seu pior desempenho diário desde março de 1980, refletindo sua maior volatilidade histórica em períodos de reversão.
A leitura predominante entre analistas é de que o movimento atual é uma correção técnica profunda, e não necessariamente uma quebra da tese estrutural do ouro no longo prazo. Após meses de valorização quase ininterrupta, o metal passou a sofrer com a combinação de realização de lucros, fortalecimento do dólar e reprecificação das expectativas para a política monetária americana.
A mudança de percepção em relação ao Fed elevou o custo de oportunidade de manter posições em ativos que não oferecem rendimento, como o ouro, ao mesmo tempo em que aumentou a atratividade relativa dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Esse ambiente acelerou a saída de capital dos metais preciosos e ampliou a volatilidade nos últimos pregões.
Região de US$ 4.270 vira ponto-chave no curto prazo
Na análise técnica, o time de estrategistas do Société Générale, liderado por Kenneth Broux, avalia que o ouro passou a testar níveis relevantes de suporte após a reversão recente. Segundo o banco, o metal se aproxima da linha de tendência ascendente traçada desde outubro do ano passado, além da média móvel de 50 dias, considerada uma referência importante para o curto prazo.
Reprodução Société Générale
“A possibilidade de a queda estagnar em torno dessa média móvel será crucial para determinar a direção do preço no curto prazo. Caso a tendência de baixa se estenda ainda mais, os próximos suportes potenciais podem estar localizados na mínima atingida em janeiro, na faixa entre US$ 4.310 e US$ 4.270”, escreveu Broux em relatório enviado a clientes nesta segunda-feira (2).
Análise semelhante aparece em comentários da Charles Schwab, que destacam que a queda dos metais ocorreu em paralelo à valorização do dólar após o anúncio de Warsh.
De acordo com a instituição, o movimento ajudou a aliviar os temores do mercado sobre a perda de credibilidade do Fed e reforçou a reprecificação das expectativas de juros, aumentando a pressão sobre o complexo de metais preciosos no curto prazo.