O Brasil convive com um paradoxo: o emprego está nas mínimas históricas, a massa salarial cresce e os rendimentos sobem acima da inflação. Mas, ao mesmo tempo, o endividamento das famílias e do setor público avança em ritmo muito mais acelerado, corroendo silenciosamente os ganhos da população mais vulnerável.
É essa contradição que a consultoria Pezco coloca no centro de sua mais recente análise. Segundo o relatório, a combinação de políticas fiscal e parafiscal expansionistas com juros elevados está aprofundando a desigualdade de riqueza no país — ainda que o discurso oficial seja o oposto.
O peso da dívida sobre as famílias
O número mais impactante do estudo é direto: “somente em 2025, as famílias endividadas teriam desembolsado cerca de R$ 256 bilhões em juros”, aponta o relatório da Pezco. O valor já desconta a inadimplência.
Para contextualizar a magnitude, basta olhar a trajetória recente. A conta de juros das famílias saltou de R$ 170 bilhões antes da pandemia para R$ 330 bilhões nos 12 meses encerrados em fevereiro de 2026 – uma alta de 83% em termos reais desde 2020.
No mesmo período, a renda real cresceu apenas 21%. “A comparação da evolução do ônus financeiro vis a vis os rendimentos do trabalho é mais cruel”, destaca o documento.
Fonte: Estimativas Pezco com base em dados do Banco Central do Brasil
Para onde vai o dinheiro dos devedores
A Pezco foi além e rastreou o destino dos juros pagos pelas famílias em 2025. O resultado expõe uma transferência de renda estrutural e pouco debatida no país.
Dos R$ 256 bilhões desembolsados, cerca de R$ 90 bilhões foram absorvidos por custos administrativos dos bancos e pela inflação. O restante foi distribuído entre três grupos: “cerca de R$ 42 bilhões foram para o governo, R$ 40 bilhões para o lucro dos bancos e R$ 84 bilhões para os poupadores”, segundo o relatório.
A consultoria ressalta que esse cálculo subestima o fenômeno. “O benefício para os rentistas não se resume aos R$ 84 bilhões estimados. Esse é apenas o componente extraído diretamente dos indivíduos devedores”, alerta o documento.
Um dos achados mais reveladores do estudo diz respeito à relação entre crescimento salarial e endividamento na década atual.
Enquanto a massa salarial cresceu R$ 320 bilhões por ano desde 2020, a conta de juros ficou R$ 150 bilhões maior no mesmo período. Em outras palavras, 50% de todo o incremento de renda do trabalho foi consumido pelo custo da dívida.
O dado evidencia que o crescimento econômico recente beneficia principalmente quem já tem patrimônio acumulado.
A armadilha da média e o debate sobre política econômica
A Pezco critica o uso da renda média como termômetro de bem-estar social. Olhar apenas para os agregados esconde a profunda assimetria entre credores e devedores dentro do próprio grupo das famílias.
“A média pode ocultar muita coisa”, adverte o estudo. Quem tem ativos financeiros se beneficia dos juros altos; quem tem dívidas, paga a conta — e essa divisão tende a seguir linhas de renda e patrimônio.
Para a consultoria, o diagnóstico aponta para uma contradição central na condução econômica do país.
“Políticas fiscal e parafiscal agressivamente expansionistas exigindo aperto do lado monetário” geram, como consequência, “uma gigantesca transferência de renda”, conclui o relatório.
O problema, segundo a Pezco, é que esse mecanismo opera sob uma “camuflagem distributivista” — enquanto o discurso é de redução da desigualdade, a engrenagem dos juros trabalha na direção oposta.
EuQueroInvestir News: Tudo sobre investimentos, de segunda a sexta, no seu e-mail!