A antecipação de gastos pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste ciclo eleitoral “guarda poucos paralelos nos 30 anos das séries”, segundo avaliação do economista Fernando Montero, da Tullet Prebon Brasil em um relatório enviado a clientes nesta sexta-feira (19).
O movimento ocorre em um momento de deterioração das contas públicas, com o Tesouro Nacional registrando déficit estimado de R$ 54,5 bilhões em maio, acima dos R$ 40,2 bilhões de igual mês de 2025 e também superior à mediana das projeções de mercado.
O resultado de maio contribui para um aumento significativo no déficit acumulado em 12 meses, que deve saltar de R$ 126,2 bilhões até abril para R$ 140,4 bilhões até maio.
Em termos anuais, a deterioração é ainda mais expressiva: o país sai de um superávit de R$ 19,8 bilhões em igual período do ano passado para um rombo estimado em R$ 143,7 bilhões, evidenciando uma inversão relevante no quadro fiscal.

Despesas avançam bem acima das receitas
A piora nas contas públicas é explicada principalmente pelo avanço acelerado das despesas. Em maio, a arrecadação líquida deve apresentar crescimento real de 4,9%, enquanto os gastos avançam em ritmo bem mais forte, de 9,4%.
O destaque fica para as despesas discricionárias, que tiveram salto de R$ 16,9 bilhões, equivalente a alta de mais de 130%.
Esse movimento reflete uma mudança de timing na execução orçamentária. Em 2025, parte relevante desses gastos havia sido postergada para o segundo semestre, enquanto em 2026 houve antecipação das liberações, concentrando despesas nos primeiros meses do ano.
“Se o ano passado adiou, este ano antecipa”, resume a análise.
Sazonalidade distorcida e efeito eleitoral
No acumulado do ano até maio, a diferença entre receitas e despesas se torna ainda mais evidente. As receitas líquidas cresceram R$ 48,1 bilhões, avanço real de 4,7%, enquanto as despesas aumentaram R$ 129,1 bilhões, ou 13,1% em termos reais. Esse ritmo de expansão dos gastos, segundo a avaliação, é incomum, mesmo considerando bases de comparação elevadas.
A antecipação de despesas altera a sazonalidade das contas públicas e da renda ao longo do ano, concentrando estímulos fiscais no primeiro semestre. Esse padrão está associado ao ciclo eleitoral e tende a ser revertido parcialmente nos meses seguintes, mas gera ruído relevante na leitura dos indicadores fiscais de curto prazo.
Pressão segue no curto prazo, com alívio depois
A tendência é que os números continuem pressionados em junho, com impacto adicional de emendas parlamentares, precatórios remanescentes, reajustes salariais e esforços do governo para reduzir filas de programas públicos. Esse conjunto de fatores deve levar o déficit primário ao pior momento nos 12 meses encerrados no meio do ano.
No entanto, a expectativa é de algum alívio a partir do segundo semestre, especialmente em julho, quando a base de comparação passa a incorporar os pagamentos elevados realizados no ano anterior. Ainda assim, a projeção aponta para um déficit federal em torno de 0,6% do PIB em 2026.
Além do resultado primário, o quadro fiscal mais amplo também preocupa. O déficit nominal deve atingir cerca de 10,1% do PIB nos 12 meses até junho, pressionado pela alta das despesas com juros. Esse número pode variar conforme o comportamento do câmbio, um fator relevante na contabilização de operações como swaps cambiais.
No consolidado do setor público, que inclui estados e estatais, o déficit pode alcançar 1,2% do PIB no pior momento do ano, refletindo o efeito simultâneo do ciclo eleitoral sobre diferentes esferas de governo. Apesar de uma possível melhora posterior, a trajetória reforça o desafio fiscal no curto prazo.






