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Fitch vê dívida em alta e déficit como entraves para rating maior

Fitch vê dívida em alta e déficit como entraves para rating maior

Cenário político polarizado e indefinições sobre reformas fiscais pesam na avaliação da agência de risco

A Fitch Ratings reafirmou nesta terça-feira (16) o rating de crédito de longo prazo do Brasil em “BB”, com perspectiva estável, mantendo o país dois níveis abaixo do grau de investimento. A decisão reflete o equilíbrio entre a força estrutural da economia brasileira e fragilidades persistentes, especialmente no campo fiscal.

“A classificação é limitada pelo alto e crescente endividamento do governo, rigidez orçamentária e crescimento potencial relativamente baixo, com incertezas fiscais permanecendo como risco macroeconômico relevante”, destacou a agência.

Pressão fiscal continua no centro da avaliação

O principal ponto de atenção da Fitch é a deterioração das contas públicas. A agência projeta que o déficit do governo geral avance para 8,6% do PIB em 2026, ante 8,1% em 2025, patamar significativamente superior à mediana de países com mesma classificação de risco. A expectativa é de leve recuo para 8% em 2027, ainda em níveis elevados.

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“Déficits fiscais persistentemente altos deixam a economia mais exposta a choques e mudanças no sentimento dos investidores”, afirmou a Fitch.

A agência ressalta que, embora o déficit primário federal deva cair para 0,4% do PIB em 2026, em linha com o teto da regra fiscal, a incerteza sobre a política econômica futura permanece elevada.

Dívida em trajetória de alta

A dinâmica da dívida pública também pesa negativamente na avaliação. Após atingir 78,6% do PIB em 2025, a dívida geral deve ultrapassar 80% do PIB em 2026, com tendência de crescimento adicional nos anos seguintes. Esse avanço é impulsionado principalmente pelo elevado custo de juros e pela dificuldade de produzir ajustes estruturais.

Apesar disso, a Fitch reconhece mitigadores relevantes. “A baixa participação da dívida em moeda estrangeira, a forte liquidez do Tesouro e a gestão eficiente de passivos ajudam a reduzir os riscos associados ao alto nível de endividamento”, apontou a agência.

Incerteza política com eleições

O cenário político doméstico é outro fator relevante para o rating. A Fitch projeta uma disputa acirrada nas eleições presidenciais de 2026, entre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flavio Bolsonaro, em um ambiente de forte polarização.

“A orientação da política econômica e fiscal deverá variar de acordo com o vencedor, com diferentes abordagens para gastos, tributação e reformas”, afirmou a agência.

Segundo a Fitch, um eventual novo mandato de Lula indicaria continuidade das políticas atuais, com ênfase em programas sociais, enquanto um governo Bolsonaro poderia adotar agenda mais voltada ao mercado, ainda que com incertezas sobre implementação.

Crescimento resiliente sustenta avaliação

Apesar das pressões fiscais, a economia brasileira mantém desempenho considerado resiliente. A Fitch projeta crescimento do PIB de 2,1% em 2026, sustentado pelo consumo das famílias, mercado de trabalho forte, desemprego historicamente baixo e ganhos reais de salários.

“A atividade econômica segue apoiada por fundamentos domésticos sólidos, incluindo a reforma do imposto de renda aprovada em 2025, que favoreceu o consumo”, destacou a agência. Para 2027, no entanto, é esperada desaceleração para 1,7%, refletindo os efeitos defasados da política monetária mais restritiva e menor estímulo fiscal.

Inflação elevada e juros mais altos por mais tempo

No campo inflacionário, a Fitch vê pressões relevantes no curto prazo. A inflação deve atingir 5% ao final de 2026, acima do limite superior da meta, antes de recuar para 4% em 2027. O movimento é explicado por inflação elevada de serviços, aumento nos preços de alimentos e choques externos de energia.

“A persistência de pressões inflacionárias deve resultar em um ritmo mais lento de queda dos juros”, avaliou a agência. A expectativa é que a taxa Selic encerre 2026 em 13%, após cortes graduais ao longo do ano.

Contas externas seguem como ponto forte

Por outro lado, a Fitch ressalta a robustez da posição externa brasileira como um dos principais pilares do rating. O déficit em conta corrente permanece moderado e deve cair para 2,2% do PIB em 2026, com financiamento integral via investimento estrangeiro direto.

“As métricas externas do Brasil permanecem mais fortes do que as de seus pares, sustentadas por elevada liquidez e posição credora externa”, afirmou a agência. As reservas internacionais, em cerca de US$ 371 bilhões, também reforçam a resiliência do país frente a choques externos.