O lançamento do Desenrola 2.0, anunciado pelo presidente Lula no discurso do Dia do Trabalho, gerou críticas do economista Étore Sanhez, da Ativa Investimentos. Para ele, o programa não apenas representa um “incentivo perverso” à sociedade, como também parte de um diagnóstico equivocado do governo sobre as causas da queda de popularidade do presidente.
O novo programa é voltado a quem ganha até cinco salários mínimos — R$ 8.105,00 — e prevê taxa mensal máxima de 1,99%, com descontos sobre dívidas que variam de 30% a 90%. A novidade em relação à primeira edição é a possibilidade de uso parcial do FGTS, limitado a 20% do saldo, mediante desconto mínimo de 40% concedido pelo banco.
No caso do Fies, as dívidas poderão ser renegociadas com até 99% de desconto — o que Sanhez classifica como um perdão de dívida estudantil.
Na visão do economista, a lógica do programa é problemática.
“Trata-se de um incentivo perverso à sociedade que privilegia maus pagadores, inclusive com a possibilidade de que estes acessem uma poupança compulsória mal remunerada, o FGTS”, afirma Sanhez.
Desenrola
O risco, segundo ele, é que o programa produza um efeito inverso ao desejado: “o efeito pode inclusive ser invertido, estimulando bons pagadores a deixarem de honrar seus compromissos para se tornarem elegíveis ao programa, seja nesta edição ou em uma eventual próxima, visto que já estamos na versão 2.0”.
A comparação com a primeira edição do Desenrola reforça o ceticismo. “O Desenrola 1.0 fez com que a inadimplência caísse momentaneamente, mas atualmente os índices já superam muito as condições da primeira edição”, destaca o economista, que aponta a ausência de medidas educativas como um fator determinante para o fracasso estrutural do modelo.
Além das críticas ao programa, Sanhez questiona a leitura do governo sobre a conjuntura econômica. Para ele, o PT errou o diagnóstico ao responsabilizar apenas o endividamento das famílias pela piora na avaliação do presidente.
Inflação
“Temos argumentado que o governo tem negligenciado fatores macroeconômicos relevantes na análise da queda de popularidade ao classificar a conjuntura como muito positiva”, afirma. Em estudo recente, a Ativa apontou que a taxa de desemprego nos moldes pré-pandêmicos é quatro pontos percentuais maior do que a divulgada oficialmente.
“A inflação do custo de vida das famílias não apresenta o comportamento relativamente benigno que o IPCA tem mostrado”, conclui Sanhez — sugerindo que a percepção negativa da população sobre a economia tem fundamento real, ainda que os indicadores oficiais contem uma história diferente.
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