O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano, decisão amplamente esperada pelo mercado financeiro. A manutenção dos juros reforça o compromisso da política monetária com o controle da inflação, mas veio acompanhada de uma mudança relevante no tom do comunicado.
Para analistas, embora a decisão em si não tenha surpreendido, a sinalização futura ganhou peso. “O Copom decidiu manter a Taxa Selic em 15%, como o esperado. Porém, houve uma mudança na comunicação, apontando para o início do ciclo de flexibilização na próxima reunião, em março”, avalia Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Asset.
Segundo ele, a combinação de inflação mais baixa e os efeitos defasados da política monetária explicam essa inflexão no discurso, ainda que o Banco Central siga adotando uma postura prudente.
Inflação desacelera, mas Copom mantém cautela
Os dados mais recentes do IPCA-15 de janeiro indicaram alta de 0,20%, abaixo do resultado de dezembro e das expectativas do mercado. Apesar da desaceleração, a inflação acumulada em 12 meses permanece próxima de 4,5%, no limite superior da banda da meta, o que mantém o Copom em estado de alerta.
“A desaceleração é bem-vinda, mas ainda não é robusta o suficiente para justificar, por si só, um corte na Selic neste momento”, afirma Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Segundo ele, os núcleos de inflação continuam pressionados, mostrando que as pressões de preços seguem presentes na economia.
PublicidadePublicidade
Esse cenário explica a opção do Banco Central por manter os juros elevados, aguardando sinais mais consistentes de convergência inflacionária antes de acelerar qualquer flexibilização.
Divergências sobre o nível adequado da taxa Selic
A decisão também reacendeu críticas à condução da política monetária. Para a economista Tania Cristina Teixeira, presidenta do Cofecon, a manutenção da taxa Selic em níveis tão elevados representa uma postura excessivamente restritiva. “A inflação está sob controle e não há desancoragem das expectativas”, afirma.
Segundo ela, a inflação encerrou 2025 no menor patamar dos últimos seis anos, enquanto o resultado fiscal segue dentro da meta. “Em 2025, o déficit primário ficou em 0,1% do PIB, o que enfraquece o argumento de que o risco fiscal justifica juros tão altos”, diz Tania, que defende inclusive a revisão do regime de metas de inflação.
Mercado reage com ajuste e foco no futuro dos juros
No mercado financeiro, a decisão ocorreu em meio a um movimento de realização de lucros. O Ibovespa vinha de um rali recente e perdeu fôlego, especialmente em setores sensíveis aos juros, como bancos, consumo e construção civil.
“Com o índice esticado, qualquer mexida em dólar ou juros futuros vira desculpa para colocar parte do ganho no bolso”, explica Enrico Cozzolino, CEO da CZZ Capital. Segundo ele, a curva de juros futuros interrompeu a melhora recente, à espera de sinais mais claros do Banco Central.
Nesse contexto, a sinalização do Copom passou a ser mais relevante do que a decisão em si. Para Stephan Kautz, o Comitê deixou claro que o início do ciclo de cortes, se confirmado, será gradual. “O Copom afirmou que manterá uma ‘restrição adequada’. Isso mostra que o ciclo de flexibilização será cauteloso”, afirma.
A expectativa da EQI Asset é de que a Selic encerre o ano em 12,5%, caso o processo de desinflação continue evoluindo de forma consistente.
Leia também:






