O presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, afirmou nesta quarta-feira que a economia dos Estados Unidos deve entrar em 2026 “em bases sólidas”, ao mesmo tempo em que reforçou a avaliação de que o atual nível das taxas de juros é adequado para conduzir a inflação de volta à meta sem comprometer excessivamente o mercado de trabalho. Além disso, o presidente da autoridade monetária informou, em uma crítica velada ao presidente Donald Trump, que a independência do Fed tem sido “benéfica” para o país.
“A política monetária pode ser usada, mesmo durante um ciclo eleitoral, para influenciar a economia de uma forma que seja politicamente vantajosa”, disse ele, sem apontar exatamente quem.
As declarações foram feitas durante a entrevista coletiva após a decisão de política monetária, na qual o banco central norte-americano optou por manter os juros inalterados na faixa entre 3,5% e 3,75% ano.
Segundo Powell, houve “amplo apoio” no Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) para não realizar cortes neste momento, inclusive entre membros que não têm direito a voto. A mensagem central foi a de que o Fed está confortável em permanecer em compasso de espera, aguardando novos dados antes de qualquer ajuste.
“A política monetária não segue um curso predefinido”, afirmou, destacando que as decisões continuarão a ser tomadas reunião a reunião.
Jerome Powell: avaliação do ciclo econômico e do mercado de trabalho
Powell reconheceu sinais iniciais de estabilização da atividade econômica, mas adotou um tom cauteloso ao afirmar que ainda é cedo para conclusões mais firmes. Ainda assim, observou que a perspectiva para a atividade “claramente melhorou” desde dezembro, o que tende a ter implicações relevantes para o mercado de trabalho.
Do lado do emprego, o presidente do Fed afirmou que a demanda por mão de obra “claramente diminuiu”, acompanhando a desaceleração no crescimento da oferta de trabalhadores. Esse movimento sugere um mercado de trabalho menos pressionado do que nos anos anteriores, reduzindo riscos inflacionários vindos da dinâmica salarial. Em paralelo, a atividade no setor imobiliário segue fraca, refletindo o impacto acumulado do aperto monetário sobre o crédito e o investimento residencial.
Inflação, tarifas e leitura do Fed
No diagnóstico sobre a inflação, Powell destacou que o recente avanço dos preços de bens está ligado principalmente às tarifas, enquanto a desinflação no setor de serviços parece continuar. Para o Fed, esse ponto é particularmente relevante: a inflação causada por choques de preços em bens é considerada mais fácil de administrar do que aquela impulsionada por excesso de demanda.
O presidente do banco central afirmou que as tarifas provavelmente serão implementadas e devem gerar um aumento pontual de preços, mas ressaltou que as expectativas de inflação, tanto as medidas por pesquisas quanto as observadas nos mercados, recuaram de forma significativa. Segundo ele, é “reconfortante” que as expectativas de curto prazo tenham caído após o pico registrado com o anúncio das tarifas, reforçando a percepção de que permanecem bem ancoradas — condição vista como essencial para a estabilidade de preços no longo prazo.
Juros próximos do nível neutro e estratégia futura
Powell também observou que as taxas de juros estão agora dentro de uma faixa considerada plausível de neutralidade, ou seja, um nível que não estimula nem restringe excessivamente a economia. Nesse contexto, o Comitê avalia que a tensão entre os objetivos de inflação e emprego ainda existe, mas é menor do que em momentos anteriores do ciclo.
Apesar disso, o presidente do Fed evitou sinalizar qualquer critério objetivo ou “teste” que determine quando ocorrerá o próximo corte de juros. A instituição, segundo ele, prefere manter flexibilidade total e deixar que os dados econômicos conduzam as decisões.
Cenário fiscal, dólar e independência do Fed
Questionado sobre possíveis movimentos de proteção cambial por parte de investidores estrangeiros diante da exposição ao dólar, Powell afirmou que não há evidências relevantes nesse sentido. “Não vemos muita coisa”, disse, indicando ausência de sinais claros de fuga ou hedge significativo contra a moeda americana.
O conjunto das declarações reforça a leitura de que o Fed entra em 2026 com maior confiança no processo de desinflação, mas sem pressa para flexibilizar a política monetária, mantendo uma postura cautelosa diante de um cenário ainda marcado por riscos inflacionários e incertezas sobre o ritmo da atividade.
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