A ata do Copom, divulgada nesta terça-feira (5) pelo Banco Central, detalhou os argumentos que levaram o colegiado a reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual na semana passada, para 14,5% ao ano.
O documento mostra uma autoridade monetária incomodada com a desancoragem das expectativas de inflação, sobretudo para horizontes mais longos, mas que considerou apropriado dar sequência ao ciclo de afrouxamento diante do grau elevado de restrição da política monetária.
A decisão foi unânime entre os seis membros do colegiado presidido por Gabriel Galípolo. No texto, o Copom afirma que os efeitos da política monetária restritiva por período prolongado já se faziam presentes na desaceleração dos componentes cíclicos do PIB no fim de 2025 e seguem visíveis no início de 2026, em especial pela desaceleração do saldo de crédito livre.
Expectativas desancoradas
O Boletim Focus desta semana revelou que as projeções de inflação de 4,9% para 2026 e 4% para 2027, ambas acima da meta. O Comitê reconhece que as expectativas voltaram a subir após o início dos conflitos no Oriente Médio e destaca que ficou evidente uma desancoragem adicional para horizontes mais longos, em particular para 2028.
Segundo o documento, o custo de desinflação sobre o nível de atividade é maior em ambientes com expectativas desancoradas, o que exige restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado.
“Mesmo com toda essa insatisfação com as expectativas e o choque internacional, o BC julgou prudente cortar 25 bps sob a justificativa de que há um grau elevado de restrição de juros”, afirmou Étore Sanchez, economista da Ativa Investimentos. Para ele, o parágrafo 15 da ata é o mais relevante para a leitura sobre os próximos passos da autoridade monetária.
No parágrafo destacado, o Copom afirma que os eventos recentes não impediriam o prosseguimento do ciclo de calibração e conclui que a redução de 0,25 ponto percentual é a mais adequada para esta reunião. O texto também reforça que a magnitude e a duração do ciclo serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às análises do Comitê.
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Cenário externo
No cenário de referência, as projeções do Banco Central apontam IPCA acumulado em quatro trimestres de 4,6% para 2026 e de 3,5% para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária.
A trajetória parte de uma taxa de câmbio de R$ 5 por dólar e considera bandeira tarifária amarela em dezembro de 2026. Os conflitos no Oriente Médio elevam a volatilidade de preços de ativos e commodities, exigindo cautela por parte de países emergentes.
“Vemos uma assimetria em prol de aceleração de cortes por parte do BC. A autoridade achou prudente cortar 25 bps com a conjuntura atual e, se tiver alguma atenuação, há a possibilidade de aceleração do ritmo de afrouxamento, ainda que não seja o cenário base”, avaliou Sanchez. O economista destaca que o tom prospectivo da ata reafirma a postura cautelosa diante das incertezas externas.
A ata reforça o compromisso do Copom com o combate aos efeitos de segunda ordem do choque de oferta do petróleo e seus derivados. O Comitê avaliou que os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual diante da indefinição sobre os conflitos. Entre os riscos de alta, destacam-se a desancoragem das expectativas, a resiliência da inflação de serviços e o impacto cambial sobre os preços.
“Sustentamos a perspectiva de que em breve haverá uma reversão, ainda que parcial, dos efeitos do conflito, diante do calendário eleitoral norte-americano, que exigiria uma melhor aprovação de Trump e do governo republicano”, afirmou Sanchez. A Ativa projeta um corte de 50 pontos-base na reunião de junho do Copom, com potencial aceleração nos encontros seguintes.






