O momento geopolítico e econômico atual tem sinalizado um fato considerado importante: a Ordem Mundial teria chegado ao fim, após cerca de 80 anos em vigor?
A recente saída dos Emirados Árabes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) reforça essa ideia. A decisão, divulgada pela agência estatal WAM, marca uma das mais relevantes rupturas recentes dentro do principal cartel global de petróleo e levanta questionamentos sobre o futuro da organização liderada pela Arábia Saudita.
De acordo com o governo emiradense, a saída está alinhada à estratégia econômica de longo prazo do país, que prevê a ampliação de investimentos na produção doméstica de energia, além de maior autonomia na condução de sua política energética. O movimento ocorre em meio a um cenário de tensões geopolíticas no Oriente Médio e elevada volatilidade no mercado internacional de petróleo.
Além disso, na segunda-feira (27), o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), cravou que a atual ordem acabou. Ele citou que instituições antes inquestionáveis como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Banco Mundial.
“Não adianta tentar pintar um quadro mais róseo. Acabou mesmo”, disse ele, de acordo com matéria publicada pelo jornal Valor Econômico.
Décadas de crescimento
O economista avaliou que, no período posterior à Segunda Guerra Mundial, o mundo passou por uma reorganização institucional que sustentou décadas de crescimento econômico e integração global.
Segundo Fraga, foram criadas instituições multilaterais relevantes, como a ONU, o Banco Mundial e o FMI, que estabeleceram uma base de cooperação entre países. “Era o espírito da época: reconstrução”, afirmou, em entrevista ao Valor.
O economista destacou que esse arranjo institucional abriu caminho para um período de forte prosperidade global, ainda que relativamente curto. Para ele, o momento gerou a expectativa de um cenário internacional mais estável, pacífico e favorável ao desenvolvimento econômico.
No centro dessa transformação está a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China. A disputa vai além do comércio e envolve liderança tecnológica, segurança energética e influência geopolítica. Nos últimos anos, medidas como restrições a exportações de semicondutores e incentivos à reindustrialização têm sinalizado uma fragmentação gradual da economia global.
Novo eixo global
Ao mesmo tempo, economias emergentes têm ampliado sua relevância no cenário internacional. Países como Índia e Brasil buscam maior protagonismo em fóruns multilaterais e negociações comerciais, enquanto blocos como o Brics avançam em iniciativas para reduzir a dependência do dólar e fortalecer mecanismos próprios de financiamento.
Essa reconfiguração também passa pela reorganização das cadeias globais de produção. O movimento de “friendshoring” — realocação de fábricas para países aliados — e a busca por maior resiliência logística têm levado empresas a diversificar fornecedores e reduzir a exposição a regiões consideradas estratégicas ou instáveis.
Energia e segurança
O setor energético segue como um dos principais vetores dessa transformação. Conflitos recentes, como na Ucrânia e no Irã, e sanções econômicas alteraram fluxos globais de petróleo e gás, impactando preços e estratégias nacionais. Países exportadores ganharam novo peso nas negociações internacionais, enquanto economias desenvolvidas aceleram a transição para fontes renováveis.
Além disso, a segurança energética passou a ser tratada como prioridade estratégica, impulsionando investimentos em infraestrutura, armazenamento e novas tecnologias. A busca por autonomia nesse campo tem reforçado políticas industriais e ampliado a competição entre nações.
Cenário em transição
Embora a globalização não tenha sido revertida, há sinais claros de reconfiguração. Barreiras comerciais mais frequentes, disputas por recursos estratégicos e a regionalização de mercados indicam um ambiente mais complexo e menos previsível para governos e empresas.
O resultado é um cenário de transição, em que cooperação e competição coexistem. A forma como países e blocos econômicos irão se posicionar nesse novo arranjo será determinante para o ritmo de crescimento global e para a estabilidade econômica nos próximos anos.
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