A Vale (VALE3) engavetou o plano de abrir o capital da Vale Base Metals (VBM), sua subsidiária de minerais críticos, e a resistência do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pesou na decisão. A informação é de reportagem do jornal canadense The Globe and Mail publicada nesta sexta-feira (4), com base em três fontes não identificadas.
Segundo duas dessas fontes, Lula queria que a mineradora mantivesse o controle da unidade, cujo portfólio inclui grandes minas de cobre em território brasileiro. As operações incluem a Onça Puma (níquel), em Ourilândia do Norte (PA), Salobo (cobre), em Marabá (PA), e Sossego (cobre), localizada em Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará.
A avaliação em Brasília seria de que a listagem enfraqueceria a posição do país como potência global em recursos naturais, já que implicaria perda de controle sobre esses ativos.

Nem a Vale nem a Vale Base Metals comentaram diretamente a suspensão. Em nota enviada por e-mail, a subsidiária afirmou que a prioridade é acelerar o crescimento orgânico em cobre e melhorar a eficiência operacional em níquel, sem mencionar o IPO.
“Estamos em estágio avançado de nossa transformação e construindo um histórico consistente de entregas. Em última análise, nossa prioridade é acelerar o crescimento orgânico em cobre e aumentar a eficiência operacional em níquel”, afirmou a empresa.
O Ministério de Minas e Energia e a Presidência foram procurados pelo jornal e não responderam.

O que é a Vale Base Metals
Sediada em Londres e com centro global de operações em Toronto, a companhia foi separada internamente da controladora em 2023, justamente para preparar a abertura de capital. Tem equipe própria de gestão e de relações com investidores.
O portfólio reúne as operações de cobre, níquel e cobalto da Vale, distribuídas por Canadá, Brasil, Japão, Reino Unido e Indonésia. Os ativos canadenses de níquel foram comprados da Inco em 2006, por US$ 19,4 bilhões. Hoje a Vale detém 90% da subsidiária, e os 10% restantes pertencem à saudita Manara Minerals, que pagou cerca de US$ 2,5 bilhões pela fatia em 2024.
Uma janela de preço que se fecha
O momento agrava a perda. O cobre era negociado a US$ 6,57 a libra-peso na quinta-feira, patamar próximo do recorde histórico, o que daria à operação uma avaliação elevada. Em março, o diretor financeiro Marcelo Bacci havia dito a jornalistas que a companhia não tinha pressa, mas que a transação poderia sair ainda neste ano.
A suspensão também deixa em aberto o futuro da equipe de gestão, parte dela recrutada especificamente para preparar a listagem. O sul-africano Shaun Usmar, veterano da Xstrata e ex-presidente da Triple Flag Precious Metals, assumiu o comando da subsidiária em 2024. As três fontes afirmaram que o IPO está suspenso por tempo indeterminado, mas pode ser retomado mais adiante.
Redução de Ebitda
Em junho, a Vale reduziu a sua projeção (guidance) para a participação da (VBM) em seu Ebitda consolidado.
A estimativa ficou em 28%. A anterior, divulgada no final de março, estava em um intervalo entre 30% e 35%.
Segundo a empresa, a nova projeção considera, como premissas principais, os preços médios de cobre, níquel e ouro em 2026, com base na média das estimativas de analistas sell-side disponíveis em maio de 2026.

Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos
O Brasil criou, nesta semana, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, uma nova etapa burocrática para determinadas operações no setor.
Para o BTG Pactual (BPAC11), o poder concedido ao governo para homologar operações societárias pode atrasar investimentos estrangeiros justamente quando o Brasil precisa atrair capital e tecnologia.
O PL 2.780/2024 foi aprovado pelo Senado nesta quarta-feira (2) e segue para sanção presidencial. Como os senadores fizeram apenas alterações de redação, o texto não precisará retornar à Câmara dos Deputados.
Embora o debate seja frequentemente associado às terras raras, a proposta abrange um conjunto mais amplo de minerais considerados essenciais para a transição energética, a segurança alimentar, a indústria de tecnologia e a defesa nacional.
Em relatório assinado por Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo, o BTG considera os incentivos positivos, mas demonstra preocupação com o aumento da interferência governamental sobre fusões, aquisições e investimentos estrangeiros no setor.
“Dar a um conselho controlado pelo governo o poder de aprovar mudanças de controle acrescenta uma camada adicional de incerteza regulatória, justamente quando o Brasil precisa de capital estrangeiro e conhecimento técnico”, afirmam os analistas do BTG.
Leia também:






