Para o CEO da TOTVS (TOTS3), Dennis Herszkowicz, a visão do mercado sobre as empresas de software diante do avanço da Inteligência Artificial (IA) está “completamente errada”.
Em entrevista exclusiva ao EuQueroInvestir, o executivo afirma que a reação recente das ações do setor é uma leitura precipitada e desproporcional sobre o impacto real da tecnologia.
Para entender a afirmação do CEO, é preciso olhar para o cenário atual. Nos últimos meses, empresas de software vêm enfrentando maior volatilidade diante do avanço das ferramentas de IA generativa, especialmente após atualizações do modelo Claude, da Anthropic.
A empresa ganhou visibilidade recentemente em meio a debates sobre segurança de IA e ao lançamento de novas versões do Claude, o que ampliou as preocupações de investidores sobre o impacto da tecnologia na indústria de software.
Com o surgimento de modelos cada vez mais sofisticados e plataformas capazes de gerar código por meio de prompts, parte do mercado passou a questionar se a inteligência artificial poderia reduzir barreiras de entrada e pressionar empresas tradicionais de software.
Esse debate também se refletiu nas ações do setor.
No Brasil, os papéis da TOTVS acumulam queda de cerca de 12% em 2026 e recuo de 14% nos últimos seis meses. Em 12 meses, a ação ainda registra alta próxima de 5%, mas perdeu força após o forte rali do Ibovespa no final de 2025.
O movimento não é exclusivo da empresa brasileira.
Os BDRs da SAP (SAPP34) recuam cerca de 19% no ano, 10% em seis meses e 32% em 12 meses.
Já o TECK11, ETF que acompanha empresas globais de tecnologia, cai cerca de 8% em 2026 e 10% nos últimos seis meses, embora ainda mostre alta de 14% em um ano.
Para Herszkowicz, essa reação reflete uma interpretação equivocada de parte do mercado.
“A narrativa de que a IA vai acabar com o software é uma interpretação que ignora como funcionam os sistemas de gestão e o papel crítico que eles desempenham dentro das empresas, como se ‘software’ fosse uma coisa só e como se a criação por prompts eliminasse a necessidade de plataformas de gestão mais robustas e completas, como um ERP”, comentou o CEO da TOTVS.
Por que o CEO acredita que o mercado está errado
A avaliação do executivo parte da premissa de que o negócio de software corporativo vai muito além da simples escrita de código.
Sistemas de gestão empresarial, como ERPs, integram processos críticos das companhias — finanças, logística, vendas, produção e recursos humanos. Essas plataformas exigem alto nível de governança, segurança, consistência de dados e integração entre sistemas. São fatores que tornam improvável uma substituição simples por aplicações geradas por IA generativa.
Herszkowicz destaca que esses sistemas são extremamente críticos e complexos, e que exigem precisão e governança que uma IA generativa dificilmente consegue replicar de forma isolada.
“Nossa visão é que a inteligência artificial não elimina o software — ela tende a aumentar o valor e a capacidade dessas plataformas, criando uma nova camada de inteligência sobre os sistemas que já operam os processos das empresas”, argumenta.
Estratégia da Totvs: IA como ferramenta de ataque
Em vez de enxergar a IA como ameaça, a TOTVS pretende usá-la como vetor de expansão de mercado.
Herszkowicz reforça que o objetivo da companhia é liderar o desenvolvimento de soluções de IA voltadas para o ambiente corporativo no Brasil, especialmente no segmento B2B.
A estratégia envolve a criação de agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas dentro dos sistemas de gestão, auxiliando na tomada de decisões, interpretação de dados e execução de processos operacionais.
“Na TOTVS, enxergamos a inteligência artificial muito mais como uma alavanca de produtividade e evolução do software do que como uma ameaça ao setor. Por isso a ideia de que a IA vai ‘matar’ o mercado de software, em nossa visão, está absolutamente equivocada”, explica.
O executivo salienta que a IA é uma oportunidade enorme de ampliar e evoluir o valor do software nas empresas.
“Em vez de competir em infraestrutura ou modelos de linguagem, a estratégia da TOTVS é aplicar IA diretamente nos processos de gestão dos nossos clientes, criando agentes altamente especializados capazes de executar tarefas e aumentar a eficiência operacional”, complementa.
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O papel do LYNN na estratégia de IA
Como parte dessa estratégia, a companhia anunciou o LYNN, descrito como o primeiro foundation de inteligência artificial B2B desenvolvido no Brasil.
A plataforma foi construída com base no conceito de Artificial Narrow Intelligence (ANI) — um tipo de IA especializada em tarefas específicas. Diferente da Artificial General Intelligence (AGI), que busca replicar capacidades humanas de forma ampla, a ANI é desenvolvida para resolver problemas dentro de contextos bem definidos.
Segundo a companhia, esse modelo é mais adequado para o ambiente corporativo, onde precisão, governança, segurança e confiabilidade dos dados são essenciais.
A ideia é que o LYNN funcione como uma infraestrutura capaz de acelerar o desenvolvimento de agentes de IA aplicados a processos empresariais. Para isso, a TOTVS anunciou um plano de investimento de cerca de R$ 300 milhões ao longo de quatro anos.
“A TOTVS tem como objetivo liderar a IA B2B no Brasil, liderando a construção de agentes que melhorem o desempenho de nossos clientes, avançando na cadeia de valor do que fazemos e ampliando significativamente nosso mercado endereçável”, destacou Herszkowicz.
Agentes de IA podem ampliar mercado de software
Além de melhorar os produtos existentes, o CEO destaca que a IA pode abrir novas fontes de receita para empresas de software.
Segundo a avaliação da TOTVS, existe hoje um desequilíbrio nas empresas entre o gasto com software e o gasto com pessoas operando sistemas e executando processos.
Em muitos casos, o custo de mão de obra associado à operação dos sistemas é significativamente maior do que o próprio investimento nas plataformas tecnológicas.
Com o avanço dos agentes de IA, parte dessas tarefas pode passar a ser executada diretamente pelos sistemas. Isso cria um novo espaço de monetização: empresas de software passam a oferecer não apenas ferramentas de gestão, mas também automação inteligente de processos. Na visão da companhia, o mercado potencial dessa nova camada pode ser significativamente maior do que o mercado tradicional de software corporativo.
“O gasto das empresas com pessoas operando sistemas pode ser imensamente maior do que o gasto com o próprio sistema, e é justamente nesse espaço que os agentes de IA passam a atuar. Nossa ambição é posicionar a TOTVS como líder na criação de agentes de IA integrados aos processos de gestão, usando nosso conhecimento profundo dos setores em que atuamos para criar soluções que efetivamente aumentem a produtividade e a performance das empresas”, afirma.
IA pode ampliar valor do software
Para Herszkowicz, a história da indústria de tecnologia mostra um padrão claro: avanços que tornam o desenvolvimento de software mais fácil tendem a beneficiar as próprias empresas do setor, e não a enfraquecê-las.
Isso porque a simplificação da criação de sistemas costuma levar a uma expansão do mercado e ao surgimento de novas aplicações.
Na visão do executivo, a inteligência artificial deve seguir essa mesma lógica: em vez de reduzir o papel das plataformas corporativas, a tecnologia pode ampliar sua capacidade e criar novas oportunidades de automação dentro das empresas.
“A inteligência artificial não elimina o software — ela tende a aumentar o valor e a capacidade dessas plataformas, criando uma nova camada de inteligência sobre os sistemas que já operam os processos das empresas”, destacou.






