Super El Niño pode redesenhar o mapa de riscos da Bolsa
Análise aponta pelo menos dois terços de chance do fenômeno se materializar na versão forte ou superforte; analistas identificam vencedores e perdedores em cada setor da Bolsa
O mercado financeiro pode precisar incorporar uma nova variável ao radar a partir de setembro: o Super El Niño.
De acordo com o NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), há pelo menos dois terços de chance de o fenômeno meteorológico se materializar em sua versão forte ou superforte neste período, com impactos relevantes sobre setores inteiros da Bolsa brasileira.
“O fenômeno El Niño ocorre quando a temperatura da superfície do mar na região central e leste do Pacífico Equatorial fica acima do normal, alterando padrões globais de circulação atmosférica, chuva, temperatura e ventos. Para o Brasil, os impactos estão relacionados a seca nas regiões Norte e Nordeste, chuvas mais fortes na região Sul e cenário binário entre seca e chuva no Sudeste e Centro-Oeste”, explica o time de analistas da Genial Investimentos.
(Imagem: Copilot)
Os setores mais expostos ao risco
Na geração de energia elétrica, o risco é classificado como moderado a alto.
A Axia (AXIA3) aparece como o nome mais vulnerável, por sua elevada concentração de capacidade instalada nas regiões Norte e Nordeste, justamente as mais sujeitas à seca em cenários de Super El Niño.
Em contrapartida, a Copel (CPLE6) surge como um nome relativamente beneficiado, dada sua maior exposição à Região Sul, que tende a receber mais chuvas durante o fenômeno. No setor financeiro, o risco também é considerado moderado a alto.
“Banco do Brasil (BBAS3), ABC Brasil (ABCB4) e Banrisul (BRSR6) aparecem com maior risco, pela exposição direta ou indireta ao crédito rural e agro, enquanto bancos de varejo mais diversificados tendem a sofrer impacto secundário e menos direto”, avaliam os analistas da Genial.
No segmento de seguros, IRB (IRBR3), Porto Seguro (PSSA3) e BB Seguridade (BBSE3) ficam mais expostos por linhas sensíveis a eventos climáticos, como rural, automóvel e residencial. A Caixa Seguridade (CXSE3) aparece como opção mais defensiva pelo portfólio mais diversificado.
Em mineração e siderurgia, Usiminas (USIM5) e CSN Mineração (CMIN3) concentram os maiores riscos, com produção fortemente concentrada em Minas Gerais.
A CSN (CSNA3) também entra no radar via CMIN e por custos de energia em Volta Redonda. No agronegócio, SLC Agrícola (SLCE3) e BrasilAgro (AGRO3) são os nomes mais citados, por exposição ao Cerrado, milho de segunda safra e janela de plantio fora do ideal.
“SLC tem diversificação para o MAPITOBA, mas irrigação ainda pouco representativa como mitigante”, destacam os analistas. Entre os frigoríficos, a Minerva (BEEF3) é o nome de maior beta ao ciclo bovino sul-americano, sem diversificação de proteína, enquanto JBS (JBSS3) e MBRF (MBRF3) são mais defensivas pela diversificação de produtos e geografia.
Foto: Divulgação
Os setores menos afetados — e os mitigantes
Saneamento, construção e papel e celulose figuram como os setores de menor exposição ao fenômeno. Sabesp (SBSP3) e Copasa (CSMG3) podem sofrer em casos de seca prolongada, mas a Sanepar tende a ser menos exposta ao risco de escassez hídrica num El Niño típico.
“Suzano (SUZB3) parece relativamente mais defensiva que Klabin (KLBN11), dada maior escala, produtividade florestal, menor raio médio de abastecimento e hedge de commodities”, apontam os analistas da Genial.
Vale (VALE3), apesar de ter risco relevante no Sistema Sudeste, conta com importante mitigante no Sistema Norte, via Carajás. Gerdau (GGBR4) se beneficia da diversificação geográfica e da forte contribuição das operações nos EUA para o Ebitda.
“É importante mencionar que esse relatório se baseia em um cenário hipotético — ainda que com boa possibilidade de materialização. A quantificação do impacto nos fundamentos ainda é muito difícil, e qualquer exercício nesse sentido seria meramente especulativo”, ressalva o time da Genial, recomendando acompanhamento gradual do tema e atualizações tese a tese conforme o fenômeno se desenvolver.