Os encontros recentes do Santander com investidores em São Paulo e no Rio de Janeiro indicaram preferência por ações com perfil mais defensivo e previsibilidade de resultados. Entre os nomes mais citados estão C&A (CEAB3), Tenda (TEND3), Equatorial (EQTL3), Copasa (CSMG3), BTG Pactual (BPAC11), Smart Fit (SMFT3) e Cury (CURY3), além de utilities em geral, refletindo busca por resiliência em meio ao ambiente macroeconômico desafiador.
Por outro lado, papéis como Ambev (ABEV3), B3 ($B3SA3), Cyrela (CYRE3) e parte relevante do varejo seguem sendo evitados, diante de pressões de lucro e maior sensibilidade a juros.
Posicionamento leve e cautela generalizada
De acordo com o Santander, o sentimento predominante é de cautela, mas sem sinais de capitulação. Hedge funds operam com exposição direcional limitada ao Brasil, enquanto investidores long-only reduziram risco ativo e, em alguns casos, elevaram o nível de caixa.
“O principal feedback foi de cautela, mas sem capitulação, com posicionamento bastante leve em Brasil”, afirma Aline de Souza Cardoso.
Apesar disso, o tom não é abertamente negativo. A dificuldade em encontrar boas posições vendidas ilustra um mercado que já precificou boa parte dos riscos. “Os valuations já parecem incorporar uma parcela relevante das más notícias, o que torna o short mais difícil”, avalia Andres Soto.
Macro ainda impede maior convicção
O relatório destaca que o Brasil não é hoje um mercado “crowded”, o que reduz o risco de fluxos forçados de venda, mas também limita o impulso para altas mais consistentes. Entre as principais preocupações seguem o risco fiscal, inflação elevada, inclinação da curva de juros e a possibilidade de reversão do rali global impulsionado por tecnologia.
“A ausência de um posicionamento carregado reduz a pressão vendedora, mas também tira o suporte necessário para um rali mais forte”, diz Ulises Argote. Nesse contexto, investidores permanecem seletivos e dependentes de sinais mais claros do ambiente macro.
A possível reabertura do Estreito de Hormuz foi mencionada como um fator positivo para ativos de risco, mas com impacto considerado limitado. O alívio externo pode gerar movimentos táticos, mas não é visto como suficiente para sustentar uma tendência estrutural de alta no mercado brasileiro.
Micro mais construtivo e busca por qualidade
No nível microeconômico, no entanto, a percepção é mais positiva. Investidores orientados a valor identificam oportunidades em empresas com geração de caixa consistente e maior previsibilidade de resultados. Esse movimento tem favorecido setores menos cíclicos e negócios com menor exposição ao ambiente doméstico mais volátil.
“A assimetria começou a melhorar, especialmente em nomes de qualidade e com forte geração de caixa”, afirma Aline de Souza Cardoso. Esse cenário sugere um mercado menos vulnerável a quedas abruptas, ainda que sem catalisadores claros para uma recuperação mais intensa.
Ainda assim, não há consenso em diversos setores relevantes, como bancos, mineração, petróleo e tecnologia. Empresas como Nubank (ROXO34), Vale (VALE3), Totvs (TOTS3) e operadoras de telecom seguem dependentes de maior visibilidade sobre fatores como crescimento, regulação e preços de commodities.
No balanço geral, o Santander avalia que o Brasil “ainda não é um clean long”, mas já deixou de ser uma aposta clara de venda. A melhora da assimetria, combinada com valuations mais atraentes e posicionamento leve, pode abrir espaço para alta se houver alguma melhora no cenário externo ou doméstico.






