Home
Notícias
Ações
Safra rebaixa Engie (EGIE3) para venda e vê Jirau como possível teste de estresse

Safra rebaixa Engie (EGIE3) para venda e vê Jirau como possível teste de estresse

Banco reduziu a recomendação de neutro para underperform, com preço-alvo de R$ 34,20, ao considerar o valuation exigente após o rali recente das ações

A Engie (EGIE3) perdeu espaço na cobertura do Safra. Os analistas Daniel Travitzky, Carolina Carneiro e Ricardo Bello rebaixaram a recomendação da geradora de energia de neutro para venda, em relatório que reabre o debate sobre o quanto da tese da companhia já está no preço.

O novo preço-alvo de 12 meses subiu de R$ 33,50 para R$ 34,20, mas a valorização recente das ações deixou o papel praticamente sem espaço para avançar, com queda potencial de 0,3% em relação à cotação de R$ 34,29.

As ações da Engie acumulam alta de 20% nos últimos 12 meses e de 10% no ano, performance que descolou parte do potencial de valorização original.

Para o Safra, o rali recente foi puxado pelo reconhecimento dos recebíveis do Uso de Bem Público (UBP) e pela tendência de alta dos preços de energia. O movimento reduziu o espaço para a tese, mesmo com o portfólio operacional considerado robusto pelos analistas.

Publicidade
Publicidade

O que o Safra pensa sobre a Engie

A casa pondera que a Engie segue com uma carteira de ativos atraente, mas argumenta que outros nomes do setor elétrico oferecem hoje melhor relação risco-retorno. A companhia não figura entre as utilities mais bem ranqueadas na cobertura do banco, e a alavancagem segue como ponto de atenção, com dívida líquida sobre Ebitda projetada em 3,4 vezes ao fim de 2026.

O capex previsto para o período de 2026 a 2030 é de R$ 7,3 bilhões, somado a R$ 2,4 bilhões em pagamento antecipado das obrigações de UBP.

“Vemos uma valuation mais exigente nos preços atuais, implicando uma TIR de 8,2%, abaixo da média dos pares de 9,6%, e um dividend yield médio de 5,4%, resultado de um payout de 50%”, escrevem Travitzky, Carneiro e Bello. “Notamos também que a companhia pode prosseguir com a aquisição da hidrelétrica de Jirau, conforme os planos anunciados pelo conselho de administração.”

A revisão de modelo incorporou os resultados recentes, os novos projetos arrematados no leilão de transmissão 01/2026, os impactos do novo acordo de UBP e premissas atualizadas para preços de energia, curtailment e GSF (Generation Scaling Factor). No conjunto, as estimativas de Ebitda para o triênio 2026 a 2028 foram revisadas em -1,2%, em média.

Em relação ao consenso de mercado, o Safra projeta receita líquida 17,4% superior para 2026 e lucro líquido 57,6% maior, com o destaque vindo de itens não recorrentes ligados ao reconhecimento dos recebíveis de UBP.

Leia também:

Jirau no radar

A possível incorporação dos 40% da hidrelétrica de Jirau, hoje detidos pela Engie Brasil Participações, é tratada pelo Safra como o principal evento de risco da tese. A holding controladora da companhia listada anunciou em dezembro de 2025 que iniciara os estudos para a transferência da participação. A usina, localizada em Rondônia e construída entre 2009 e 2016, tem capacidade instalada de 3.750 MW e capacidade comercial de 2.257 MWa.

A concessão expira em 2045, e os contratos de compra e venda mais importantes vencem em 2042 (1.565 MW) e 2034 (538 MW). Jirau tinha dívida líquida de R$ 7,9 bilhões no fim de 2025.

“Acreditamos que esse evento pode adicionar volatilidade à ação, já que transações passadas com partes relacionadas levantaram preocupações entre acionistas minoritários”, afirmam os analistas. “Embora o negócio seja analisado por um comitê independente, o valuation apresentado em relação às estimativas de mercado vai determinar os impactos potenciais sobre a companhia.”

O Safra avalia 100% da Jirau Energia em um enterprise value de cerca de R$ 19 bilhões e um equity value de R$ 11,1 bilhões, o que implica múltiplos de 9,0 vezes EV/Ebitda 2025 e EV/MW de R$ 5,1 milhões. Considerando a fatia de 40% que a Engie poderia adquirir, o equity value associado seria de R$ 4,4 bilhões.

A Jirau é controlada em conjunto pela Engie Brasil Participações (40%), pela Axia Energia (40%) e pela Mitsui & Co. (20%), e desde a construção da usina o controlador francês manifestou interesse em transferir a participação para a companhia listada.

Para chegar ao novo preço-alvo de R$ 34,20, o Safra utilizou um WACC (Custo Médio Ponderado de Capital) de 9,9% para a operação de geração e transmissão e de 9,8% para a TAG, braço de gasodutos da companhia. No alvo, a Engie negociaria a 8,0 vezes EV/Ebitda, em linha com o múltiplo atual, o que reforça a leitura de que a expansão de múltiplos como motor da tese de alta perdeu força.

Entre os riscos que poderiam destravar valor para a ação estão a volatilidade nos preços da energia no braço de geração, uma eventual aquisição da Jirau em termos favoráveis para os minoritários e uma gestão melhor do que o esperado do balanço energético da companhia.