O Mercado Livre (MELI34) segue como uma das principais apostas do banco Safra para 2026, mesmo após a revisão negativa de estimativas de lucro e margens. O ponto central do relatório é que a pressão de curto prazo sobre a rentabilidade já está amplamente precificada, abrindo espaço para valorização diante do forte crescimento estrutural da companhia.
Após incorporar os resultados do quarto trimestre de 2025 e novas premissas macroeconômicas — incluindo uma taxa Selic média mais alta no Brasil — o Safra reduziu o preço-alvo da ação de US$ 2.800 para US$ 2.400 ao final de 2026. Ainda assim, reiterou recomendação outperform (compra), sustentada pela combinação de expansão acelerada e elevado retorno sobre o capital.
A instituição projeta um CAGR de receita bruta de 25% entre 2025 e 2028, reforçando a tese de crescimento consistente em todas as geografias. As estimativas de GMV foram revisadas para cima em cerca de 5% para os próximos anos, refletindo perspectivas mais favoráveis tanto no Brasil quanto em México e Argentina.
No braço financeiro, o Mercado Pago deve continuar sendo um dos principais vetores de expansão. O Safra elevou levemente suas projeções, com expectativa de aumento da carteira de crédito e melhora nos indicadores de inadimplência acima de 90 dias, apoiados por modelos mais sofisticados de concessão.
Apesar disso, a receita líquida de e-commerce deve crescer em ritmo um pouco menor, impactada por uma redução na premissa de take rate no Brasil. Em contrapartida, a divisão fintech deve apresentar crescimento mais robusto, com revisões positivas de cerca de 6% nas projeções para os próximos três anos.
Margens pressionadas
O principal ponto de atenção segue sendo a rentabilidade no curto prazo. O Safra reduziu suas estimativas de margem bruta em até 249 pontos-base até 2028, refletindo o impacto mais intenso da política de frete grátis no Brasil.
Além disso, maiores despesas com vendas — incluindo cupons e incentivos comerciais — e o aumento da oferta de crédito, especialmente na Argentina, devem pressionar as margens EBIT, com revisões negativas que chegam a 340 pontos-base no período projetado.
Como consequência, as projeções de lucro líquido foram cortadas de forma relevante: queda de 15% para 2026, 18% para 2027 e 21% para 2028. O Safra também destaca que seus números já estão abaixo do consenso de mercado, indicando espaço para revisões negativas adicionais por outros analistas.
Valuation e riscos
Mesmo com esse cenário, o valuation segue considerado atrativo. No preço-alvo, o Mercado Livre negocia a um múltiplo P/L implícito de 38x, abaixo da média histórica de 49x, o que reforça a leitura de que parte relevante dos riscos já está embutida nos preços.
A avaliação foi conduzida via fluxo de caixa descontado (DCF), com crescimento na perpetuidade de 5,5% e custo de capital próprio (Ke) de 13,6%. O Safra ressalta que a companhia apresenta o maior ROIC médio entre as empresas sob sua cobertura, o que justifica múltiplos estruturalmente mais elevados.
Entre os principais riscos, o banco destaca o cenário macroeconômico, desafios de execução na recuperação de margens, concorrência de players globais com estratégias agressivas de preço, além da elevada exposição à Argentina e possíveis mudanças no calendário comercial.
Apesar das revisões negativas no curto prazo, a visão estrutural permanece positiva. Para o Safra, o Mercado Livre continua bem posicionado para capturar o crescimento do comércio eletrônico e dos serviços financeiros na América Latina, com capacidade de sustentar retornos elevados ao longo do ciclo.






